Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

28 de Janeiro de 2018, 19:21

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Uma zona euro de credores e devedores?

É interessante, e útil, olhar para algumas séries históricas de variáveis macroeconómicas que ilustram o que ocorre na zona euro. É certo que as estatísticas podem ter várias leituras e, tal como na figura abaixo, o efeito depende do ano base escolhido. No entanto, essas variáveis podem contar uma história.

Uma das maiores divergências entre países como a Alemanha e Portugal reflecte-se na posição de investimento internacional líquida, estatística macroeconómica que é uma medida lata das obrigações financeiras (ou seja, da dívida líquida) do país face ao exterior.

A figura revela que, entre 1996 e 2016, países como a Alemanha e a Holanda tornaram-se países credores do resto do mundo, em particular do resto da zona euro, e os países da periferia tornaram-se progressivamente mais devedores.

Posição de investimento internacional líquida
F: Eurostat (autora: Marlene Teixeira)

 

E é surpreendente por mais uma razão. Devido a um efeito do tipo histerese, que resulta dos juros e dividendos que remuneram os activos detidos por não residentes serem superiores aos auferidos por residentes sobre os activos que possuem no exterior (balança de rendimentos negativa), não obstante a melhoria do saldo da balança corrente e de capital dos países periféricos observada desde de 2008, a posição de investimento internacional líquida de Espanha, Portugal, Grécia e Irlanda continua muito negativa, tendo-se deteriorado no caso destes últimos dois países.

A política de austeridade, acompanhada por uma política monetária acomodatícia sem precedentes, permitiu diminuir ligeiramente os passivos externos líquidos de Portugal e Espanha. Na Grécia, a posição de investimento internacional continua a degradar-se. A Irlanda é um caso à parte porque a sua zona franca torna as suas estatísticas dificilmente interpretáveis. Mas provavelmente, dos países periféricos, é o país com maiores desequilíbrios externos.

No presente, as taxas de juro da dívida soberana dos países periféricos e a diferença de taxas de juro da dívida pública de países periféricos e de países como a Alemanha (“spreads”) continuam a cair, com reflexos positivos nas contas externas desses países, o que tende a contribuir para a redução dos respectivos passivos externos.

A normalização da política monetária alteraria essa situação, pois resultaria previsivelmente num aumento tanto dos spreads como das próprias taxas de juro. No longo prazo, estes dois efeitos afectariam negativamente a despesa líquida do país com juros e dividendos pagos a não residentes e, por conseguinte, a trajectória da dívida externa e da posição de investimento internacional do país.

No curto e médio prazo, como uma parte significativa da dívida externa portuguesa, em particular, a componente de dívida pública, foi contraída a taxas de juro substancialmente mais elevadas do que as que se observam no presente, a despesa líquida do país com juros e dividendos a não residentes ainda continuaria a descer.

Mas os desequilíbrios são demasiado elevados, mesmo com o programa de expansão quantitativa. Não é, por isso, expectável que os países devedores consigam algum dia reduzir os respectivos passivos externos para níveis sustentáveis. A reestruturação de dívida continua na ordem do dia.

O risco para a zona euro é este: tornar-se, de forma permanente, num clube de credores e de devedores, onde os credores “mandam” nos devedores.

Comentários

  1. No online, no Portal de Dados Abertos da UE, percebe-se o conceito de Net Internacional Investment Position(NIIT). É ligeiramente diferente do que acima escrevi. É basicamente a diferença de Activos Financeiros Externos e Passivos Financeiros Externos. Apesar da dívida de Portugal ser, em percentagem do PIB, semelhante à da Itália, a posição desta última é bem mais confortável em termos de NIIT.

  2. Professor estive a consultar a Net e já percebi o conceito de NET INTERNACIONAL INVESTMENT POSITION. Agradeço dê sem efeito as adendas das 14,47 e 14,51 horas. Obrigado.

  3. O ano-base parte do início do Euro. A posição de investimento líquida(% do PIB) corresponde aos instrumentos financeiros de passivos(dívida) que são detidos por credores não residentes, a dívida externa, ou seja, se 130% do PIB for o total da dívida portuguesa, temos que 104,7% são detidos por estrangeiros e 25,3% são detidos por nacionais(credores residentes). Uma dúvida: 104,7/130 são aproximadamente 80% que é superior ao indicado pelo CFP(70%) para a dívida externa em 2014. O campeão mundial neste âmbito é o Japão: quase 100% da dívida, que é muito elevada, cerca de 250% do PIB, são detidos por credores-instituições públicas nacionais. Estão tranquilos neste aspecto os japoneses, embora tenham vindo a perder excedentes correntes(vide Félix Ribeiro, “EUA versus China”, Guerra e Paz, 2015).

    Na UE tudo piorou com a crise de 2008. O gráfico dá nota disto: as linhas separam-se em sentidos diferentes – uns sobem, outros descem – a meio do percurso(1999-2016). Os gráficos são úteis porque, rapidamente, dão ideia do problema.

    1. O facto da Itália, no gráfico, andar próxima de 0% significa que a parte externa não tem significado – ou seja, a Itália não está dependente do exterior. Confirma, professor? Explique lá,s.f.f.

    2. Ou seja, apesar da Itália ter uma dívida global ao nível da portuguesa até numa posição muito confortável – não depende do exterior, não tem ninguém à porta a apresentar-lhe a factura. Certo? Depende o exterior em cerca de 10% do seu PIB.

    3. Exacto. A PII da itália melhorou muito nos últimos dois anos não sei bem porquê, mas é substancialmente melhor e mais confortável que a de Portugal.

    4. Confortável até terem de intervir na banca, dependendo como a Alemanha os deixar fazê-lo.

  4. Portugal ainda vai ganir. Mas entretanto quem enterrou as hipóteses deste país hoje vive à grande e com um desafogo que nunca pensou ter, tendo hipotecado para isso as gerações seguintes.

    Notemos no entanto o caso referido da Holanda. País minúsculo, com factores naturais nada favoráveis, população com a nossa dimensão…, e contudo com resultados consistentes que apontam para uma prosperidade crescente. Onde está o segredo? A zona euro foi ‘desenhada’ para eles?

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