Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

8 de Fevereiro de 2018, 09:34

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O carrossel da competência

Basta um singelo ábaco para contabilizar o carrossel. Ou, tecnocraticamente, a placa giratória. São sempre os mesmos. Ou quase. Notáveis, competentíssimos, indispensáveis. Economistas engenheirados ou vice-versa, financeiros de tecnologia de ponta, juristas alcandorados a gestores MBA, fiscalistas em regime offshore, egrégios sociólogos armados em tudólogos, diplomatas em fim de carreira e reformados pró-activos e sobretudo pró-influentes.

Os lugares são multifuncionais e, como agora sói dizer-se, customizados. Quer dizer, às vezes não são as pessoas para os cargos, antes são os cargos para as pessoas. Há de tudo, e sobretudo, com a plasticidade que convém aos curricula, à idade, ao estatuto, à proveniência partidária, à loja maçónica ou a outras referências das chamadas elites. Há os cargos sempre apetecíveis porque seguramente não executivos, ou seja, fazendo pouco, exibindo credenciais e, acima de tudo, recebendo uma prebenda bem aconchegada. É escolher entre presidente não executivo, administrador não executivo, presidente ou vogal (mas sempre consonante) de um qualquer denominado conselho geral, de supervisão, de auditoria, de vencimentos, de reestruturação, etc. Há depois a figura de presidente ou membro de uma boa assembleia-geral de accionistas supostamente tranquila e meramente formal, mas que dá uns trocos indexados a qualquer coisa, menos ao salário mínimo ou ao Indexante de Apoios Sociais. Por fim, há os sempre apetecíveis Conselhos Fiscais, onde pouco se fiscaliza que, para isso, há sempre o “operário” de serviço, o Revisor Oficial de Contas.

O universo também está bem delineado. Em primeiro lugar, as empresas ex-públicas, pois que algumas privatizações foram bem orientadas por “pequenos núcleos” entre o caderno da privatização e a “nova gestão”, e tanto melhor quando são monopólios ou fortes oligopólios de bens ou serviços para a comunidade pagadora. Depois, toda a parafernália de empresas (e, evidentemente, das suas holding e sub-holding) que têm de ter boa representação em certos corredores do poder e dos poderes. Há ainda e cada vez mais as que beneficiam do capital de contactos e relações com economias em desenvolvimento, onde é importante tratar a cleptocracia e a corrupção com bajulação e “sentido de Estado”.

Entre os ungidos do sistema nacional de elevadas competências, há vários grupos: os que a quem nunca se ouviu uma opinião frontal e corajosa sobre qualquer minudente assunto, os que passam o dia num notável equilíbrio entre os pingos da chuva, os que vão a tudo e a todos, proclamando tautologias com ar de sábio, os “talvezeiros” que são uma espécie de especialistas condicionais, os que sabem de tudo, desde mecatrónica a bitcoins e desde redes virtuais a rotas aéreas, os bem-falantes em inglês ainda que mal-falantes em português, os repatriados depois de tudo absorverem na xenofilia sempre sedutora, os que são “flexíveis” e têm dado provas de saber (sabiamente) mudar de opinião ou de acção, os que jamais levantarão qualquer problema incomodativo numa nova versão de “múmias paralíticas” no domínio da gestão, os que ascendem ao clube do estrelato vindo directamente de doutas sociedades de advogados e jurisconsultos, os ex-jotas encartados depois de cargos governativos. Há ainda os “papa cargos” em regime de colecção e dom de ubiquidade e os administradores independentes, raramente independentes administradores, mas que o convidante e o convidado fingem acreditar no reclamado estatuto de independência.

Administram tudo e não deixam nada. Bendita Pátria que de tais competências dispõe!

 

Comentários

  1. Começo com Durkheim: Portugal está com um forte grau de anomia, com falta de normas de regulação, consequência de normas anormais de divisão do trabalho com consequências na redistribuição dos recursos. Continuo com Weber que sustenta que a autoridade é implícita na estrutura através de cargos e estatutos objectivamente estabelecidos numa estrutura burocrática, sendo a autoridade supostamente atribuída por competência profissional e desempenhadas por oficiais submetidos às regras e aos interesses pessoais e de grupo em jogo.

    Todas estas anomalias relatadas no post acontecem num país com graves problemas: decrescimento demográfico desde há dez anos; baixos níveis de natalidade/fecundidade; sistema de segurança social com óbvios problemas de sustentabilidade(menos contribuintes, mais beneficiários, menores receitas, maiores despesas, desequilíbrio demográfico e de natalidade, aumento da esperança de vida), degradação visível e de ruptura do sistema nacional de saúde; robotização crescente do trabalho e não aplicação de medidas de contribuição obrigatória em situações de substituição do trabalho humano por trabalho-máquina a pagar pelas entidades patronais); sectores produtivos, com exemplo no têxtil, competitivo internacionalmente, com falta de mão-de-obra qualificada; gritantes desigualdades sociais; abandono do interior e das respectivas populações; emigração massiva de jovens qualificados em idade de procriação, o que é fatal para o futuro económico e demográfico do país; salário médio de 950 euros; 20% da população activa auferindo o Salário Mínimo de 580 euros; precariedade laboral em níveis elevados; e, last but not least, partidos políticos como escolas de carreiristas, paraquedistas e outras aberrações.

    Lista de algumas situações: Vara, de ex-funcionário da dependência de Vinhais a administrador da mesma instituição, milagre ocorrido pelas virtudes do cartão rosa do Largo do Rato; Rui Pedro Soares, o administrador da PT, enviado de Sócrates, o chefe da ocasião; Luís Mira Amaral, ministro da Indústria de Cavaco e mais tarde administrador da CGD, saído da instituição bancária com uma vultosa pensão após alguns mas poucos anos de permanência no cargo (uns mirabolantes 18.000 euros/mês, engenheiro e economista, vexado num “Expresso da Meia-Noite” da SIC pelos seus próprios pares da profissão de engenharia, apelidado de “banqueiro” pelos presentes, aos quais respondeu: “Comportem-se!!!”); Daniel Proença de Carvalho que o jornalista Henrique Monteiro apontou como tendo o dom da ubiquidade, pois consegue estar presente em mais de trinta(30) lugares de Conselho Fiscal e de Administração; e tutti quanti.

    Para sustentar este estado de coisas o país não avança porque não inova, com excepção de certos sectores, não pensa nos problemas, vive e vegeta no colete-de-forças europeu mas pouco faz pela vida e entrega-se ao deleite e contemplação do deus-futebol, com todo o rosário de situações e histórias suspeitas a juntar ao clima de degradação geral.

    Um parágrafo para assinalar o extraordinário caso dos submarinos que na Alemanha deu corruptores mas em Portugal não deu corrompidos.

    Os comentadores encartados são um outro drama do país, merecendo nome agregador: o comentariado. De forma encapotada representam interesses particulares e partidários. Existirão dúvidas de quem representa e defende Raul Vaz quando se exercita aos microfones da Rádio Pública? Em nome de quê? Do pluralismo? Que franja extremista representa Vaz?

    Um exemplo de tudologia: Pedro Marques Lopes, gestor de profissão, assim o qualifica ou qualificava o DN. Presente na SIC e na TSF, em debates de análise política, faz uma perninha política no DN e na crónica futeboleira num jornal desportivo e ocasionalmente presente em debates como adepto do F.C.Porto e, Oh! Céus, está a enveredar também pelo campo cultural. Veja-se que é chamado para prelecções culturais, como foi o caso de, acerca de Voltaire e de “Cândido”, a sua presença ter sido reclamada na Biblioteca Municipal de Oeiras.

    O descrito é uma má criação do regime saído do golpe de estado de 1974. Para alguns o paraíso; para a esmagadora maioria o purgatório e o inferno.

    1. Um livro feito por um jovem nascido em 1982, de nome Gustavo Sampaio, jornalista, “Porque falha Portugal? -Os governantes que se servem da política, a porta giratória de interesses conflituantes e a banalização da mentira”, Ed.Manuscrito, Lisboa, 2016, abordando a placa giratória dos políticos, a transumância entre o público e o privado e vice-.versa e a máquina reprodutiva das condecorações(Vara, José Sócrates, Zeinal Bava, Valentim Loureiro, Mesquita Machado, Hélder Bataglia, Henrique Granadeiro e outros).

      Os que foram capturados(recrutados) pelas empresas do regime; os que passaram pela CGD, pela Mota-Engil, pelo Grupo José de Mello; Mesquita Nunes de Secretário de Estado do Turismo a consultor da Morais Leitão Advogados; Eduardo Nogueira Pinto de Secretário Estado Adjunto a Advogado da empresa de advogados do comentador José Júdice; Maria Luis Albuquerque de Ministra das Finanças a administradora da Arrow Global, etc… A natureza deste regime dito democrático esventrado…Vale a pena ler.

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