Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

24 de Dezembro de 2017, 12:00

Por

Presente de Natal

O Primeiro Ministro na sequência dos dados do INE – segundo os quais o saldo das contas públicas registou um excedente de +2,6% do PIB, no terceiro trimestre, e um valor acumulado até Setembro de -0,3% do PIB –  presenteou o Presidente da República com a perspectiva de um défice público inferior a 1,3% do PIB em 2017. O Presidente, ao promulgar o OE2018, respondeu de forma, diga-se, pouco branda, com várias “exigências”, sendo a mais significativa que qualquer folga  orçamental fosse utilizada para reduzir a dívida, algo que se afigura extravasa as competências do Presidente da República.

Nos últimos meses, as notícias sobre o défice público têm sido boas. Com efeito, no OE2017 o défice previsto seria de 1,6% do PIB, valor que no decurso do ano foi sucessivamente revisto para baixo, primeiro para 1,5% do PIB, depois, em Outubro, com a apresentação do OE2018, para menos de 1,4% do PIB e agora para menos de 1,3% do PIB. Pode-se questionar a estratégia de comunicação do Governo ao divulgar sucessivamente melhorias no défice de apenas 0,1 p.p. do PIB, sobretudo quando se considera que o crescimento económico surpreendeu pela positiva.

De salientar que o défice acumulado nos primeiros três trimestres de 2017 é muito mais baixo do que o observado no período homólogo – 0,3% do PIB versus 2,8% do PIB – embora, no último trimestre de 2017, tanto a receita como a despesa devam ser prejudicadas por diversos efeitos.

Mas é interessante constatar que, no ano terminado no 2º trimestre de 2017 em comparação com o ano terminado no 3º trimestre de 2017, ao mesmo tempo que as Administrações Públicas diminuíam as suas necessidades de financiamento (melhoria da poupança) em 1,2% do PIB, o sector privado – famílias, sociedades não financeiras e sociedades financeiras – diminuiu a sua poupança em 1,2 % do PIB, apesar da poupança (externa) do país ter aumentado ligeiramente de 0,9% do PIB para 1,1% do PIB.

É um efeito similar ao que se descreve no último post. Se as Administrações Públicas poupam mais (pedem menos emprestado), ou mais precisamente, se o ritmo de variação da poupança das Administrações Públicas é maior do que o ritmo de variação da poupança externa do país, então, forçosamente, o sector privado terá de poupar menos. Por isso, é que não convém que o Estado “exagere” na dose da disciplina orçamental.

Mas, na realidade, os portugueses têm sido tão massacrados nos últimos anos por causa do “défice”, que mais um ano em que o défice não é problema e fica muito abaixo do exigível sabe a um bem merecido presente de Natal.

Por conseguinte, sem mais demoras e sem mais “economia”, os meus votos de um Feliz Natal.

Comentários

  1. Agora repare que se neste último 3º trimestre todas as pessoas tivessem recebido por exemplo 1000 euros criados do nada e livres de dívida, a tal poupança do sector privado provavelmente não teria diminuído tanto e a poupança das administrações teria sido ainda maior.

  2. De facto…o que é excessivo…

    Estávamos habituados -e isto durou muitos anos -aos comentários do Prof. Marcelo…mas, paulatinamente, a poeira assentou. Tenho cada vez mais a ideia que Marcelo prepara a reedição do Banco Central. Figuras do BE e do PS reconhecem o grau elevado de plausibilidade desta situação. Simplesmente, com este PSD é missão impossível. Passos Coelho cometeu muitos erros políticos e nem Santana nem Rio vão repor o equilíbrio na barca da Lapa. Marcelo, o aparente cerebral, por vezes pensa depressa…Creio que a maioria das pessoas, dos eleitores estará na disposição de fechar os olhos aos erros clamorosos de percurso deste PS e conceder-lhe a liderança naturalmente na área do Poder Central. E, talvez, Marcelo, com a sua conduta estratégica de recolocar o centrão falhe desta vez. No fundo, quem não se lembra da vichyssoice?

    Este jogo de congelar Costa e o seu Governo talvez tenha uma reviravolta. Verdade que Marcelo foi útil na questão dos incêndios de Junho e Outubro, mas os contornos e objectivos ganham contornos mais nítidos.

    Marcelo não é uma pessoa qualquer: foi criado no seio do Estado Novo e tem a noção perfeita do que foram esses tempos por via familiar directa. Nada lhe aconteceu de desagradável nesses tempos duros para a generalidade da população e em particular para os presos políticos e para quantos tiverem de servir numa guerra inglória e desastrosa. Foi um privilegiado e continua a ser um privilegiado. Os portugueses mais velhos conhecem-no demasiadamente bem. Estamos avisados, portanto.

  3. O Primeiro Ministro devia apresentar a demissão ao Presidente da República que passa os dias na atitude vulgar de meter o nariz onde não é chamado.

    O atual Primeiro Ministro continua a ser memorizado por não ter sido mais votado que Passos Coelho o que confirma a incompreensão para soluções parlamentares legítimas, mais não assumidas pela consciência coletiva.

    O Presidente da República é cada vez mais o Presidente das tragédias que da cidadania, para o Presidente das tragédias e da direita e extrema direita o populismo mórbido é mais importante que a independência nacional, a economia nacional, a cultura e a identidade do povo português.

    Este quadro é o determinante nesta época natalícia e ameaça ser a toada do novo ano de 2018.

    Toda essa chantagem emocional epidérmica estimulada por Marcelo Rebelo de Sousa, Passos Coelho, seu bando e Assunção Cristas é ampliada, replicada, escarafunchada até à dilaceração pela comunicação social comprometida tem de ser travada por um processo eleitoral de legislativas antecipadas que deixe claro quem vale o quê.

    Apesar da maioria estável parlamentar reiteradamente confirmada existe uma instabilidade subjetiva que permite a Marcelo Rebelo de Sousa admoestar o Primeiro Ministro e humilhar o governo em público com exigências de que se arroga patrono numa presidência chantagista insuportável e vulgar. A mesma instabilidade subjetiva permite um mar de insultos indecoroso e abjetos dirigidos ao governo, governantes e Primeiro Ministro. Urge por termo a esta rafeirice institucional.

    A performance macro não se traduz em investimento, nem concorrência nos setores estratégicos dos bens essenciais à vida como a energia, a distribuição dos bens de consumo corrente, transportes, etc.

    O política bancária estrangeira degrada as poupanças de quem ainda as tem e torna o dinheiro caro a que o deseja usar.

    Não há desígnios nacionais levados a sério pelos atores políticos. Os acontecimentos vulgares são transformados em bandeiras em nome da concorrência fútil dos projetos políticos castrados.

    É o pântano político, a subordinação económica e financeira o mexerico como discurso político tecido de insultos sem nenhuma ideia dentro que nos oferecem neste fim de ano de 2017. É tempo de partir a loiça rançosa.

  4. Convém que o Estado exagere sim na disciplina orçamental. É que ainda há muita gente a governar-se com desvio de dinheiro público. O objectivo tem que ser sempre que o défice desapareça! O país tem que dar lucro, senão está só a dar lucro a quem lhe empresta o dinheiro para os excessos. Muito bem disse Marcelo: quando se consegue recuperar dinheiro, a primeira coisa é pagar as dívidas! Pede emprestado quem não se sabe governar.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo