Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

29 de Novembro de 2017, 00:48

Por

Minha cara cliente,

Já sabe do inquérito que aqui lhe estendo: de que clientela é vocelência? Porque a sociedade à beira mar plantada está dividida entre as clientelas, portanto malévolas e interesseiras, e os garbosos cavaleiros da virtude pátria. Todas as vozes autorizadas se conjugam nesta certeza, a de que as clientelas tomaram conta do fraco do primeiro-ministro e procedem a esventrar o orçamento, comendo-lhe nacos sangrentos, tudo num apetite que compromete o futuro de Portugal. É portanto de grande responsabilidade a escolha que vai fazer. Pondere antes de assinar, os credores estão de olho em si.

A sua primeira opção é a pior, fica já a saber. Se faz parte dos 210 mil que beneficiam da alteração do mínimo de existência, dos 1,3 milhões salários e pensões que pagarão menos IRS dado que a promessa dos novos escalões se cumpriu, dos 2,5 milhões de reformados que vão ser aumentados ou dos 600 mil funcionários públicos que têm as carreiras descongeladas, se é um dos 600 mil trabalhadores do privado cujo salário mínimo vai voltar a subir, se faz parte dos muitos milhões que usam o serviço de saúde e conseguirão médico de família e esperam a recuperação da qualidade dos tratamentos, se tem crianças que vão ter manuais escolares gratuitos e menos alunos por turma ou se recebe o abono de família, só tenho uma notícia tenebrosa para si: malandra, está a devorar o Orçamento, essa clientela é a vergonha do país.

A sua segunda opção é a melhor, vá por mim, assinale que é tudo boa gente. Se tem interesse na privatização dos aeroportos, na venda da TAP ou na concessão dos transportes de Lisboa e Porto, espera pela véspera ou até pelo dia seguinte a eleições, que um governo de gestão lhe vai fazer o despachozinho. Se tem uns dinheirinhos de lado, vai haver um apagão e 10 mil milhões voarão para offshores, se o seu banqueiro for dos tais é coisa garantida. Se tem amigos na mafia russa, um Visto Gold resolve o assunto, seja bem-vindo. Se comprou uns submarinos, já sabe que o Pai Natal está próximo. Se espera dividendos nas energéticas, a renda é confortável e, credo, ninguém lhe mexe. Se teve prejuízos no seu banco, talvez consiga que o Estado lhos pague ao longo dos próximos 19 anos. Isso não é clientela, não senhora, é tudo business.

Assim estamos, então. Invariavelmente, nesta luta sem tréguas pelas palavras, os que dizem “clientela” atribuem-se representação do interesse geral e fazem vénia a quem terçar pelos barões, pelo sr. Neeleman, pelo dono da EDP, por algum aventureiro que quer Visto, são os “investidores”.

Noves fora, um conhecido cientista político norte-americano, que ia pelo difícil nome de Schattschneider, escreveu uma vez o mais óbvio: “Há milhões de conflitos potenciais em cada sociedade moderna, mas só alguns se tornam significativos. A definição das alternativas é o supremo instrumento do poder. Quem determina sobre que é que é a política dirige o país”. Ou seja, quem determina as palavras com que se fala ou os temas que se discutem é o vencedor. É mesmo disso que se trata: se o discurso anti-“clientelar” conseguir marcar um cordão sanitário em volta da vida da maioria da população, patologizando as suas aspirações e fazendo com que os da fila da sopa dos pobres lamentem a desgraça do milionário que tem de pagar o “imposto Mortágua”, então a direita prevalecerá. Mas engana-se quem à direita pense que a batalha está ganha e espero que tome nota: a radicalização do PSD e CDS e de outros como partidos orgânicos dos interesses burgueses impõe-lhes um custo, se à esquerda se perceber que esta discussão exige a centralidade de uma estratégia de bipolarização. Vamos a isso, é tempo de atacar as clientelas sem dó nem piedade. Se se pergunta como serão estes dois anos para construírem uma esquerda que vença, eis a resposta. Bipolarização. Vida mais difícil para o centro? Sim.

