Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

25 de Dezembro de 2017, 08:51

Por

A palavra de 2017 (onde falta … turismo)

Está a terminar o período da eleição da “palavra do ano”, iniciativa da Porto Editora desde 2009.

As dez palavras escolhidas para este ano foram afecto, cativação, crescimento, desertificação, floresta, gentrificação, incêndios, independentista, peregrino e vencedor. Acho que deveria ter estado na lista uma outra: turismo. Por razões óbvias e que são anteriores à escolha de Portugal, Lisboa e Madeira como os melhores locais de turismo no Mundo.

As palavras seleccionadas são comuns, se exceptuarmos gentrificação. Este vocábulo (mais um neologismo anglo-saxónico) é apresentado como exprimindo um “processo de transformação e valorização imobiliária de uma zona urbana, que acarreta a substituição do tecido socioeconómico existente (geralmente constituído por populações envelhecidas e com pouco poder de compra, comércio tradicional, etc.) por outro mais abastado e sem condutas de pertença ao lugar” (Infopédia, Porto Editora). Sem dúvida, um fenómeno contemporâneo que, em Portugal, é já notório em Lisboa em bairros populares.

Se exceptuarmos afecto que foi constante em 2017 graças à acção do Presidente da República, nota-se, como aliás em todos os anos, uma escolha que recai mais sobre palavras da segunda metade do ano e que desfavorece outros vocábulos com presença e significado mais fortes no seu início, mas que mergulham na sombra do esquecimento. Ainda aqui a lei do tempo e a desvalorização da correnteza da memória.

Das 10 palavras há 4 notoriamente políticas e económicas: cativação, nem sempre cativante (há quem cative sem afecto…); desertificação, dita para aquilo que não é desertificação, mas sim despovoamento; crescimento, que não é necessariamente o mesmo que desenvolvimento e independentista, a única de pendor internacional. A importância do que se passou por Portugal é dada pela escolha de três palavras que, em boa verdade, são os vértices de um mesmo dramático triângulo (incêndios, desertificação e floresta). A tecnologia não teve, desta vez, o seu habitual quinhão, apesar do endeusamento algo quixotesco da Web Summit (recordo, nos últimos anos, drone, selfie), assim como a saúde ou falta dela (recordo microcefalia, legionela e ébola). Restam uma, de matiz mais religiosa (peregrino) que bem poderia também ter sido Fátima e uma mais mundana (vencedor), associada à vitória portuguesa na Eurovisão. Por falar em vencedor (que me perdoem, os não benfiquistas), falta o, simultaneamente prefixo e nome, tetra.

Ao invés de anos anteriores, as palavras submetidas á votação (exceptuando gentrificação) são velhinhas e simples. Desta vez não há cibervadiagem, gamificação, entroikado, vuvuzela, swap e outras que tais, que qual cometas, tão rapidamente surgiram, como logo se esvaneceram. Como diria Churchill, “palavras breves são as melhores e as palavras velhas, quando breves, são as melhores de todas”.

Ah, claro não podia faltar um vocábulo com grafia acordista. Desta vez, alterando a própria raiz etimológica da palavra. Refiro-me ao absurdo modo de escrever afecto sem c, assim se afastando de affectio (latim), affetto (italiano), affection (francês e até inglês) e afecto (castelhano). Originalidades nossas…

Em que palavra votei? Floresta. O meu palpite para o vencedor? Incêndios. Ou, se calhar, afecto, mesmo que sem c.

P.S. A mesma iniciativa em língua inglesa promovida por Oxford Dictionaries já foi anunciada. Trata-se de youthquake, um neologismo curioso que, partindo de earthquake (terramoto), lhe associa youth (juventude), significando uma “mudança cultural, política ou social desencadeada por acções ou influência de jovens”.

 

Comentários

  1. A escolha de Bagão Félix,para a palavra do ano 2017,só não tem o meu acordo,porque representa um equívoco e um esquecimento . Um equívoco,porque só com muito boa vontade,ou agroflorestal desconhecimento,se pode denominar o eucaliptal extensivo e o pinhal sobrante como,floresta ou mata e um esquecimento porque, tal como muitas outras palavras das que são apresentadas,deixam na sombra os atentados dolosos que,por incúria ou premeditação criminosa,terão estado na base de multiplas e simultâneas ignições que originaram os dramas e tragédias a que assistimos.A minha palavra do ano é ,branqueamento. Tenho a impressão que irá ser uma das propostas para os próximos anos.

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