Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

18 de Novembro de 2017, 00:32

Por

Os bons desejos do Dr. Júdice

Quem comenta, seus males espanta? Nem sempre. José Miguel Júdice, comentador TVI, tem a sina de se enganar quando trata da esquerda, o que ficou evidente no seu anúncio solene de que o PCP se absteria no Orçamento. Era coisa garantida depois das autárquicas, aí vinha uma orgulhosa abstenção. A conta era esdrúxula, pois implicava que, para que o orçamento ainda assim fosse aprovado pondo-se o PCP de lado (15 votos), o PS votasse com o Bloco, o PAN e os Verdes (108 votos) de modo a que a direita (107 votos) não vencesse. Este cenário sempre foi uma fantasia. Pago para ver o dia em que, numa questão importante, o PCP vota de um modo e outra sua parte vota ao contrário, seria pirueta. Mas o maior obstáculo ainda era político: negociando o Orçamento em detalhe e conseguindo algumas vitórias significativas (redução do IRS para os trabalhadores e pensionistas com rendimentos baixos, aumento das pensões, contratação de professores e medidas sociais), os partidos de esquerda ficam amarrados ao mesmo compromisso que limita o governo e devem viabilizar os seus próprios resultados. Portanto, assunto encerrado, o Orçamento, que ainda tem pela frente um mar de detalhes de especialidade, será aprovado. Júdice arriscou uma previsão e é vencido pelos factos.

Tranquilizem-se os leitores, nada tenho contra este tipo de previsões. Antes à frente de toda a gente, não há palco mais exposto do que a televisão perto de si, do que intrigas palacianas, ou subterfúgios, ou insinuações. Pão pão, queijo queijo, estas afirmações são conferidas nas semanas seguintes por toda a gente que as ouviu.

Mas Júdice resolveu dobrar a parada. Agora já não é o PCP que vai fazer cair a geringonça. O que nos foi revelado na última intervenção é muito mais soturno: o Primeiro-Ministro, homem matreiro, estará a cogitar provocar ele próprio eleições para alcançar a maioria absoluta, ali pela primavera. O cenário é convidativo, eleições internas no PSD, ou vai Rio ou vai Santana, ambos têm as suas vantagens para o PS, ambos lhe prometem “pactos de regime”, o que em Portugal só tem má fama, um levou o PSD à sua maior derrota de sempre e outro acantonou-se, ambos dividem o partido e nenhum deles convence o eleitorado que anda órfão de direita. Vai daí, Costa provoca crise política, sacode a esquerda que atrapalha o governo com exigências e usa o pretexto da Comissão Europeia, que manda recados a este orçamento sobre o pouco ajustamento do “défice estrutural” e outras sandices e quererá contas a meio de 2018.

O aborrecimento é que isto é uma fantasia. Primeiro porque o governo não provoca uma crise invocando uma culpa da “Europa”, seria suicidário quanto à sua história e política. Para o PS, como para o falecido “arco da governação”, a “Europa” é o último recurso de legitimação, não é uma justificação para a recusa de qualquer imposição que seja. Segundo, porque Costa não provocará uma crise política que tenha o aspecto de uma jogada: para satisfazer o desejo de Júdice, teria de se demitir de iniciativa própria, o que arrasta uma factura pesada. Não se confia no Primeiro-Ministro que deita abaixo o seu governo para pedir mais poder, tendo tido maioria estável. Terceiro, essa estratégia divertida entregaria a decisão ao Presidente e o PS nem quer ouvir falar nisso.

Resta então a questão: porque é que Júdice sugere algo tão estapafúrdio, se me perdoam o meu francês? Porque deseja que haja este abanão. A direita, como Júdice, está agora nisto: queremos o poder mas não podendo ser, pelo menos que o PS tenha maioria absoluta, já dormimos descansados. Façam qualquer coisa, atirem-se ao chão, corram com essa esquerda, défice estrutural e nada de corrigir pensões miseráveis, venha a redução do IRC, ora ouçam as clientelas. Natureza de escorpião? Talvez exasperação.

Comentários

  1. Parece estapafúrdio (desculpe o francês) Dr.Louçã , mas nunca se sabe. Com os xuxas tudo é possível. Basta que sintam que tem a fresta de oportunidade para uma maioria absoluta e não faltarão pretextos para a provocar. Direita não existe, praticamente desacreditada faz contas para um regresso aí por volta de 2030. E invocar no momento certo um pretexto qualquer para sacudir as ‘exigências incomportáveis’ que a esquerda imaginariamente pediria, levaria directamente a xuxalhada a assolapar-se onde realmente gosta de estar – mordomias do poder, proclamações pomposas, ares de progresso, multiplicação de enxúndia, e claro, o essencial: estar no centro da decisão dos negócios e sacar com os comparsas tudo o que for possível. Desde Soares que é assim. Guterres teve de fugir do meio deles. Seguro, esse desaparecido em combate, ainda esperneou enquanto o sangravam. E outro então ( o mais ilustre de todos eles) alto lá com ele. Os Deuses nos livrem dessa tragédia – seria o fim…….. Olhe-se o exemplo daquela serigaita em Almada…

  2. O dr.JM. Júdice tem muitas qualidades mas para comentador de TV näo dá. Porquê? Näo consegue controlar nem disfarcar a
    plurivoca multiplicidade antagónica de pensamentos que lhe percorre os neurónios…Como acontecia com o Prof.Marcelo, ele também se atropela a si próprio. E muitas vezes comete lapsos, ou está à beira do precipicio da verdade…A sua prestacäo televisa é, pois, um falhanco rotundo e clamoroso. Mesmo sobre Marcelo como PR, JM. Júdice raia o inacreditável ao querer parecer neutral. E sobre a geringonca arvora o ritmo de uma desesperada tentativa para dizer mal, sem o saber explicar, o que é o cúmulo.

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