Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

21 de Dezembro de 2017, 09:13

Por

O frio, esse desconhecido

Estamos finalmente no Inverno-criança, depois do solstício de ontem, 21 de Dezembro. À míngua de chuva, mostra-se-nos o frio. Relativo, pois dez a catorze graus centígrados em Lisboa a meio do dia é uma incipiente amostra de frio, mesmo por cá. E noutras zonas do país, mais frias, também já não é como há décadas.

O frio não é apenas o contrário do calor, mas também o modo de procurar não o ter. Neste aspecto, o frio é mais meu amigo porque me dá a possibilidade de com ele saber conviver ou de o afastar. Ao contrário do calor, para o qual – insuficiência minha – não sou capaz de encontrar o antídoto eficaz para além do agressivo ar condicionado.

Vem isto tudo a propósito, ou talvez não, da apoplexia meteorológica por causa de uns graus Celsius a menos. Sempre pensei que o frio (e a chuva) fizessem parte dos Invernos, como o calor faz do Verão. Mas agora parece que não. Passou-se para a moda dos “alertas” de várias cores, amarelo, laranja e encarnado, sempre proclamados com voz vibrante. Não há um santo dia que, agora, não se sinalize com um qualquer aviso amarelo, senão mesmo laranja, porque está frio ou vai chover. Não imagino sequer a cor do frio em Moscovo, Berlim ou Toronto, certamente muito para além do mais retinto vermelhão.

Tudo por causa da anormalidade da normalidade. Alertas por haver frio no Inverno são tão despropositados, quanto inúteis. Entrevistam-se respeitáveis técnicos de meteorologia do agora arrebicadamente designado Instituto Português do Mar e da Atmosfera (curioso o Mar estar antes da Atmosfera, mesmo que no interior do país!) e guarnece-se a “notícia” com um banal anticiclone ou uma habitual superfície frontal. E, claro está, tudo culmina com pessoas entrevistadas nas ruas, através de perguntas que envergonhariam o Senhor de la Palice e de óbvias respostas.

Toda esta excitação invernal culmina com as declarações dos serviços de saúde, que não param de nos dar conselhos a toda a hora. Fico pasmado, confesso. Não porque os evidentes aconselhamentos não sejam correctos, mas porque, no fim de contas, há um retrocesso ao considerarem-se as pessoas comuns como indigentes ou seres meteorologicamente atrasados.

Vejamos alguns desses doutos avisos, textualmente: 1) proteger-se do frio; 2) vestir várias camadas de roupa quente; 3) agasalhar-se quando se está na rua; 4) manter o corpo quente, através do uso de luvas, cachecol, gorro/chapéu, calçado e roupa quente; 5) tomar bebidas quentes (creio que não alcoólicas); 6) ingerir líquidos e sopas para manter o corpo hidratado; 7) no exterior, ter cuidado com situações de queda; 8) manter as casas quentes; 9) verificar se os equipamentos de aquecimento estão em condições de ser usados; 10) trocar informações e conselhos com amigos e vizinhos e manter-se em contacto com eles; 11) vedar bem as portas e as janelas; 12) em caso de chuva, ter à mão um chapéu-de-chuva e usar calçado adequado… etc., etc.

Não que desconsidere – bem pelo contrário – tudo o que seja a prevenção de doenças. Mas todos estas “achegas” quase partem do princípio que as pessoas são acéfalas e incapazes de se orientar com uns pingos de chuva ou uma temperatura absolutamente normal para a época.

Enfim, conselhos que estão para as pessoas, como as conferências de imprensa antes dos jogos de futebol estão para a inutilidade da palavra.

Mas atenção, caro leitor. Não se esqueça que está no Inverno. À cautela – se for distraído – ponha um alerta no seu telemóvel a dizer-lhe que pode chover e, pior do que isso, que pode fazer frio. E atenção não se esqueça dos cremes para sobreviver (sic) ao frio, como já li algures.

 

 

 

 

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