Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

25 de Fevereiro de 2018, 18:37

Por

Conglomerados financeiros ou gigantes “Titanics”?

Vários conglomerados gigantes, construídos recentemente, que apostaram numa estratégia de crescimento, através de aquisições com recurso a dívida a taxas de juro elevadas, estão a enfrentar dificuldades.

Na Europa, destaca-se o grupo Altice que controla parte da antiga Portugal Telecom. A Altice detinha 74 mil milhões de euros de activos no 3T2017, dos quais 48 mil milhões de euros de activos intangíveis e “goodwill”, 52 mil milhões de euros de dívida e capitais próprios negativos de 1,8 mil milhões de euros. É surpreendente que um conglomerado com um valor patrimonial líquido de intangíveis e goodwill tão negativo, tenha conseguido atingir esta dimensão. O grupo Altice, sob pressão dos mercados financeiros e perante a queda do valor das acções, além de ter realizado diversas vendas de activos, propôs em Janeiro separar as subsidiárias americanas do resto do grupo.

Na China, a preocupação com os problemas financeiros de alguns dos conglomerados que seguiram estratégias de crescimento através de aquisições no estrangeiro – como os grupos Anbang (311 mil milhões de dólares de activos), HNA (cerca de 160 mil milhões de dólares de activos e cerca de 100 mil milhões de dólares de dívidas) e Dalian Wanda (110 mil milhões de dólares de activos) – levou o Governo chinês a instruir recentemente a imprensa a não enfatizar aqueles problemas financeiros. O grupo Fosun, que também adquiriu muitos activos no estrangeiro, parece estar numa situação financeira mais robusta (ou menos vulnerável) que os três grupos acima, mas também foi sujeito de medidas de controlo ao endividamento por parte do Governo chinês.

Esta estratégia pode funcionar se os conglomerados conseguirem crescer muito mais rapidamente do que as respectivas dívidas, objectivo difícil de atingir atendendo às muito elevadas taxas de juro a que se conseguem financiar/refinanciar. Por exemplo, recentemente, o grupo HNA, que tem um quarto da sua dívida de 100 mil milhões de dólares a vencer em 2018, procurou financiar-se a um ano a uma taxa de juro entre 11% e 12%.

O grupo HNA já falhou algumas das suas obrigações financeiras o que deveria precipitar um evento formal de incumprimento situação em que poderia estar obrigado a amortizar todas as suas dívidas imediatamente. Aparentemente, o governo chinês interveio junto dos respectivos bancos financiadores solicitando não só que não exigissem o pagamento das dívidas vencidas como também fornecessem o capital necessário para que o conglomerado possa continuar a operar.

Entretanto o conglomerado Anbang foi “nacionalizado” por um ano – i.e., o governo chinês assumiu o seu controlo por um período de um ano, desconhecendo-se os respectivos termos –tendo sido detido pelas autoridades o respectivo presidente executivo (casado com a neta do antigo presidente chinês Deng Xiaoping).

A situação da China é um caso interessante.

Teoricamente, dados os elevados excedentes da balança corrente e de capital, a moeda chinesa deveria ter tendência a apreciar-se. Mas, nos últimos anos, a moeda chinesa depreciou-se, afigura-se, em resultado de enormes fugas de capital da China. Em resposta a essa situação, o governo chinês adoptou medidas drásticas, intervindo tanto no mercado cambial, como no mercado monetário doméstico, para minimizar a depreciação da moeda chinesa e a diminuição das reservas externas que, apesar dessas medidas, caíram de 4 para 3 biliões de dólares entre 2014 e 2017. Entre essas medidas, destaca-se: a fixação de taxas de juro interbancário “overnight” muito elevadas, restrições quantitativas ao crédito, fixação de taxas de juro elevadas, nomeadamente da dívida pública da China, e mesmo desaparecimento (prisão?) temporário de oligarcas aparentemente da responsabilidade das autoridades. A panóplia de medidas foi, com efeito, grande e em alguns casos peculiar. Por exemplo, as restrições chegaram às ATM dos casinos de Macau que passaram a ter câmaras com reconhecimento facial, para evitar levantamentos de múltiplos cartões, lavagem de dinheiro e assim saída de capital da China. Em resultado destas restrições em Macau parece que as fugas de capital através das ATMs passaram para Hong-Kong.

O facto é que o sistema bancário e sobretudo o sistema bancário paralelo “shadow banking”, nos quais se destacavam conglomerados que incluíam no seu core seguradoras, criaram muita moeda creditícia nos últimos anos. Entre 2012 e 2016 estima-se que a dívida total da China tenha crescido 17 p.p. do PIB por ano, em média, tendo crescido mais 10 p.p. entre 2016 e 2017, atingindo 304% do PIB, segundo o Institute of International Finance. Essa dívida corresponderá sobretudo a novo crédito (e moeda creditícia) parte do qual criado através de instrumentos financeiros como aplicações de seguro de vida que garantiam taxas de juro elevadas, uma forma de contornar os limites às taxas de juro nos depósitos a prazo bancário e, por conseguinte, em alguns casos, possivelmente uma espécie de esquema de Ponzi.

Nessas situações de crescimento de crédito acelerado, é natural que sejam tomadas más decisões de investimento, algumas das quais mesmo deliberadas. Com efeito, sabe-se que em contextos de “exuberância irracional”, uma das estratégias possíveis de alguns devedores é pedir crédito que não têm a intenção de algum dia vir a pagar. Ora é mais fácil proteger esses créditos de bancos credores chineses e das autoridades chinesas, se esses activos estiverem no estrangeiro. Ou seja, o crédito chinês, sobretudo do sistema bancário paralelo, dispersou-se pelo resto do mundo e será agora muito difícil a alguns desses conglomerados sobreviver.

Que impactos este processo poderá ter na economia portuguesa?

Alguns dos conglomerados acima referidos adquiriram posições de controlo ou minoritárias em importantes empresas estratégicas do país, nomeadamente: em parte do antigo grupo Portugal Telecom, no maior exportador nacional – o grupo TAP – e no accionista que a controla – o grupo Azul –, na maior seguradora nacional – Caixa Seguros e Saúde/Fidelidade – e num dos maiores bancos privados nacionais – o Millennium BCP.

Cabe às autoridades portuguesas, ao governo em particular, não facilitar nem renegociar contratos a favor desses grupos e escrutinar devidamente as transacções entre partes relacionadas. Como se compreende, por exemplo, que mais de 10% da frota da Azul (16 de 142 aviões) esteja sub-alugada à TAP?

Comentários

  1. O enfraquecimento dos Estados passa por haver concentração de poder noutras esferas.

    Nem podia ser de outra maneira.

    (Internamente há muitos que na suas organizações politicas se empenham há muito nisto mesmo, sempre dissimulados em ideologias tradicionais populares para adquirirem uma respeitabilidade cívica e massiva que os conduza ao poder da minoria beneficiária determinada a pulverizar o poder dos Estados.)

  2. Too big to fail writ humoungous.
    E mesmo que não seja too big too fail, também tá tudo bem com paraquedas dourados, como a Fiorina e o Elop.

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