Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

18 de Dezembro de 2017, 08:30

Por

Ainda a (ex-Santa) Casa

Volto ao tema da anunciada provável entrada da SCML no capital da Caixa Económica Montepio Geral.

Primeiro, para registar o intrigante silêncio em torno do assunto. Dos partidos nada se ouve, eles que se pronunciam sobre tudo e mais alguma coisa. Dos partidos de esquerda não admira pois que, em regra, têm uma posição de desconfiança em relação à SCML. Mas, quanto aos partidos da oposição, não entendo de todo a indiferença que, aparentemente, revela um desconforto ou afastamento inexplicáveis.

Quanto ao Governo, a posição é de ausência táctica, depois de ordem dada sob a capa de suave “sugestão”. Deixando o tempo passar até o assunto adormecer e a situação se tornar irreversível. Um caminho favorecido por uma parte da comunicação social amiga e pouco interpelante. Mas, em boa verdade, não se pode esconder no meio do jogo. Basta atentar nos Estatutos da SCML: “A tutela abrange […] a definição das orientações gerais de gestão e a fiscalização da actividade da SCML”.

Também da Igreja nada vem, permitindo, por omissão, que haja uma crescente erosão conceptual e doutrinária dos princípios enformadores da SCML e da expressão vivencial das obras de misericórdia.

Por fim, muito gostaria de ouvir a voz do Senhor Presidente da República. Não tanto porque seja obrigatória, mas porque o seu modo de exercer a magistratura de influência nos permite concluir que poderia fazê-lo.

Estamos perante a perspectiva de uma violação grosseira dos deveres estatutários de uma instituição que é, legalmente, uma pessoa colectiva de direito privado e utilidade pública administrativa. A SCML não deve ser uma instituição usada para além do sentido essencial da sua missão e vocação. Não pode ser nuns dias uma instituição social com plena liberdade de actuação e noutros dias uma instituição ao serviço do poder (ou poderes) estabelecido.

No artº 23º dos Estatutos, referente à competência do Departamento de Economia Social, para além de aspectos organizativos, são referidas tão-só as funções de apoiar a criação de micro-empresas através de programas em cooperação com outras entidades e a de promover a criação de agentes de desenvolvimento na área da economia social. Assim sendo, onde está, afinal, o enquadramento estatutário para os 200 M€?

A crise bancária já havia passado por múltiplas resoluções, desde o BPN ao BANIF, passando pelo ex-BES e CGD. Mas agora, eis que surge, em todo o seu esplendor, esta insólita via de usar a SCML e de anunciar a criação de um milagroso “banco social” para salvar um banco. A propósito disto, os próprios estatutos da Caixa Económica MG (em vigor há apenas 3 meses, desde 14.09.2017) dizem, tão simplesmente, no seu artigo 3º que “A Caixa Económica tem por objecto o exercício da actividade bancária”, sem qualquer referência à tal “economia social” …

O montante em causa bastaria, só por si, para classificar de potencialmente ruinoso este negócio. Comparemo-lo, por exemplo, com a aquisição do BPI pelo CaixaBank na sequência da oferta pública de aquisição de acções correspondentes a 39% do capital por 644,5 M€.  Não considerando sequer a circunstância de, por via desta OPV, o banco catalão ter passado a deter a larga maioria dos direitos de voto do banco BPI (84,5%), o valor pago pelos 39% indicam um valor total do BPI de 1456 M€. Pois agora a SCML propõe-se adquirir uma posição minoritária de 10% do MG por 200M€, o que equivale a dizer que o banco é avaliado em 2.000 M€!

A factura virá mais tarde, depois do “foguetório social”. Com uma agravante quanto aos pagadores: a de juntar aos contribuintes os beneficiários da acção social da SCML. Inimaginável!

 

 

 

Comentários

  1. Não é a gestão Santana mas sim a habitual gestão miserável socialista que quer dar cabo da Santa Casa. O governo PS queria usar Santana nesta golpada e ele percebeu-a a tempo e saltou fora.Agora é o corrupto Vieira da Silva e o Edmundo que estão a comandar o saque. O PS é especialistas nestas jogatanas.

  2. O Santana Lopes em tudo no que se mete tem o condão de estragar e deixar tudo de pantanas. Foi assim na cultura, na Figueira, em Lisboa e agora na SCML, esta instituição secular vai conhecer a gestão Santana. Vamos ainda ter de pagar para salvar da miséria a Santa Casa, não deixa de ser ironico que os pobres e os remediados sejam de novo chamados. Uma vez mais assistiremos à vitória do sheriff contra o Robbin dos bosques

    1. Não é a gestão Santana mas sim a habitual gestão miserável socialista que quer dar cabo da Santa Casa. O governo PS queria usar Santana nesta golpada e ele percebeu-a a tempo e saltou fora.Agora é o corrupto Vieira da Silva e o Edmundo que estão a comandar o saque. O PS é especialistas nestas jogatanas.

  3. Para estar tudo tão caladinho só há uma boa explicação: andam aí umas comissões a serem distribuídas pela nossa honestíssima classe política.

  4. Estão todos em silêncio porque estão todos feitos uns com os outros como é costume. E os que podiam dizer alguma coisa nem as orelhas mexem porque amanhã são eles que estarão a estender a mão à benesse e à traficância neste país de trafulhas. Com a gatunagem encartada todo o cuidado é pouco. Espanta sim ver PC e BE sem uma palavra sobre o assunto, afinal trata-se do futuro de uma instituição essencial ao bem social.

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