Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

7 de Fevereiro de 2018, 12:33

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Depois de Janet Yellen, o dilúvio?

A economista que acabou de concluir o seu mandato, que decorreu entre  2014 e 2018, como presidente do Conselho de Governadores do Sistema da Reserva Federal Americana (o banco central dos EUA)  – a primeira mulher a ocupar esse cargo, nomeada pelo presidente Obama, após ter sido vice-presidente da Reserva Federal de 2010 a 2014, durante o segundo mandato de Ben Bernanke – teve alguma sorte no seu timing.

Após o amplo programa de expansão quantitativa desenhado e implementado durante o mandato de Ben Bernanke, Janet Yellen começou a normalizar a política monetária da Reserva Federal: com uma ligeira diminuição do balanço da Reserva Federal, como sugere a figura, de 10 mil milhões de dólares por mês no último trimestre de 2017 e de 20 mil milhões de dólares por mês no 1T2018; e com o processo de normalização das taxas de juro de referência da Reserva Federal que sobem, desde Dezembro de 2015, de 0%-0,25% para 1,25%-1,5%.

Activos totais da reserva Federal

F: FRED, St. Louis Fed.

Durante o processo de normalização da política monetária, os mercados continuaram a subir, ao mesmo tempo que crescia a economia real e o emprego. Mas não surpreende que a queda dos mercados tenha ocorrido quando a Reserva Federal começa a aumentar o ritmo de redução do balanço.

Não foi um mandato fácil, porque as consequências da crise de 2007-2009 no sistema financeiro foram profundas. Mas a estratégia de Janet Yellen parece ter sido assegurar a continuidade da política monetária adoptada no mandato do seu predecessor procedendo a uma muito lenta retirada dos estímulos monetários à economia. Ou seja, optou por só fazer alterações incrementais à política monetária.

Janet Yellen, como Ben Bernanke, parece ter entendido que não compete ao banco central combater bolhas especulativas mas antes utilizar a política monetária com o objectivo central de contribuir para o crescimento económico e do emprego.

Embora tenham ocorrido várias situações graves no seu mandato, nomeadamente um escândalo relacionado com fuga de informação privilegiada e, mais recentemente, outro com a criação de milhões de contas falsas pelo Wells Fargo, um dos maiores bancos dos EUA, a posição da Reserva Federal perante essas situações foi relativamente passiva e discreta. É de notar que no último dia do mandato de Janet Yellen, a Reserva Federal impôs restrições relativamente suaves à acção do Wells Fargo, limitando o seu crescimento ainda que essas restrições sejam significativas como sinal da actuação do supervisor, que poderá conduzir a outras medidas mais fortes se o banco não alterar o seu comportamento.

Jerome Powell, o sucessor de Yellen nomeado pelo presidente Trump, advogado, com experiência em empresas de advocacia, no governo dos EUA e empresas do sector financeiro, assumiu funções no dia 5 de Fevereiro de 2018, dia em que os mercados de acções dos EUA sofreram uma forte queda. Não começa bem, por conseguinte, o seu mandato. A experiência passada de Jerome Powell, demasiado ligada a interesses financeiros, não se afigura apropriada para o cargo que exerce.

Terá muitos desafios pela frente, entre os quais lidar com o presidente Trump mas sobretudo com uma eventual (prevista por muitos) nova crise financeira causada pelo rebentar de bolhas especulativas, após 9 anos de crescimento ininterrupto dos mercados accionistas.

Comentários

  1. De realçar os links esclarecedores constantes do post.

    O balanço do mandato de Yellen, desde 2014: Cresc.PIB de 9,6% em 4 anos, ou seja, crescimento de 2,3%/ano(1.023^4 aprox. 1.096); 5 subidas das taxas directores até 1,25-1,75%; criação de empregos: 8,9 milhões; O índice S & P 500 subiu, no seu mandato(67%). (Nota: O S & P 500 é o verdadeiro índice da NYSE, combina as 500 acções na mesma proporção em que elas existem no mercado, embora não inclua dividendos, indica apenas as mais-valias obtidas com a carteira e não a sua rentabilidade. O Dow Jones não é um bom índice, embora use as 30 maiores empresas do mercado, praticando métodos de cálculo pouco eficientes e claros(consultei Cesatina Pires(Univ.Évora), “Mercados e Investimentos Financeiros”, Escolar Editora, 2010). De salientar a subida de 1% do IPC no seu mandato, um feito a assinalar em tempos de inflação baixa.
    (Os dados sobre Yellen e o seu mandato constam do FT de 01/02/2008).

    O que se segue? Um nomeado por Trump para acelerar o percurso em direcção à desregulação, uma promessa eleitoral ou quase. Aguardemos mas os ventos não parecem estar de feição. Tudo indica que a inflação, face às subidas de salários nos EUA em 2017, cerca de 2,6%, irá disparar. Vejamos também como se comportará este sobe e desce das bolsas.

    Powell é criticado por vir dos meios financeiros – com interesses próprios – e sem ter conhecimentos profundos de finança. Existe polémica sobre este assunto nos EUA. Schäuble é de formação de base jurídica mas com um passado de tarimba política ligado às finanças no seio da CDU. Mas as exigências da condução da Fed são de grande grau de dificuldade, com se adivinha pela condução da política monetária, da gestão da moeda-charneira e dos problemas postos pela dívida astronómica americana.

    A reunião da Fed de 20/21 Março próximo vai certamente abrir caminho para a subida de taxas. Mas 45 dias nestas circunstâncias de instabilidade poderão levar à tomada de medidas mais contundentes(próxima subida das taxas).

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