Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

25 de Novembro de 2017, 00:05

Por

Dois anos entre Belzebu e Lúcifer

Pois passaram dois anos sobre a tomada de posse deste governo. Se se lembra do início, pode medir o caminho seguido: o presidente Cavaco Silva tocou as trombetas do apocalipse, enunciando uma Nato furibunda, uma União Europeia assustada, uma burguesia de malas feitas e uma sociedade afundada. O presidente foi-se embora e o governo lá singrou, nem precisou de muito para confirmar uma maioria capaz e resultados que desbarataram a contestação da direita, para mais prejudicada pelo voluntarismo simpatizante do novo presidente.

O governo beneficiou assim de um efeito de alívio generalizado e de duas vantagens. A primeira é que, resumido ao azedume, o PSD foi derivando para uma esperança última, a da censura europeia que desbaratasse a geringonça. Tudo correu mal para este plano, aliás bizarro: a União ensaiou umas sanções pífias mas logo se calou, virando-se para a surpresa britânica, o estremecimento francês e a incerteza alemã. Se é certo que tanto o governo como os partidos de esquerda também temiam essa intervenção da cavalaria prussiana – e Dijsselbloem e Schauble bem se esforçaram – ela esfumou-se. Voltará, logo veremos quando.

A segunda vantagem foi o efeito mobilizador de uma ligeira recuperação de rendimentos. Isso deu à esquerda um sentido pragmático de resultado feito e à sociedade um empurrão de confiança que os anos de austeridade tinham abalado profundamente. Se alguém analisa a política portuguesa sem perceber este efeito moralizador profundo, cultiva o engano e vai esbarrar com a realidade. Marcelo percebeu o que Passos confundiu, e Cristas cola-se a Marcelo porque tem instinto de sobrevivência, as sondagens aliás explicam porque precisa de tal suplemento de alma.

No entanto, ao longo de dois anos o governo revelou fragilidades e essas penalizam também as esquerdas, qualquer que seja a sua coreografia. O governo não está organizado para responder a crise políticas e mesmo uma mini-crise como o Panteão demonstra que estremece perante as redes sociais: quem se lembraria de encarregar o primeiro-ministro de responder sobre o assunto? O governo não mostrou cabeça fria ao longo das crises do verão mas, sobretudo, não percebe o desgaste que a rotina lhe impõe, buscando golpes de asa que, amiúde, dão asneira, como a translação do Infarmed.

A questão da rotina, certamente pior na segunda metade do mandato, é esta: faz olhar para o lugar errado. O problema do país não é o Panteão, mas são as florestas que vão sempre arder, o serviço de saúde que se limita a esconder as suas falhas e a esgotar os seus profissionais no desespero da falta de meios, a prepotência da desqualificação pelos salários baixos. Belzebu não mora aqui, Lúcifer perdeu-se, mas o mapa é difícil, pois a estratégia para Portugal tem sido ganhar tempo para escapar do pior mas só falta o essencial: fazer o tempo. Os próximos dois anos serão perdidos se faltar essa estratégia para a segurança que o povo merece. Por isso, as prioridades serão saúde e trabalho, ou o governo esgota-se no seu poder.

NB- Defeito meu, não estou habituado a tanta gentileza dos meus antagonistas em debates, mas o Dr. Júdice merece homenagem. Tendo eu lembrado que ele anunciara abstenção do PCP no Orçamento, veio confirmar o facto. Tendo eu notado a sua antecipação de que Costa desencadeará uma crise política para eleições em 2018, assentiu e confirmou que o texto que leu na TVI anunciava esse “palpite”. Palpite, no meu dicionário, sobretudo vindo dali, é coisa séria, pois mobilizaria nada menos do que governo demitir-se alegando interferência europeia e levando o país a uma crise, para nela pedir maioria absoluta. Tudo tão palpitante que desconfio que seja simples afirmação de desejo. Mas só posso agradecer ao Dr. Júdice a cortesia de confirmar o meu texto.

Comentários

  1. A “ideologia” dominante em Portugal é um século de anti-comunismo e muitas décadas de anti-PCP. Essa “ideologia” implementada pelo medo é responsável por incontáveis perseguições, prisões, torturas, mortes, exílios, desesperança, isolamento, vistas curtas, obscurantismo, analfabetismo, iliteracia e muita submissão. Um monstro pior que “Adamastor” que pesa como chumbo na construção da democracia portuguesa.

    A formação do XXI governo constitucional há dois anos foi um murro no estômago desse mostro. O medo espalhado ao longo de um século subitamente virou-se contra o seu criador, a “elite” que tomou para si os órgãos sociais das empresas e instituições privadas e públicas e do topo do Estado amputando friamente uma parte de Portugal. Não custa a perceber o choque provocado pela formação de um governo só possível contando com a parte amputada de Portugal.

