Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

3 de Janeiro de 2018, 19:03

Por

Porque é que só se mudam procedimentos depois de casa roubada?

Soube-se nos últimos dias que na semana que precedeu a aplicação da medida de resolução ao Banco Popular, sete instituições portuguesas levantaram elevados montantes de depósitos. De salientar o IGCP – a Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública – que retirou 12 milhões de euros de depósitos daquele banco. O IGCP, como o nome indica, gere as disponibilidades do Tesouro.
Se a medida de resolução tivesse sido aplicada mais cedo e se a autoridade de resolução europeia tivesse imposto o “bail-in” (i.e., reestruturação) dos depósitos, então o Tesouro teria sofrido perdas nos seus depósitos junto do Banco Popular.
Mas a notícia tem outras implicações. De facto, Comissão Europeia preparou, recentemente, uma proposta de revisão da directiva europeia sobre resolução bancária, que prevê a possibilidade de as autoridades aplicarem uma moratória ao levantamento de depósitos. Se, na versão final dessa directiva, não for excluída dessa moratória, certas entidades públicas, então o IGCP poderia, nessa situação, vir a ficar sem acesso aos depósitos do Tesouro.
O objectivo dos depósitos do Estado, vulgo almofada financeira, com elevados custos para o erário público, é assegurar que este é capaz de honrar os seus compromissos financeiros. Se parte destes depósitos são feitos junto da banca comercial, então a queda de um ou mais bancos não deixará de levantar dúvidas sobre a liquidez e solvabilidade do Estado, contaminando o mercado de dívida soberana.
Parece um risco exagerado e desnecessário, face aos supostos benefícios de tais depósitos (juros pagos pela banca comercial), que o IGCP faça aplicações em bancos comerciais, risco que é tanto mais incompreensível quanto o IGCP pode depositar esses fundos directamente junto do Banco de Portugal, ou, através deste, junto do Banco de Pagamentos Internacionais (BIS), não existindo nesse caso o risco de perda de depósitos em caso de um banco comercial entrar em incumprimento ou em resolução.
Afigura-se por isso que o IGCP só deveria depositar fundos na conta do Tesouro, no Banco de Portugal. Mas, parece que a experiência do BPN, BES, Banif e Banco Popular ainda não chegou a tocar nas campainhas certas.
Será que é necessário que o Estado perca algumas dezenas (ou centenas) de milhões de euros na falência, ou na resolução de um banco para finalmente se alterarem os procedimentos?

Comentários

  1. O caro Cabral sabe perfeitamente que um “estado”, na nossa actual idade média, é um feudo da corte financeira.

    Na nossa querida idade média, o “estado” é propriedade dos “mercados”, deve-lhes obediência e tributos, como qualquer feudo medieval da altura da guerra (a primeira parte da nossa querida idade média).

    Do tempo da guerra para o tempo da feira (do “mercado” para parecer mais civilizado) apenas mudaram o tipo de delinquência, e os delinquentes que abusam passaram de assassinos a feirantes (burlões, chantagistas).

    A plebe mantém-se ignorante e subserviente com o inestimável contributo da universidade. É ela que prega a mentira, que diz que a delinquência feirante é “economia”. A plebe deve pedir autorização aos feirantes, e pagar as senhas de autorização dos feirantes (dinheiro) para tudo, porque isso é “uma lei da economia” como prega a universidade.

    “Empresa” é um feudo de um feirante menor, “estado” é um feudo da “nobreza feirante” chamada de finança.

    A plebe do feudo (“estado”) deve pedir autorização e pagar as senhas de autorização dos feirantes (dinheiro), sob pena do “estado” (o feudo) actuar sobre eles.

    Cabe ao capataz do feudo (o tal “governo do estado”) assegurar que dentro do feudo a propriedade seja exclusivamente o resultado de um negócio feirante. Para que a chantagem feirante seja recompensada com a propriedade, e assim se instale, e legitime, essa prática delinquente. O resultado dessa prática é a discórdia entre a plebe (que a torna totalmente vulnerável e inofensiva) e se instale a desordem feirante, o glorioso “mercado”.

    Na desordem mandam os mais desordeiros de entre eles. Quanto mais pulha e chantagista, mais sobe o tosco delinquente, na desordem feirante. Que lindos que são os “investidores e empresários”.

    Cabe ao capataz assegurar que, nessa desordem feirante, toda a plebe peça autorização e pague as senhas de autorização dos feirantes, o tal dinheiro com que recebem por todos os negócios e controlam todo o feudo feirante (“estado”).

    Portanto o caro Cabral já terá percebido que o “estado”, na nossa querida idade média, existe para assegurar as rendas que a corte feirante decidir ter. Quer sejam pelos “ganhos”, que vêm da população via organização feirante (empresa feirante); quer sejam perdas pagas pela mesma população via feudo feirante (o tal “estado”). De qualquer das formas a plebe obedece e paga por obedecer.

    Como se vê, na crise de 2008, quando a corte financeira lhe apetece envia a ordem aos capatazes do feudo, aos tais “governo do estado”, a dizer que quer receber também pelas perdas nos seus jogos feirantes. E os capatazes do feudo executam a ordem sobre a plebe do feudo (os tais “contribuintes do estado”), como vimos, e vemos, acontecer.

    Portanto só vão mudar os procedimentos do IGCP quando isso for do interesse da corte financeira, no seu passatempo feirante.

    Repare que a corte financeira não tem onde usar, nem como usar, o que arrecadou (mais de metade do planeta). Continua a arrecadar por passatempo, e a esconder nas offshore, porque assim manda o folclore e a moral dos ladrões, e sempre ajuda a sacudir o tédio.

    Ah! Mas não se esqueça de continuar a dizer que este folclore medieval de latrocínio é “economia”.

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