Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

1 de Fevereiro de 2018, 08:29

Por

Dividendos, divididos e correios

Li, há dias, que “Portugal vai dar os dividendos mais atractivos em toda a Europa, depois de um ano de 2017 particularmente positivo”. Num contexto em que a tentação dos investidores é elevada face a taxas de juros negativas ou quase nulas, estima-se que os dividendos andem à volta dos 4,5% em relação ao valor das acções cotadas.

Ainda segundo a notícia, admite-se que, na Europa, e nesta fase do pós-crise, os dividendos atinjam um número recorde de 323 mil milhões de euros (um pouco menos que a riqueza gerada em Portugal em dois anos!). Aumenta, assim, a parte dos lucros que é distribuída aos accionistas, alterando-se significativamente as anteriores políticas de crescimento empresarial e de reinvestimento de lucros.

O grande escritor brasileiro Machado de Assis, autor de obras notáveis como Dom Casmurro, Quincas Borba e Memórias Póstumas de Brás Cubas, foi também um cronista tão lúcido quanto corrosivo. O livro “A economia em Machado de Assis” juntou muitos dos seus textos produzidos entre 1883 e 1900. Uma colectânea deliciosa, curiosamente actual e que tem como subtítulo “o olhar oblíquo do accionista”. Uma das suas crónicas (de 11 de Dezembro de 1892) intitulava-se premonitoriamente “Não havia dividendos, mas divididos”.

Mais de um século depois, temos vindo a ter, em Portugal, também ilustrações daquela eloquente asserção ou de suas variantes. Às vezes com dividendos disfarçados, outras vezes divididos com ou sem divisores, outras ainda com multiplicadores por dividir. E, claro está, em alguns casos e no fim das operações, tudo é somado para os contribuintes pagarem.

A tudo isto acresce um dos principais problemas da nossa economia real: a escassez de capital e a brutal inadequação de financiamento de muitas empresas para responder a projectos de investimento. O nosso capitalismo é, sobremaneira, um capitalismo de passivos e de capitais alheios. Por isso, não nos admiremos de ter a terceira mais baixa taxa de investimento da União Europeia. O nosso sistema fiscal também não ajuda, ao ser mais favorável para capitais alheios do que para capitais próprios.

Um caso que tem dado muito que falar, nos últimos tempos, é o de uma das empresas do PSI-20, os CTT, que tem tido uma política sistemática de distribuir dividendos com uma “generosidade” tão atractiva quanto interrogativa. Em 2016, os CTT distribuíram 74,4 milhões de euros em dividendos, mas só tiveram lucros de 62,2 milhões de euros. Ou seja, um payout ratio de 120%! Por isso, em Outubro passado, após a informação de queda dos lucros em 2017, não foi de estranhar a acentuada queda da cotação das suas acções. Daí resultou um turbilhão de notícias e rumores por via da eufemística reestruturação para accionista ver, consumidor suportar, oferta diminuir e trabalhador sofrer.

Os CTT foram uma privatização sem sentido estratégico nacional, com a única preocupação de encaixe financeiro de curto-prazo. É que, na minha opinião,  as empresas privatizáveis deveriam ter presente cinco regras: a) não serem monopólios “naturais”, de “soberania” ou de utilidade pública intensiva; b) inserirem-se num mercado concorrencial que não permita abusos de posição dominante; c) estar assegurada a função reguladora e de supervisão prudencial pública, no caso de mercados mais imperfeitos: d) não porem em causa ou prejudicarem elementos estratégicos do país; e) assegurarem actividades de interesse nacional, ainda que não necessariamente rendíveis. Por fim, para empresas e sectores estruturalmente lucrativos, é necessário ponderar os efeitos da perda dos lucros públicos.

Comentários

  1. 3º.Aditamento:

    O Prof. Félix não carrega muito no jargão. O que é vantajoso. A Teoria dos Mercados de Capitais permanece nas suas paredes de ouro e mirra, ao sabor dos tempos, na maior parte das vezes como mera curiosidade intelectual. Pelo menos, nalgumas das suas partes mais controversas e que não permitiram antecipar a ocorrência da crise de 2008, um falhanço que é atribuído aos economistas, com a consequente perda de prestígio profissional. Muitos, em presença do prestígio perdido, têm vindo a terreiro avisar das sombras que nos ameaçam. Qual deles o mais arguto.

