Tudo Menos Economia

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Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

30 de Novembro de 2017, 19:16

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Zé Pedro e os X&P, uma geração de combate que reinventou Portugal

Surpreendido pela morte do Zé Pedro, como se não soubessemos todos o que ele passou, mas como pode morrer alguém como ele?, aqui vos trago algo que escrevi para os Xutos há um par de anos. É a minha homenagem a um rockeiro de combate.

Trinta e quatro anos é o tempo de uma geração. Esta inventou Portugal moderno, retirou-o do século passado, trouxe-o para a Europa e ouviu outros sons das Américas e das Áfricas, brincou com o fado, cantou hinos, fez a festa e gosta de viver. Os Xutos & Pontapés são o seu arauto.

Ao olhar para trás, quando o passado fica arrumado nas suas gavetas e dificilmente se mexe, tudo parece que estava predestinado a correr bem: a garagem dos pais do Zé Pedro à disposição para a banda, a estreia simbólica nos Alunos de Apolo, a rejeição dos outros nomes que chegaram a ser propostos (imagina-se Delirium Tremens ou Beijinhos e Parabéns? Faz lembrar o susto que teria sido o congresso norte-americano ter aprovado o alemão como língua oficial, o que só perdeu por poucos votos – por quantos votos terá perdido Beijinhos e Parabéns?). Mas não, nem sempre correu bem. Se os Xutos foram vozes de uma geração, e da outra que veio depois, também tiveram as agruras da vida, como todos: a luta contra a doença do Zé Pedro, a tristeza da perda da Marta Ferreira, os pontos baixos, as dificuldades, os silêncios, as desesperanças. Venceram tudo o que puderam dessas dificuldades.

Os Xutos também percorreram caminhos diversos. Alguns estiveram no Rio Grande ou nos Resistência, e raros são os grupos que se mantêm juntos e criativos respeitando a liberdade de cada um encontrar também outros projetos musicais, sozinho ou com outros. Todos andaram pelo cinema. Cantaram no Rock Rendez-Vous e nas praças. Foi junto deles que muitas bandas não só se inspiraram como encontraram mesmo apoio para se lançarem em primeiros concertos (Johnny Guitar) ou maiores (primeiras partes dos Xutos) e gravarem primeiros discos ou colectâneas (editora El Tatu). Viajaram o país e cruzaram fronteiras. Abriram o concerto dos Rolling Stones em Coimbra e encheram o Coliseu, o Atlântico e o Estádio do Restelo, e mais viera. A última vez que os ouvi foi em 2008, na Expo, nos trinta anos, e estavam pais e filhos: é assim uma geração que inventa e reinventa.

Foram o maior grupo rock da música portuguesa. E são e vão continuar a ser. A identificação geracional que essa história criou é por isso profunda como uma revolução cultural e foram eles quem a fizeram porque a tinham no sangue. Lá longe, nos anos 60 e 70, dos Beatles aos Doors e tantos outros andavam por aí, mas à distância de uma guerra colonial, de uma ditadura velha, de uma nostalgia sem fim. Foram precisos os anos da revolução, que foram a explosão da vida que faltava para os Xutos nascerem no momento certo e no lugar certo, logo após a política de 1974 e 1975: prolongaram e radicalizaram a descoberta de que tudo era e devia ser possível, na vida, nos amores, na música, na cultura.

São um feito raro no rock como na música de intervenção: inventar sempre formas novas, sem depender de êxitos iniciais. Conseguiram tudo sem se deixarem ficar redondos e vazios, mantendo-se atentos e livres para mandar à urtigas poderosos e bajuladores, que não foram poucos. Ao longo dos anos seguintes, o seu percurso só poderia ter sucesso com a geração de novidades e de encantamento, e foi isso mesmo: hinos de momento, crítica corrosiva do cavaquismo, discursos claros, reutilização de temas tradicionais, alteração da acústica, proximidade dos públicos, jogos de sons com outros músicos, ensaiaram de tudo e gostamos disso. Os Xutos combateram o aborrecimento e a chatice. As gerações que se foram reconhecendo neste percurso são assim mesmo, curiosas e diversificadas, tristes e entusiastas, desiludidas e esperançadas, combativas e caladas, uma coisa e outra porque a vida é paradoxal, mas esta gente procura sempre mais, mais intensamente, viver cada dia o melhor que se pode, com os outros e a andar para a frente.

Xutos, rock de combate.

Comentários

  1. rock de combate? tudo isto mostra é uma coisa: esquerdismos são mercado pronto a vestir e pronto a explorar por quem saiba pegar numa guitarra sem a deixar cair, gargareje o que eles se derretem por ouvir e não desperdice uma boa oportunidade de ganhar umas boas c’roas. Imprensa totó quanto baste não lhes falta.

  2. O berço dos Xutos foi o Rock Rendez-Vous, na Rua da Beneficência em Lisboa, no final dos anos 70, exactamente no local onde, após o 25 de Abril, se visionavam filmes out-of-system no “Universal”, de boa memória para os mais velhos e da impossibilidade da memória para os mais novos. A malta nascida nos anos 50 fez aqui a sua música e criou a sua mensagem.

    Mas os Xutos são um caso à parte: construíram o Rock proletário, Toda a verdade dos Xutos está contida na canção “A Estrada”, que identifica a banda e as suas origens. A banda da Margem Esquerda da vida e das pessoas. A mensagem contida nas canções é sempre dura e escorreita. Quem pode dizer que as dificuldades da vida numa sociedade desigual e desumana não conduzem à melhor das obras musicais, uma obra feita de processos simples e na justa medida dos perfis dos seus criadores? Os Xutos são disto exemplo.

    Foram e são úteis os Xutos. A sua mensagem é cristalina, como só se consegue ser quando se pisa o palco da vida com coerência. Existe verdade nos lyrics dos Xutos, que são únicos no panorama musical português. Genuinamente um produto português e da arte de ser português. Uma banda comprometida com as questões que afligem os mais explorados e necessitados.

    Zé Pedro, RIP.

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