Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

20 de Novembro de 2017, 08:39

Por

A miséria do nosso futebol

Sempre me interessei pelo futebol. Sou entusiasticamente adepto de um clube. Vibro com os seus sucessos e padeço com os seus desaires. Um sentimento naturalmente tão autêntico, como não isento. É esta aparente contradição que faz do jogo jogado simultaneamente uma delícia e um risco. Reconheço que nem sempre a racionalidade fica à frente da emoção. Como adepto, evidentemente.

Acontece que a atmosfera em redor do nosso futebol está a atingir tais níveis de inquinamento e poluição que, crescentemente, sinto necessidade de me voltar para dentro e ignorar o que quase sempre me aprazeu.

Chegou-se ao nível zero? Não, antes a um nível abaixo de zero. É como, com alguma indulgência, poderemos qualificar o estado a que chegou o ambiente no panorama futebolístico nacional. Jamais houve uma tal degradação, ainda que paradoxalmente num tempo em que até somos vitoriosos campeões europeus de selecções.

Estamos diante de um ar irrespirável. Tudo vale porque nada parece valer. Como na tourada, há todos as personagens e todas as cortesias. Os peões de brega que, mandatados na penumbra do submundo de ordenantes, fazem a figurinha (travestida de “anjo”) de mestres de graçolas, instigadores de veneno e geradores de ódios. Às vezes, até são pessoas com curricula respeitáveis que, todavia, se deixam envolver por afrodisíacos momentos de efémeros protagonismos. Depois, há os picadores que habitam em certos fora (não todos, diga-se em abono da justiça) e que têm sempre uma lógica fosforeira nos seus momentos de vã glória. Há os cavaleiros que, do alto dos seus animais, usam a táctica do toca e foge, lançando farpas e espalhando sangue e lama em jeito de ventoinha. Há os forcados (alguns até com c cedilhado) que, laboriosamente, tecem teias em troca de favores, prebendas e outras mordomias, sempre com um ar independente a fingir pegar pelos cornos do bicho. Há os toureiros, uns mais exuberantes no manejo da muleta, outros mais silenciosos e escondidos. Por fim, há o inteligente. Que sempre se considera moralmente acima dos outros, que sempre é o único e inimitável, que sempre se proclama peregrino da revolução ética que urge fazer.

Como no Titanic, todos cantam e bailam ao som da música, contribuindo para afundar o que ainda está emerso. Que lhes importa isso? Actuam na aparência de “salvadores da pátria”, quais redentores ungidos pela providência. Nem sequer querem saber que o desastre de uns é o desastre de todos. Falam como detentores de uma verdade que se esfarela no virar de um fim-de-semana seguinte. Agem como predadores sem se aperceberem que se estão a auto-mutilar. Desrespeitam-se uns aos outros com uma frequência tão regular, como institucionalmente letal. Não enxergam que, no dia seguinte, a água que os afunda lhes entra pelos poros da boçalidade e pelos pulmões da imbecilidade. Julgam-se imunes a todas as contingências e isentos de todas as formas respeitáveis de relação. Alimentados freneticamente por alguns modos ínvios de comunicação social, uns são verdadeiros vampiros à busca de sangue e raiva, outros há imperadores da má-criação, da barbárie ética, da vilanagem, da mentira, do boato, do anonimato ou da cobardia.

Os poderes públicos – com a honrosa, ainda que impotente, excepção da FPF – assobiam para o lado, ou prestam parvas vassalagens e distribuem honrarias, ou, ainda, dizem umas pias palavrinhas sem qualquer resultado. Isto já não vai lá assim. Legislem de modo a não beneficiar os infractores, actuem de maneira a não favorecer os incendiários. Todos agradeceremos, mas principalmente os futuros adultos que, hoje, enquanto crianças, só conhecem o lado mau deste entusiástico desporto.

 

Comentários

  1. Tudo bem, acredito que tenha sido na infância meio cego, mas nestes meus 40 anos, não conheco outro fotebol sem ser o descrito. As criancinhas de hoje não têm hipótese nenhuma. Talvez aqueles que sigam história do desporto.
    Não será que o fotebol é o que é, para desviar a raiva e frustração das nossas vidas para um uso mais consciente. Não é o fotebol de domingo que leva as pessoas para o trabalho na segunda?

    Uma sociedade doente toma naturalmente muitos remédios. Não confundir o desgaste horrível e o enjoo constante da quimio com o mal do cancro.

  2. Desporto, televisões e partidos politicos são o espelho do quotidiano da miséria pátria, no campo da educação, da moral, da mentira, da corrupção , da leviandade e da justiça. O pindérico assumiu a cultura de Portugal que desceu ao nivel mais baixo que as gerações ainda vivas conheceram. Se juntarmos a insegurança , o desemprego , e a bancarrota ainda não afastada, que futuro poderemos esperar?? Quando uma mafia futebolistica está acima dos valores transmitidos por educadores, professores, sábios, cientistas e algumas poucas figuras crediveis de retidão e seriedade o que se pode esperar dum país. que chegou a campeão do low cost da europa dos nossos dias.

  3. Já o disse aqui. Aquilo não é nada, nem competição nem nada. E muito menos desporto é. Resultados combinados, doping, manipulação de valores dos activos profissionais, somas astronómicas em mãos duvidosas, clubes em falência técnica a despeito da envergadura das somas transacionadas, lavagem de dinheiro, comissões que nutrem uma rede de ladroagem, alienação, polémicas e programas televisivos de enxovalho, ídolos escabrosos apresentados como modelos de virtude, etc etc etc….

    E agora esta do Benfas ( para não cair em clubite). Terá a justiça coragem para levar um assunto destes até ao fim como em Itália?

    Em nenhum outro país europeu o futebol assume este aspecto. A prova cabal da absoluta inferioridade mental deste povo miserável, completamente vergado à manipulação alheia (dos sectores do gang do dinheiro) que o submete a isto para melhor o controlar.

  4. Fácil. Acabem-se com todos os programas de TV dedicados ao futebol. Que passem só os jogos. Não são precisos os filósofos do futebol. Acabem-se com todas as transmissões em sinal aberto, com excepção da selecção nacional de futebol. Acabem-se os directos à porta dos treinos. Acabem-se com as notícias sobre contratações. Não se dê seguimento aos comunicados dos clubes. Que se mostre só futebol e mais nada. Pode ser que deixemos de ser um país de parolos.

    Já agora que estão com a mão na massa. Dêem o relevo às modalidades de atletismo. A selecção de futebol só ganhou uma coisa uma vez (e o segundo lugar no euro 2004). As selecções que verdadeiramente nos fazem sentir orgulho mal são faladas. Deixem de dar tempo de antena a labregos milionários e dêem-no a quem merece.

    1. E já agora a ver se arranjamos o dinheiro do bilhete de autocarro para ver se o nosso campeão europeu de patinagem artística pode ir lá à Holanda ou o que é para pelo menos defender o título. Aqui em Portugal só aqueles cujas capacidades são de outro mundo e sozinhos é que vão longe: é o rapaz que sobe para a biicicleta depois dos 20 e alguns e pouco depois é terceiro na volta a França. O outro que se joga ao canal da mancha sem barco e vai parar não sei a onde mesmo assim ainda chega a tempo andando pela praia. A maratonista com calcanhares defeituosos… até teria graça se estas enormes qualidades não demostrasse também os nossos enormes defeitos como país convidado eu apoia os seus.

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