    As fantasias anacrónicas que povoam as mentes dessa “elite” não têm correspondente nem em Wolfgang Schauble, muito menos em Mario Draghi. Uma surpresa para as certezas certas em que Passos Coelho e seu bando fundaram a sua estratégia do “Diabo”.

    Por absurdo que pareça, nas cabeças dos quadros do PS que partilham, com os do PSD e CDS, o poder efetivo nos conselhos de administração das empresas e instituições privadas e públicas subsiste esse obscurantismo responsável por tanta trapalhada, tanto nervosismo, tanto ziguezague, tantas saídas em falso, tanta insegurança e tão ridículas cenas de comunicação recíprocas entre amigos do peito de tantos anos do mesmo “arco de governação”.

    A estratégia que mais colhe de momento consiste em aguentar o resto da legislatura para logo voltar o antigo paraíso da governamentação do parlamento com os poderes já capturados pelo “Tratado Orçamental” e pela predominância das Diretivas europeias. Logo voltará o empobrecimento, a usurpação dos direitos do trabalho e a imposição da precariedade como regra.

    A dificuldade de António Costa é ser capaz de chegar incólume ao fim da legislatura sem ter de se demitir antes.

    1. Mantenha presente que o actual governo só é possível por o candidato do PS ter uma sede de poder desmedida, aliando-se a qualquer coisa para se manter à tona. Encontrou aliados à medida. Só o imagino a transpirar de medo de cada vez que a Martins lhe liga.

    2. Caro PC, não comungo da sua opinião. Este governo minoritário do PS existe por causa dos resultados eleitorais de 4 de Outubro de 2015. Na sequência dessas eleições o Sr. Presidente da República, professor doutor Cavaco Silva, indigitou Primeiro-ministro o Dr. António Costa depois de fracassar a sua primeira tentativa que foi o XX governo constitucional.

      Este governo minoritário do PS tem maioria parlamentar estável e maioria social igualmente estável.
      É um governo capitalista, com governação capitalista e submissão ao poder dos lobistas e tecnocratas da chamada UE.
      Não está nos planos deste governo fazer absolutamente nada, antes pelo contrário, para libertar Portugal da submissão a que as políticas de direita dos últimos 40 anos o conduziram.
      É um governo que não comporta surpresas para o establishment europeu. Causa náuseas apenas em algumas cabeças muito afetadas pelo passado obscurantista da vida política portuguesa.

  2. O Governo não precisava de mostrar cabeça fria nas “crises do verão”. O Governo mostrou a esquerda urbana fria e calculista. A “reacção” aos problemas do interior foi feita com longas discussões na esplanada. Ir ao terreno para pelo menos mostrar alguma compaixão, isso é que não. Não eram cidadãos, era só o povo. Enfim, efeitos colaterais de termos gente que se auto-denomina como elite.

  3. Peço ao Snr. Louçã o favor de não censurar este comentário.Não é ofensivo: relata factos, de resto divulgados pelo Jornalista Gustavo Sampaio, conforme nota abaixo.

    É preciso relatar que a Sociedade de Advogados do Snr.Júdice, um ex-jovem turco do PSD, é uma porta giratória entre o Estado e o sector privado. LIgações: Abel Mesquita, Eduardo Nogueira, Emídio Rui Vilar, José Miguel Júdice, Luís Pais Antunes, Manuel Cavaleiro Brandão, Nuno Morais Sarmento, Pedro Melo. As ligações empresariais são variadas: Jerónimo Martins, REN, NOS, etc…

    Muitas privatizações passaram pela referida Sociedade de Advogados no tempo de Passos/Portas.

    A PMJL entrou na questão dos swaps por intermédio do seu membro Hugo Rosa Ferreira, que, por seu turno, tem como nódoa negra do seu curriculum um prejuízo esperado de 9 milhões de euros, precisamente num negócio que liderou aquando da sua passagem pelo Deutsche Bank.

    A PMJL a grande facilitadora de negócios.

    Uma pérola de Nuno Morais Sarmento sobre as PPP e sobre a blindagem jurídica:”Eu sei o que escrevi nos contratos…”.

    É preciso que se saiba o que é a PMJL e o que é o Snr. Júdice.

    Mete medo? Possivelmente. Mas só vive duas vezes, quando se nasce e quando se morre, como afirmou Ian Fleming.

    É necessário, imperioso e urgente informar e passar a informação.É preciso saber quem é quem.

    Vide “Os Facilitadores”, de Gustavo Sampaio, Ed. Esfera dos Livros, Lisboa, 2014. É Portugal e o seu trágico destino e condição.

    Não conheço nem quero conhecer o Snr. Júdice. Infunde temor. Digo isto no primeiro dia do resto da minha vida.
    .

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