    Tudo isto para recordar um aviso deixado por Dani Rodrix(“Economics Rules”, 2015) em forma de recomendações aos colegas de profissão, os economistas:

    – A ciência económica é uma colecção de modelos; apreciemos a sua diversidade;
    – Um modelo é um modelo; não é O modelo;
    – É necessário tornar os modelos tão simples quanto possível por forma a isolar as causas específicas e o seu modo de funcionamento, mas simples ao ponto de não ignorar as interacções-chave entre estas causas;
    – As hipóteses não realistas não são um mal; as hipóteses críticas são de erradicar;
    – O mundo é quase óptimo, mas de segunda linha(óptimo no sentido da programação matemática);
    – Para fazer corresponder um modelo ao mundo real é preciso elaborar diagnósticos empíricos claros, os quais deverão conter mais know-how do que ciência;
    – O consenso entre economistas não é sinónimo de certeza quanto ao modo de funcionamento do mundo;
    – Não há mal nenhum em responder “não sei” a uma questão sobre economia ou política;
    – Nem tudo é uma questão de eficiência;
    – Substituir os valores públicos pelos seus próprios valores é um abuso que deve ficar arredado da profissão de economista.

  2. 2º.Aditamento:

    Se há assunto fascinante é o “jogo” da Bolsa. São imensos os livros sobre a Teoria do Mercado de Capitais. A primeira questão: em princípio os autores desses livros deveriam estar ricos. Mas, por outro lado, se o segredo está desmontado então toda a gente ganha. Claro, uma coisa é a teoria, outra é a mãe-economia a mexer. Se uma empresa entra num ciclo de vendas menores, então o seu valor de mercado diminui e torna-se menos apetecível para os investidores. A linguagem do mercado, no modelo dominante, diz que a variabilidade das suas taxas de rendimento esperadas aumentou, ou seja, aumentou o seu risco de mercado, aumentou o seu beta(tudo designações curiosas) face ao beta de mercado, que, como não podia deixar de ser, é igual à unidade, e transmite de forma instantânea todas as variações ocorridas nos preços dos títulos. É um assunto divertido e sério: aqui é o local de encontro de quem empresta e de quem pede emprestado. E, ao mesmo tempo, um jogo misterioso e fascinante. O pior é a realidade: em 2007/2008 foi o que foi. Madoff e Companhia. Afinal, o rei estava nu. O subprime deitou a casa abaixo e toda a gente na Wall Street sabia que algo corria mal neste reino. Afinal onde estava a chamada eficiência do mercado que reflectia, a todo o momento, através dos preços dos títulos, pelas suas subidas e descidas , toda a evolução do mercado? Tretas. Insiders, esquemas em pirâmide e má informação, foi o que foi. A casa veio abaixo.

    A ser assim, é muito confortante que um advogado do Porto, de nome Fernando Braga de Matos, tenha publicado em 2005, com edições posteriores, um livro intitulado “Ganhar em Bolsa”, Ed. D.Quixote. É curioso e muito interessante. Só para quem gosta destes jogos. Confrontar o conteúdo deste livro com as teorias de Markovitz, Sharpe e outros, com os manuais circunspectos de Elton/Gruber e Haugen, é muito interessante. Afinal, a teoria dos mercados é um passatempo divertido. Quem disse que o dinheiro não é uma coisa divertida? A propósito: Lenine, Voltaire e De Gaulle, a par de tantos outros, são citados. A não perder. Não é tudo menos economia, mas tudo é economia de forma divertida. Tudo a gente pode ganhar na Bolsa, não é preciso ser um perito. Diz o autor. Ele, porém, não nos diz se já ganhou algo em Bolsa.

  3. Em aditamento:

    Relativamente aos primeiros dois parágrafos do post gostaria de colocar a seguinte questão: será que, confrontado com taxas de juro negativas, por exemplo, nos depósitos a prazo bancários, onde o investidor particular(ou não) se sujeita a retirar no fim do prazo um capital inferior ao investido, a opção são investimentos como acções, no mercado de capitais? Importa puxar à questão algumas variáveis:o grau de aversão ao risco do investidor e o seu nível de riqueza.

    Um investidor de poucos recursos, de elevada aversão ao risco(proporcional ao seu nível de riqueza) prescinde do depósito a prazo, mas não se aventura na compra de acções, decidindo-se antes pelo depósito no colchão(não ganha nada, mas não perde tanto como no banco, onde paga comissões e o capital investido é subtraído pelas taxas negativas. No colchão só perde a desvalorização pela inflação entretanto verificada). Investindo em acções a conversa é outra: aqui a questão é decidida entre dois parâmetros, ou seja, o que espera ganhar define-se pela média das taxas de rentabilidade e pela sua variabilidade(a sua variância). Está estabelecido na teoria: as taxas esperadas de rentabilidade dos activos financeiros no mercado, como tantas outras coisas desta vida, seguem uma Lei Normal, que fica completamente especificada pelos dois referidos parâmetros(a média e a variância). E através destes dois indicadores giram os princípios que possibilitam o entendimento do Mercado de Capitais no tocante a investimentos. E o investidor sem grandes recursos, tem a possibilidade de só investir no activo sem risco: não pede emprestado para tomar riscos, pelo contrário empresta a quem estiver disposto a quem estiver a arriscar mais(muito menor aversão ao risco, por profissão de especulador ou por detenção de riqueza própria). O investidor de poucos recursos acaba por comprar obrigações de cupão zero do Estado, sem risco(só recebe o capital no fim a taxas baixas – os chamados Títulos do Tesouro). Portanto, o mercado de acções só está disponível para conhecedores do risco e do mercado, com menor aversão ao risco, o que somente está ao alcance dos vencedores da globalização cá do burgo e às classes abastadas.

    Pretendia, tão-somente, sustentar que não parece muito justificado, pelo atrás afirmado, que alguém vai para o mercado de acções só pela razão dos bancos remunerarem os depósitos a prazo, sem risco, a taxas negativas. Outra questão é que as empresas podem prescindir do investimento industrial ou comercial pela incursão nos investimentos financeiros, que pode oferecer taxas atractivas ou lucros mais rápidos. E eis uma explicação para o desinvestimento nas empresas e o empolamento nos dividendos distribuídos.

    Muito desta explicação pode só extensível aos mercados financeiros do mundo inteiro, onde os investimentos financeiros parecem ter tomado a dianteira aos investimentos produtivos. Em Portugal também.

  4. Quando se distribui dividendos em dimensão superior aos lucros está-se a atingir os capitais próprios e fazer desinvestimento e promover a liquidação programada da empresa. Pode ser uma estratégia para a venda de activos e o emagrecimento dos custos do factor trabalho. Eis os CTT, ex-empresa pública prestigiada, com muita reputação a nível, principalmente, das populações desfavorecidas do interior, já por si desprezado pelos poderes centrais, como infelizmente se verificou ao longo das tragédias ocorridas durante o ano de 2017. Os CTT foram objecto de uma privatização desastrada, desastrosa e infeliz. É de toda a conveniência o retorno à forma anterior.

    Até se pode afirmar que a empresa CTT, a funcionar nos moldes de distribuição excessiva de dividendos, pouco tempo poderá sobreviver, pois, sabendo-se em teoria que a taxa de crescimento dos resultados líquidos é igual ao produto da taxa de rentabilidade dos novos resultados pela fracção de lucros retidos face aos lucros totais, caminhamos para os dividendos nulos, a menos que a administração comece a despedir pessoas e a não renovar equipamentos(logo, mau serviço público como já é, de resto, evidente). É lógico que o poder executivo actue.

  5. O nosso capitalismo (português) é sobremaneira um capitalismo de passivos e de capitais alheios, como muito bem diz, por duas ordens de razões fundamentais: pequena escala de mercado, e mentalidade da classe empresarial. Mas verdadeiramente é nesta ultima que radica o nosso atraso. Até aqui (panorama felizmente em mudança) o nosso empresário era quase um ANALFABETO. A maioria das ‘empresas familiares’ eram o retrato perfeito desta miserável situação, dominada por autênticos boçais, sem cultura económica, hiptnotizados pela ganância pura e simples, e que viam no trabalhador um escravo a quem de lapidar sem quaisquer escrúpulos. Ainda me lembro bem do clamor dos calinos da CIP sobre a propalada “produtividade”, quando eles próprios – autênticos aselhas, para não dizer vigaristas – patos bravos sem qualquer horizonte de gestão eram os únicos e principais responsáveis pela reles “produtividade” nacional, e não o esmifrado trabalhador. A isto somou-se o Dinheiro Fácil, aos montes, em golpadas, dos tempos do Cavaco ( e a matilha do Bochechas…) e das clientelas partidárias que encheram os patos bravos. Toda essa acumulação foi um desperdício, pois andam agora os mesmos patos bravos a escondê-lo e a enterrá-lo em angolas sem qualquer benefício para os portugueses.

    *

    Só há uma esperança: que a renovação geracional, com novas mentalidades e melhor preparada, consiga sob a batuta europeia, desenvolver um novo paradigma, que inverta as gritantes assimetrias acumuladas, a dívida irracional e a tendência para a costumeira rapinagem. Senão, o melhor é entregar isto a alguém sério – que de preferência fale inglês…

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