Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

11 de Fevereiro de 2018, 14:07

Por

Sinais de esperança na Coreia e não só

Durante os Jogos Olímpicos da Grécia antiga, cerimónias religiosas e desportivas em honra do deus Zeus que ocorreram de 4 em 4 anos ao longo de 12 séculos (entre 776 AC e 393 DC) na cidade de Olímpia, os peregrinos e atletas beneficiavam de uma trégua olímpica que lhes garantia salvo conduto no seu trajecto até aos jogos. Para a História ficou a ideia, incorrecta, de uma trégua olímpica que suspendia as guerras que decorriam entre as cidades estado da antiga Grécia.

Terá sido esta ideia de paz durante os Jogos Olímpicos que contribuiu para desanuviar a tensão crescente entre a Coreia do Sul e a Coreia do Norte. De facto, há pouco tempo atrás, a escalada verbal, de testes de mísseis e de exercícios militares parecia só ter um resultado possível. O líder da Coreia do Norte, ao propôr-se enviar uma delegação da Coreia do Norte aos Jogos Olímpicos de Inverno, que este ano decorrem na Coreia do Sul, e o presidente Moon Jae-in da Coreia do Sul ao acolher aquela proposta, fizeram o Mundo respirar de alívio.

Com muito simbolismo e discreta e excelente coreografia diplomática, a irmã do líder e o chefe de Estado “cerimonial” da Coreia do Norte, estiveram presentes na cerimónia de abertura dos Jogos. Nessa cerimónia, os atletas da Coreia do Norte e do Sul entraram juntos no estádio, com a bandeira da Coreia Unificada. Todos os presentes no balcão vip se levantaram para aplaudir, excepto o vice-presidente do EUA (Mike Pence) e a sua esposa. E o vice-presidente dos EUA e a irmã do líder da Coreia do Norte evitaram mesmo trocar olhares ou cumprimentar-se.

Olympic Games Korea

F: AFP, via nymag.com

 

Mas, o desanuviamento não foi completo e o impasse militar continuará após os Jogos. Com cada vez mais tensões e até conflitos militares entre actores com armas nucleares, quase parece uma questão de tempo até que armas nucleares possam vir a ser de novo utilizadas num conflito.

Com efeito, pode parecer que o Mundo nunca esteve numa situação tão perigosa como no presente. Mas é bom não esquecer que, no início dos anos 60, o Presidente John Kennedy enfrentou uma situação que se afigura pior do que a presente.

Nos EUA, pelo menos, o controlo das armas nucleares não estava no Presidente dos EUA. Um general, numa situação de conflito militar, poderia utilizar uma arma nuclear e assim desencadear uma guerra termonuclear. O Chefe do Estado Maior da Força Aérea dos EUA da altura, o general Curtis LeMay, defendia um ataque nuclear preemptivo contra a União Soviética, tese que granjeava apoios, porque o armamento nuclear dos EUA era muito superior ao da União Soviética e se acreditava, incorrectamente, que esta não teria capacidade de retaliar a um ataque nuclear surpresa. O Chefe do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas dos EUA da altura, o General Lyman Lemnitzer, defendeu um plano que previa ataques terroristas falsos no próprio território dos EUA para justificar uma guerra com Cuba. O Presidente Kennedy pediu para ver os planos estratégicos para uma guerra nuclear do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas dos EUA forças armadas e terá dito “e nós chamamo-nos a raça humana?”, ao constatar que os planos previam a destruição das principais cidades da União Soviética, da China e da Europa de Leste, com 170 bombas atómicas e de hidrogénio previstas para Moscovo.[1] John Kennedy conseguiu alterar a estratégia nuclear dos EUA ao centralizar o comando das armas nucleares no presidente dos EUA e conseguiu afastar o General Lyman Lemnitzer da chefia do Estado Maior Conjunto das Forças Armadas. Não obstante o conselho dos seus chefes militares que defendiam posturas militares agressivas e optando sobretudo pela via diplomática, mas sem ceder à União Soviética, contribuiu decisivamente para a resolução da crise do bloqueio a Berlim ocidental e da crise de Cuba (juntamente com Nikita Khruschchev que, nomeadamente, soube recuar nos momentos críticos).

Outros presidentes, nomeadamente Carter, Reagan, Bush Senior e Gorbatchov, tiveram um papel fundamental no processo de redução do armamento nuclear, que resultou numa diminuição do número de ogivas nucleares activas de 68.000 em 1985 para cerca de 4.000 no presente (existindo outras 6.000, não activas).

Serão os líderes presentes e futuros capazes de evitar a utilização de armas nucleares num conflito?

Afigura-se que nunca antes na História da Humanidade os líderes com armas tão poderosas optaram por não as utilizar num conflito militar, durante um período tão longo, de sete décadas, desde 1945.

Um sinal de esperança, portanto.

 

 

 

 

 

 

 

[1] O Pacto de Varsóvia também planeava obliterar as principais cidades da Europa Ocidental com armas nucleares.

Comentários

  1. Existe o nuclear porquê?

    Como nota inicial: os tempos são de Trump não de Kennedy. O nuclear serve para exercer o poder à escala global. O que é o poder? O resultado de levar, por parte de um Estado, outro Estado ou outros Estados, a adoptarem determinados comportamentos que se enquadrem nos objectivos pelo Estado dominador.

    A superpotência(EUA), as grandes potências(China, Rússia, França, Reino Unido), as potências(Índia, Paquistão, Coreia do Norte), à luz do nuclear.

    Os conflitos actuais estão assinalados.

    Só interessa falar no nuclear devido à sua natureza de instrumento dissuasor.

    E dou a palavra aos que sabem disto e queimam as pestanas a fazer investigação. É o caso de “Manual de Geopolítica e Geoestratégia”, de Pedro Pezarat Correia, Edições 70, 2018. O autor foi Major de Operações num Batalhão de Infantaria que prestou serviço na Guiné-Bissau no período 1969-1971, na Guerra Colonial.

    Tirei algumas notas desta obra para fazer este comentário.

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