Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

27 de Novembro de 2017, 08:51

Por

Economia humana? Onde está ela?

Há tempos, vi num jornal britânico uma notícia acerca de novos instrumentos de controlo sobre o trabalho em empresas do Reino Unido. Eram dados exemplos de “people analytics”, através de sofisticados aparelhos e softwares de controlo ininterrupto. O objectivo não disfarçado é o de medir a produtividade, o empenho, a preparação, mas também coligir dados sobre contactos, emoções, descanso, vida pessoal.

Segundo a notícia, pelo menos quatro importantes empresas, incluindo um dos maiores bancos de retalho, estão a utilizar cartões colocados junto ao pescoço com um microfone para análise em tempo real da voz, sensores Bluetooth para escrutinar a proximidade de colegas e um medidor da actividade física e do tempo de conversa. “Através do tratamento destes dados pode ter-se uma informação detalhada de como as pessoas comunicam e a previsão de aspectos psicológicos e comportamentais”. Mede-se o tom, embora (ainda) não o conteúdo das conversas. Nas actividades de venda, é possível registar toda a linguagem corporal.

Outra empresa aplicou uma tecnologia para aferir o estado físico das pessoas quando se levantam, para medir a actividade cerebral e as emoções, a fadiga, o stress, a relação com o álcool e os padrões de sono. O próximo passo parecer ser o de “CV biométricos” que possibilitem um quadro exaustivo da adequação, qualificação e aptidão para o trabalho.

Surpreendente é que sendo estes registos (aparentemente) voluntários, a sua adesão ande perto dos 90%. Mas percebe-se porquê…

Este Big Brother de enésima geração vai avançando, pelos vistos, inexoravelmente. Com o silêncio dos atingidos, a omissão dos poderes regulatórios, o entusiasmo gestionário que olha para as pessoas como instrumentais, e a incapacidade das forças sindicais em se reposicionarem num mundo que pouco já tem a ver com a sociedade assalariada de outrora.

Distraída ou talvez não, a sociedade mergulha delirantemente nas novas tecnologias, correndo o risco de ficar algemada pela violação consentida ou forçada da sua privacidade e do seu direito à individualidade e à plena expressão dos direitos de personalidade.

As novas técnicas são sedutoras, mas a nossa autonomia exige que a sua aplicação seja acompanhada de responsabilidade moral no seu uso. O seu fascínio é ambivalente. Vale para nos libertar pelo progresso a elas associado, mas também para desumanizar as relações e encarcerar as consciências.

Outrora, o maior risco era a escravidão. Agora e numa espiral alucinante, robotizam-se atitudes e as pessoas correm o risco de ficar prisioneiras e vítimas das novas máquinas e softwares, com que muita gente se deixa envolver alegremente. Quando prevalece a absolutização da técnica, verifica-se uma confusão entre fins e meios. Corre-se o risco de não ser o homem a dominar a máquina, mas a ela se submeter, levantando-se insondáveis interrogações sobre a ligação entre técnica e ética. O trabalho tem um sentido ético e não apenas técnico. É que nem tudo se reconduz a mais ou a menos algoritmos impostos à natureza humana. As inteligências artificiais são isso mesmo: serão inteligências, mas também não deixarão de ser artificiais. Não sentem, não desejam, não vivem…

Ao mesmo tempo, os grandes operadores nestas áreas são glorificados acriticamente, na sua lógica capitalista predatória e na inovação de puro apelo consumista levado aos extremos. Passaram a mandar, de facto, no mundo global e a ameaçar os poderes democráticos. Fogem fácil e descaradamente aos impostos, mas são endeusados como símbolos da transparência (?) e da inovação. Hoje, a sigla FAAMG (Facebook, Amazon, Apple, Microsoft e Google) determina mais no mundo de que os chefes de Estado e de Governo.

Economia humana? Onde está ela?

 

 

 

Comentários

  1. “…que olha para as pessoas como instrumentais.” o que leva uma população a aceitar esse olhar sociopata?

    Quem é que domestica a população para que se habitue a ser subalterna, e um mero instrumento da vontade de sociopatas (poderes)? Será a teologia que diz que o “homem é um servo do senhor”, e assim leva ao aceitar, como normal, essa aberração do homem ser um mero instrumental da vontade de sociopatas (como esse que criou um inferno para impor a sua vontade)? Caro crente, não reconhece os efeitos da sua própria crença na destruição da sanidade social de uma população?

    Menos mal que pelo menos reconhece como mau o efeito observado.

    “O trabalho tem um sentido ético…” não tem não. O homem não é filho de um deus menor, condenado a trabalhar quando mais nenhum outro ser vivo trabalha. Trabalhar é a actividade de obedecer ao dinheiro (ao poder), o contrário de respeitar a ordem.

    Essa invenção do “trabalho tem um sentido ético” é outra ferramenta da mesma domesticação da população aos abusos dos sociopatas (poderosos), para que não enjeite a péssima vida decorrente de obedecer aos seus próprios parasitas.

    A vida saudável não é regida pelas regras da insalubridade social, muito menos reconhece a ética de quem obedece e participa na imposição do desequilíbrio social (poder).

    O trabalho é um sinal clínico, que revela a presença de parasitas nessa população.

    A ética judaico-cristã é uma patologia cultural recente, a espécie humana é anterior ao aparecimento dessa patologia cultural.

    É a saúde da espécie humana que determina se uma teologia é, ou não é, válida. E o desequilíbrio produzido pela teologia Abraâmica revela que é uma teologia insalubre, tóxica, com os efeitos nefastos como os que o caro Félix apresenta (além do enorme cadastro criminal, de constantes crimes contra a humanidade, que a história apresenta).

    A santa inquisição torturou até à morte crentes que colocaram menos em causa a validade do cristianismo, que caro Félix. Com que então o homem não é um simples instrumental?!

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