Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

29 de Janeiro de 2018, 08:45

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Aprendizagem profissional consistente

Instituído já há largo tempo em Portugal, o sistema de formação profissional conhecido por Aprendizagem nunca teve verdadeiramente uma expressão condizente com a sua natureza e eficácia. Trata-se de um sistema de formação inicial dual ou em alternância entre formação na escola e em ambiente de trabalho, com uma duração equivalente a cerca de 2,5 anos. Os cursos conferem uma dupla certificação: escolar (ensino secundário) e profissional (equivalente ao nível 4 do Quadro Nacional de Qualificações). Trata-se, também, de uma alternativa muito válida ao sistema formal de educação e à sua insuficiente componente profissionalizante.

O seu grau de empregabilidade anda perto do dobro do que é registado em outros tipos de formação mais curta e menos estruturada, mesmo tendo em conta que, para estes, há mais apoios à contratação subsequente.

Este modelo foi criado na Alemanha e é frequentado por quase 90% dos formandos de educação profissionalizante.  Tem tido excelentes resultados, quanto à sua empregabilidade e ao desenvolvimento da carreira dos jovens. Além disso, é fundamental para a oferta em profissões necessárias e especializadas. Uma das razões do sucesso deste modelo alemão reside na plena participação e influência das empresas em todos os passos da formação.

Na Alemanha, não é preciso necessariamente ter um diploma universitário para se ter um bom emprego com adequado salário. O seu sistema de formação profissionalizante é uma espécie de “universidade” de qualificação para muitas profissões e quadros intermédios.

No nosso país, e embora no pós-crise o crescimento do emprego tenha sido mais intenso na faixa etária juvenil do que no conjunto da população desempregada, o certo é que a taxa de desemprego juvenil continua a ser muito elevada, até tendo em conta a menor procura por causa da questão demográfica (há menos jovens) e do positivo prolongamento da vida escolar (o ingresso na população activa faz-se mais tarde).

Se compararmos a relação entre a taxa de desemprego juvenil (15-24 anos) e a taxa global de desemprego, verificamos que quanto melhor e mais eficaz é a oferta de formação profissional menor é a disparidade entre ambas. Vejamos: em Portugal a taxa de desemprego é agora de 8,2%, mas o desemprego juvenil é de 24,2% (o triplo). Já na Alemanha a taxa geral é de 3,6% e o desemprego jovem é apenas de 6,6%. Acresce que, por cá, 63% dos desempregados jovens estão em busca do seu primeiro emprego, o que torna a componente profissionalizante mais determinante, pelo menos para certas profissões e actividades.

O principal adversário destes cursos passa pelo estigma enraizado de que são uma forma algo segregacionista de oferta formativa, insistindo-se muitas vezes em percursos escolares, designadamente superiores, com um elevado grau de dificuldade de inserção no mercado de trabalho. Basta, aliás, olhar para o contínuo e preocupante número de licenciados desempregados (cerca de 90.000, correspondentes a 20% de toda a população desempregada), já nem contando com os que estão empregados precariamente fora das suas formações, subaproveitados ou muito mal remunerados.

O que, em tese, poderemos ter, em algumas áreas, de licenciados a mais, temos a menos em quadros intermédios e algumas profissões especializadas.

Evidentemente que o sistema de Aprendizagem exige um sector empresarial que o compreenda, assimile e reproduza, sobretudo num contexto de inovação relacionado com uma nova geografia das profissões e o desenvolvimento de novas tecnologias. Vale a pena insistir e a aprofundar esta opção.

 

 

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