Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

26 de Fevereiro de 2018, 09:08

Por

As árvores já não morrem de pé

Um plátano foi decepado na Avenida da Liberdade em Lisboa. Algumas pessoas de um autocarro de turismo ficaram feridas num insólito choque com a ramagem alta da árvore. Perante o sucedido, abriu-se o inquérito do costume, vai averiguar-se se o veículo teve algum desvio na sua circulação, far-se-ão investigações apropriadas e, certamente, no fim teremos, como nas histórias infantis e apesar de alguns percalços, um final relativamente feliz. O seguro do veículo funcionará com mais ou menos dificuldade e as pessoas que ficaram maltratadas recuperarão do susto.

Só um ser vivo é que foi condenado, sem apelo nem agravo, à imediata sentença de morte. Ali mesmo no pelourinho do asfalto da Avenida. O pobre plátano já com idade vetusta foi amputado pela base e o tronco cortado em fatias. Não se pôde sequer defender. Afinal ali passam centenas e centenas de veículos de igual porte, todos os dias, e eis que subitamente um provável erro humano recai na fulminante condenação à morte da árvore. Nem houve tempo para discernir entre a sua morte crua e o desbaste de ramagens que, na sua alta copa, pudessem prevenir situações semelhantes.

Ali vai jazer, sabe-se lá por quanto tempo, o que resta de um tronco imponente de uma árvore que não estava doente ou sofredora para pedir alguma forma de eutanásia vegetal.

Ao mesmo tempo e nestas semelhantes circunstâncias, deparamos com o clássico e recorrente “passar de culpas”. A Câmara lava daí as suas mãos e reafirma que a competência e responsabilidade é da Junta de Freguesia. Esta diz que lhe faltam os meios para actuar, tratar e prevenir. Provavelmente as duas terão as suas razões, mas quem não tem culpa nenhuma são as árvores.

Não quero com este desabafo tirar mérito ao trabalho da CML que, muito bem, tem procurado reabilitar e desenvolver um melhor equilíbrio entre espaço urbano e ambiente arbóreo e ajardinado. Também sei como é difícil e dispendiosa a manutenção constante das zonas verdes.

Lisboa é uma cidade que tem condições únicas para ter um ambiente arbóreo e botânico de braço dado com a variedade de espécies que o clima ameno oferece desde as bétulas de climas mais frios, até à fragrância das tílias e aos exuberantes jacarandás e tipuanas de habitat sub-tropical.

Pessoalmente, acho um erro a passagem das responsabilidades de manutenção para as Juntas de Freguesia. Assim se perdeu a eficaz e competente ideia de escala. Agora, cada qual faz como quer, e há sinais evidentes de que há quem não perceba patavina de cuidados com árvores (basta olhar para podas quase assassinas que se vêem aqui ou acolá ou para a secura extrema a que, não raro, estão sujeitas), como também não se substituem árvores mortas que jazem nos passeios (na Av. Fontes Pereira de Melo, dos 70 jacarandás que lá foram plantados há pouco mais de um ano, 30 já morreram mas lá continuam cadáveres entre os que resistiram). Também importa erradicar más práticas de escolha de espécies completamente desajustadas da nossa tradição arbórea.

Mas a responsabilidade não é apenas das entidades públicas. É também muito nossa. Não me refiro apenas aos maus-tratos que recebem de alguma gente que as olha (?) como de pedregulhos se tratasse, estorvando a manobra de uma qualquer viatura. Falo, também, da insensibilidade e indiferença de quem nem sequer dá pela árvore que está junto de casa e para quem tanto faz como deixa de fazer a tal espécie. Não há cultura comportamental que lhes dê a devida importância e ninguém quer saber dos benefícios das espécies arbóreas em termos ambientais. Nem sabem, nem querem saber. Um desprezo absoluto.

 

Comentários

  1. Vivo numa vila do norte e nos últimos anos todas as grandes árvores dos espaços públicos foram deitadas abaixo. Árvores com 180 anos (sim, fui ler a história dos espaços). Ou porque no Outono deitavam folhas para o Monumento aos Combatentes, ou porque as raízes levantavam o chão do terreiro, ou porque a capela (totalmente abandonada) estaria a ser prejudicada. Indivíduos decidiram de um dia para o outro eliminar o património de todos. Comentei com um deles que são pessoas para quem uma árvore que não dê vinho, simplesmente não presta. A resposta que me deram: “o que é que a árvore estava ali a fazer? Só sombra.”
    Pois algumas semanas depois foi a festa da vila e era ver os mesmos indivíduos sentadinhos a ver o rancho, à sombra de uma árvore trazida num vaso.

    Já devia haver nas Câmaras Municipais a obrigatoriedade de registar as árvores e de dar satisfações sobre as intervenções. E mesmo assim, com reservas. Veja-se o que se fez na Av. dos Aliados no Porto.

  2. Bem apontado – aliás esse ‘zelo’ foi noticiado amplamente; zelo nada consistente com um plano sistemático de avaliação e segurança do património arbóreo. O imediatismo da decisão de abater a árvore revela bem a estupidez desta gente, porque – não se duvide – é esta mesma estupidez que, noutras circunstâncias, também decide. E decide sempre mais ou menos assim. Não nos esqueçamos que a maioria desta gente tem um ódio instintivo às árvores porque atavicamente estão impregnados dessa aversão que era o mundo deles ainda algumas gerações atrás. Por outro lado (como reminiscência desse mesmo mundo) veneram os cães. Vivem enrolados com cães e amam cães, metem os cães na cama, porque era o cão a companhia que os defendia na selva. Na cidade, portanto, continuam a ser os mesmos, feitos da mesma massa.

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