Comentários

  1. E vocelência de que clientela é?
    Bem, já percebemos que não é uma das 109 vítimas mortais dos incêndios florestais, nem uma das 5 da legionella, nem dos 200 feridos que ficaram queimados, nem uma das crianças que come nas cantinas escolares, comidinha boa para porcos.
    Também já percebemos que não costuma consumir combustíveis, nem ir ao supermercado fazer compras, nem precisou recentemente de arrendar uma casa ou um quarto, nem mesmo comprar uma casa, ou mesmo de fazer uma cirurgia nos hospitais públicos.
    Sabe como é que eu sei que não precisou fazer nada disso, ou então o que vocelência aufere, seja lá de que forma for, torna irrelevante todas esperas todos os aumentos que todas estas coisas sofreram? Pois é, eu sei, porque sei que o senhor é inteligente e se a”coisa” lhe doesse a si, não era assim que falava.
    Eu sou da clientela dos pagadores de impostos e dos aumentos de ordenados, os quais são absorvidos por esses mesmos impostos e pelos aumentos dos preços dos combustíveis, os quais aumentam tudo o que depende deles. Que é exatamente tudo o que compramos, consumimos ou utilizamos.
    Para além disso, o país continua tão pobre como estava em 2011, com a gravidade de que mesmo com a boa onda criada pelo fim da crise, pelo turismo e afins, não foram criadas no país as estruturas imprescindíveis para que existam condições que fomentem a riqueza no país, nem a sua capacidade para, em virtude da sua solidez económica e financeira e tecnológica e industrial, ter maior capacidade para resistir às crises cíclicas das economias, as quais têm atualmente ciclos bastante mais curtos e consequências mais gravosas, em virtude da globalização.
    Estamos, então conversados?

    1. Ainda bem que a Teresa não é da clientela que privatizou a TAP e a EDP e subiu os impostos e escondeu as transferências para os offshores. Ainda bem.

  2. Paleio de treta de um comunista disfarçado em modernista! Olhe para a desgraça em que o nosso país está transformado (só falta defender Cuba, Angola ou a Coreia do Norte…

  3. Mas que grandeza de artigo. Estava na esperança que já tivessem acabado com os vistos Gold que inflacionam o mercado imobiliário ao resto da população. É uma vergonha que ainda não tenha sido feito.

  4. Quem chegou à Presidência do PSD para pôr as coisas nos termos de nós ou eles, fazendo a fratura social entre donos da coisa e os outros e em termos políticos entre PSD e quem o apoiar e os outros foi Passos Coelho e seu bando. Fizeram um projeto de Constituição para substituir a Constituição em vigor, deram o tom às hostes. Radicalizaram politicamente e socialmente. Destruíram parte da economia, aceleraram a falência da banca portuguesa que, à exceção da CGD, é agora estrangeira, alienaram o mercado, os negócios e as empresas das atividades vitais à vida no território português, assinaram o chamado Tratado Orçamental, com o apoio do PS de António José Seguro, destroçaram a legislação laboral e a contratação coletiva e respetivas portarias de extensão com o apoio da UGT, fizeram uma bolsa de pobreza de mais de 2,6 milhões de portugueses e quase um milhão de desempregados, criaram o seu estado paralelo privativo no negócio do assistencialismo, reduziram Portugal ao protetorado que é hoje.

    O desafio lançado por Passos Coelho é seu bando a caminho da substituição da Constituição da República em vigor pela que está guardada em alguma gaveta contou e conta com o PS dos conselhos de administração das empresas e instituições privadas e públicas e experimentou esse apoio nos actos da destruição de Portugal independente.

    O PS diz que diverge da esquerda, seja lá o que isso for, no apoio à NATO e UE. A NATO que tem a América de Trump como “inimigo” e a UE que tem o Reino Unido como “inimigo”. Se é verdade essa declaração, ainda ontem repetida pelo Presidente de PS, sobra um amplíssimo campo de convergência e entendimento que é preciso verificar.

    1. Ahahahahahahah,esse que nem pagava impostos e que nesse mesmo caso burlou os portugueses ao afirmar que o bes estava sólido e aconselhou todos a investir nesse banco,opá enterra te para não cheirares mal vai dizer essas aldrabices para a Universidade de verão

    1. Desculpe, mas não concordo. O Professor Francisco Louçã sempre se apresentou apenas como historiador (da Economia, é certo) e nunca como economista. Nunca teve pretensões de saber de Economia, mas apenas de doutrinas económicas – na verdade, o Professor pertence àqueles para quem a Microeconomia não é mais do que uma ciência esotérica, muito menos verdadeira e sólida do que o Veganismo, por exemplo.

Responder a Teresa Varela Cancelar resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo