Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

25 de Janeiro de 2018, 09:00

Por

Silêncio: direito e dever (II)

Fala se tens palavras mais fortes do que o silêncio, ou então guarda silêncio

Eurípedes

 

O silêncio é agora urbi et orbi quebrado pela autocracia do som, ainda que musical. Na espera nos telefones onde nos impingem músicas e ritmos que não pedimos e que nunca ouviríamos, a maior parte das vezes para intervalar um serviço de atendimento permanentemente entupido ou deficitário de qualidade. Uma pessoa em desespero e luto é agredida com um alegre folclore ou música pimba que àquela hora a apanhou num telemóvel. Nos elevadores, a má-criação de um mau silêncio de quem não tem a educação mínima de cumprimentar quem entra ou sai, é envolta numa qualquer musiqueta de pacotilha. Nos transportes ou nos táxis, o seu utilizador tem de aturar, sem dar autorização, música rasca ou anúncio aparvalhado. Nos comboios, onde o recato é minoritário, há momentos em que as carruagens mais parecem centrais telefónicas. E até, não raro, nos templos, o silêncio já não é o que era.

O silêncio é, hoje, motivo de chacota e pretexto de crítica. Já lá vai o tempo em que o silêncio era de ouro. Hoje, na época dos ruídos metalizados, nem a mais reles lata se associa ao silêncio. Fala-se, sem rodeios, do silêncio da lei, exagera-se na linguagem quando se diz que há um silêncio sepulcral e achincalha-se um oponente quando se afirma que se reduziu fulano ao silêncio.

O silêncio não é apenas a ausência do som, como a sombra não se esgota no recato da luz. O silêncio existe para além da não existência do seu oposto. Não foi o silêncio que veio perturbar a necessidade do ruído, mas o inverso.

O bom silêncio pode ser incompatível com muitas formas silenciosas. A sua singularidade não se confunde com a pluralidade dos maus silêncios: o ambíguo, o calculista, o opressor, o mentiroso, o omisso, o fingido e todos os que conspurcam a ideia da verdade. O bom silêncio é constantemente atropelado por um quotidiano cheio de barulho e de barulhos e onde impera a globalização da mistura desordenada dos piores dos silêncios: o da indiferença, o do descarte, o da falta de educação, o do esboroamento de valores, o do esquecimento, o da cobardia, o da injustiça.

O bom silêncio pode ser uma forma serena de inquietude, um sinal de amadurecimento espiritual, uma via corajosa de paz interior, um dom frutuoso de solicitude, um traço contagiante de partilha. Uma forma de unir presença e ausência, chegada e partida, paz e esperança, vida e morte. O verdadeiro silêncio incomoda porque interpela, perturba porque vem de dentro, afasta porque se crê ser a forma de não comunicar.

A majestade da Natureza e da nossa natureza gosta do silêncio. Porque o silêncio é a forma serena de se adormecer e o modo suave de se acordar. Se tivesse de escolher um sentimento para compreender o ágape do silêncio, seria o do amor maternal para com a criança que, nascida no ventre, se prepara para viver.

Volto ao início. Ao silêncio desfrutado, como ao silêncio que transporta respeito. Pelo outro e por cada um. É necessário reabilitar o silêncio que nos oferece tempos de expressão lhana, cristalina, límpida de nos exprimirmos e de nos sentirmos ser. Convida-nos à profilaxia da introspecção, aproxima-nos de nós mesmos, orienta-nos na selecção do que não é silêncio. E até seremos capazes de alcançar melhor o humor do próprio silêncio.

Disse um dia Beethoven: “nunca quebres o silêncio se não for para o melhorar”. Como é belo o som do silêncio dos intervalos de respiração no meio da exaltação da abertura Egmont de Beethoven!

O silêncio: um direito. O silêncio: um dever.

 

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