Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

22 de Fevereiro de 2018, 09:11

Por

Era uma vez uma não decisão

Um sociólogo americano escreveu um dia uma historieta que ficou conhecida como o paradoxo de Abilene.

Conta-se em poucas palavras: tratava-se de uma família texana que vivia numa cidade chamada Coleman. Num sábado à tarde de muito calor, estando todos em casa, a filha do casal terá lançado para o ar a pergunta se não quereriam ir jantar a Abilene, cidade a cerca de 70 quilómetros. A avó respondeu: se a tua mãe quiser podemos ir; a mãe, por sua vez, replicou: se o teu pai quiser, vamos. O pai, esse, limitou-se a um lacónico: por mim, tudo bem!

Sem mais, prepararam-se para ir jantar a Abilene. A viagem, diga-se, foi muito incómoda: o carro era velho e sem ar condicionado, o calor era tórrido, a estrada estava poeirenta e em obras. Depois, já na cidade, tiveram de esperar cerca de uma hora para terem mesa num dos restaurantes da cidade, repletos naquele fim-de-semana. Nem sequer jantaram no restaurante que mais apreciavam e a comida foi desagradável e cara!

Por fim, regressaram a casa extenuados. Nessa altura, o pai terá dito algo zangado: mas de quem foi esta ideia peregrina de ir a Abilene num dia destes? A sua mulher retorquiu: eu sempre pensei que tu querias ir!… A filha não ficou atrás e acrescentou: mas a mãe também queria ir, e mesmo a sua avó concluiu: não, o que nós pensámos é que tu é que fazias questão em ir, virando-se para o genro…

O resto da história é deixado à imaginação de cada um de nós.

Moral da historieta: formou-se uma decisão sem ninguém ter decidido de um modo claro e consciente. Neste caso e como se constatou, uma má decisão. Daí o seu autor lhe ter chamado um paradoxo comportamental.

Eis um exemplo, em forma de caricatura, do preço da pseudo colegialidade difusa e opaca, do “jogo do empurra” na tomada e efectivação de decisões e desse assomo de egoísmo dos “direitos para mim e os deveres para os outros”.

Quantas vezes isto se passa nas famílias, organizações, empresas, Estado, governos, partidos?

Uma das formas clássicas de enfraquecimento das organizações vem do uso e abuso da decisão de não decidir ou, por outras palavras, de uma quase invisível prática de desresponsabilização, seja a que nível for.

Quase sempre decidir significa optar. E se optar significa escolher, também implica renunciar a alternativas possíveis. Afinal, o contrário que se passou na simpática família do Texas.

Hoje, sedenta de técnica e com o fascínio da tecnologia, a expressão da sociedade global, mecanicista, individualista e determinista vem descentrando a importância das pessoas. Mas é nelas e com elas que se potencia a batalha da produtividade, chave de qualquer progresso, a importância da diferença numa sociedade com igualdade de oportunidades, o mérito como expressão da responsabilidade, a prudência, a sensatez e a solidariedade como reguladores da nossa relação com o outro, a utopia e a inquietude como alimentos de desígnios geracionais, a formação de elites verdadeiras e exigentes.

O pior dos défices é sempre o humano. Este défice vem-se agravando com a erosão da instituição familiar, com a desvalorização utilitarista do valor da vida, com legislação mecânica e redutora, com escolas deficitárias em valores e princípios, com pretensamente modernas, mas humanamente frias “formas empresarialmente correctas” de trabalho.  E, sobremaneira, com a generalização da indiferença que que transforma a omissão num caminho, o adiamento num meio, a apatia numa consequência, a insensibilidade numa regra.

Comentários

  1. Depois da queda da natalidade e da poupança das famílias, o Prof. Félix resume, no último parágrafo deste post, o conjunto das suas preocupações. O que, porventura, está errado é o modo como a humanidade produz e isso tem consequências: alterações climáticas, opulência e miséria lado a lado, guerras, fraudes na indústria alimentar(vide lactalis, vide adição escondida de açucar), na indústria farmacêutica, desperdício e carência alimentar lado a lado, etc.

    É preciso ir mais fundo. É preciso ir mais além. Como incentivo deixo-lhe, caro Professor, alguns versos duma cantiga dos Resistência, “Perigo”.(online You tube Resistência Perigo). É preciso que aprofunde as suas análises.

    Resistência, grupo musical português – (Alexandre Frazão, Fernando Cunha, Fernando Júdice, José Salgueiro, Mário Delgado, Miguel Ângelo, Olavo Bilac, Pedro Ayres Magalhães, Pedro Jóia, Tim).

    /vai/vai mais longe vai/vai ao fundo do fundo/não mudes de assunto/há sempre um perigo/…/sai debaixo das pedras e vai/vai mais longe, mais fundo/não mudes de assunto/só porque é mais fácil/…

  2. “Moral da historieta: formou-se uma decisão sem ninguém ter decidido de um modo claro e consciente. Neste caso e como se constatou, uma má decisão.”

    Moral da historieta do progresso: formou-se a decisão de modificar a vida com o progresso, sem ninguém ter decidido de um modo claro e consciente. Neste caso e como se constatou, com o estado calamitoso do planeta, é uma decisão má que desvaloriza e destrói a vida.

    …”a importância das pessoas. Mas é nelas e com elas que se potencia a batalha da produtividade, chave de qualquer progresso” é a posição contrária a “a desvalorização utilitarista do valor da vida”.

    O caro Félix deverá ter mais atenção à coerência do que escreve.

    Tal como o exemplo que dá na crónica, não pode aceder aos comportamentos de destruição da vida pelo progresso e, depois, reclamar que o progresso destrói e desvaloriza a vida.

    O caro Félix dá o exemplo, com o seu texto, do que supostamente tenta combater. Não decidiu se está a favor da vida (saúde) ou do progresso (insalubridade), e reclama do efeito do progresso ao mesmo tempo que reivindica a sua prática.

    Faça uso do que apregoa: “Quase sempre decidir significa optar. E se optar significa escolher, também implica renunciar a alternativas possíveis.”

    Se quer a dignidade humana terá de renunciar aquilo que a desvaloriza (o progresso e o “mercado”). As regras da saúde humana determinam a renúncia às insalubridades do progresso, e à insalubridade social, chamada de “mercado”, que determina a sua pratica e o impõe à humanidade.

    A coerência é uma chatice. Não é caro Félix?

  3. Esse paradoxo tem algo de paradoxal. Era fácil encontrar outra história exatamente com o mesmo começo. O jantar em Abilene poderia ter sido uma festa. E no fim todos quereriam ter sido os felizes decisores. O problema está no tédio desesperado com que se fazem as coisas por sempre se terem feito assim. É o cansaço… Porque estaria essa família tão entediada? Os sociólogos americanos não são boas fontes, parecem-se muito com os pastores americanos.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo