Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

15 de Novembro de 2017, 19:49

Por

A evolução da economia em 2017

De acordo com as estimativas preliminares do INE, o PIB cresceu 2,5% em termos reais, no terceiro trimestre, em comparação com o trimestre homólogo de 2016. A taxa de crescimento nominal da economia deverá situar-se em torno dos 4%. O comércio internacional está a evoluir a taxas elevadas, com as importações e exportações de bens a crescer 13% e 11%, respectivamente, nos primeiros 9 meses do ano (de acordo com dados do Eurostat).

Em contraste com a percepção generalizada, o objectivo primeiro do resgate a Portugal e do programa de ajustamento que se seguiu, foi responder aos desequilíbrios externos do país e não aos desequilíbrios das contas públicas. Um dos elementos fundamentais da austeridade, na perspectiva dos seus defensores, seria deprimir, de forma permanente, o crescimento da procura interna e assim reduzir importações e reequilibrar as contas externas. Subjacente estava a convicção de que qualquer estímulo à economia resultaria num crescimento excessivo das importações e a novos desequilíbrios externos. Tinha sido esse, de facto, o padrão histórico da economia portuguesa.

Não é, porém, o duro programa de ajustamento (e a compressão da procura interna e importações) que explica o bom desempenho externo da economia na actualidade e, por conseguinte, o bom desempenho das contas públicas, como já aqui se defendeu. Esse desempenho é, numa parte significativa, explicado por factores externos exógenos, como a queda do preço do petróleo, o crescimento do turismo, a desvalorização do euro e a redução das taxas de juro.

O principal risco da actual “boa” conjuntura da economia portuguesa é que faça disparar as importações e o país passe a registar elevados défices externos novamente. O risco não é, como muitos argumentam, o derrapar das contas públicas.

É necessário, por isso, acompanhar com atenção a evolução das contas externas, ou seja da balança corrente e de capital e, na primeira, especialmente a balança de bens e serviços. Estas duas balanças, de acordo com o Boletim Estatístico do Banco de Portugal, continuam positivas entre Janeiro e Agosto.

Contas externas
F: BdP, saldos móveis acumulados em 12 meses.

 

Perspectiva-se, assim, mais um ano, o quinto consecutivo, com excedentes externos, i.e., em que o país poupa mais do que gasta  –  logo empresta ao resto do mundo  – e, em que se verificam excedentes na balança de bens e serviços.

Ou seja, mesmo com a economia a crescer a um ritmo que não se observava desde o segundo semestre de 2000, as contas externas evoluem de forma robusta. Nos primeiros oito meses de 2017, o excedente da balança de bens e serviços ascende a cerca de 2550 milhões de euros, “somente” menos 550 milhões de euros que no período homólogo de 2016.

Por conseguinte, a política orçamental pode procurar apoiar e reforçar o crescimento económico sem pôr em causa o equilíbrio das contas externas. No curto e médio prazo, pelo menos…

 

Comentários

  1. A débâcle do Planeta em termos ambientais e a ocorrência continuada de catástrofes e casos de corrupção leva a, cada vez mais, crescer o meu cepticismo relativamente à eficácia de predição efectivada pelos economistas. Diz-nos o post que, face à tendência mostrada pela evolução da balança comercial, definida como o principal constrangimento da economia portuguesa por série cronológica e verdade histórica, em detrimento da propalada questão da dívida, o ajustamento orçamental deverá ser de tal forma flexível que liberte excedentes para investir na economia e no sempre abençoado crescimento. Para quem ler, excluindo algumas breves e curtas referências, julga-se Portugal como centro do mundo e quase único decisor do seu destino.

    Continuarão, certamente, a afluir outros posts, artigos e análises, não só neste blog mas “all around”, que relatarão até à náusea as alterações da economia, esse papão sempre presente, mas que, afinal, quase sempre faz omissão dos seus interpretes, os grupos de interesses e as pessoas com as suas vidinhas próprias. É o trabalho dos economistas, rotineiro e que causa bocejos. Os mais lúcidos dirão: ” tanta conversa, mas mudam as moscas mas a miséria continua”.

    Portugal é um país periférico, asfixiado por graves casos de corrupção, com a Justiça manietada por factores políticos, o mais cerceante dos quais a falta de meios para combater a corrupção e os elos de ligação entre grupos de interesses e políticos corruptos. É bom lembrar: o poder judicial diz-se independente e separado do poder político, mas é este poder que condiciona a Justiça por não lhe fornecer, quicá propositadamente, os meios de que necessita.

    Depois, temos o colete-de-forças europeu,engendrado por Bruxelas/Berlim. Alguns economistas locais dizem-nos que o melhor caminho para o país é a máxima consolidação orçamental, investindo todas as forças na descida do valor da dívida, estratégia que o presente post considera desadequada, como, de resto, já foi sentenciado em anteriores posts. Neste aspecto, inteira concordância com o teor deste post e dos anteriores .

    Enquanto os políticos e os economistas desprezarem o efeito ambiental, os problemas da Justica e da corrupção e da inserção geoestratégica do país nos seus estudos e projecções, tudo isto passará sempre ao lado da realidade. É necessária uma nova teoria económica adaptada às circunstâncias e não mais uma corrente no seio da teoria económica, que poderia ser baptizada de social-ecológica. Como é exemplo a questão actual dos salários não respeitarem o dogma instituído relativamente ao triângulo desemprego-salários-inflação, causando perplexidade ao nível da própria FED americana, é necessária uma NOVA ECONOMIA para os tempos actuais. Esta forma rotineira de olhar para os problemas sem uma noção de conjunto e dos recursos naturais existentes e, muito importante, escassos, tem os dias contados. É necessário pensar e resolver para SOBREVIVER.

    Aprecio sempre os posts do Prof. Cabral, com links e gráficos instrutivos e esclarecedores, mas não perco o sentido de pensar e exprimir a minha opinião.

  2. Por diversas vezes tentei comentar de forma correcta e educada neste blog do Ricardo Cabral. Por diversas vezes o meu comentário foi censurado. Por este motivo, se é que interessa a alguém aí no Público, vou deixar de ler este blog.
    Ou aderem a um sistema de comentários decente como o Disqus, ou fazem como o Expresso e acabam com os comentários. Agora isto de censurar só porque sim, é um insulto a quem se dá ao trabalho de vos ler e aqui escrever.

    Caso o Censor do Público deixe esta passar, e resumindo o comentário anterior que era extenso pois o assunto é complexo, basicamente pergunto ao Ricardo Cabral qual a diferença que justifica crescimentos tão diferentes, quer da economia quer do mercado de trabalho, em 2014 (parte final), 2015, 2016, e 2017, uma vez que em todos estes anos houve conjuntura semelhante nos 4 factores que o Ricardo usou para agora justificar o bom crescimento: “preço do petróleo, o crescimento do turismo, a desvalorização do euro e a redução das taxas de juro”.

    1. Caro Jorge,

      agradeço os seus comentários. Eu só censuro comentários que sejam abusivos ou insultuosos para comentadores, ou outros visados. A censura é imperfeita e por isso as minhas desculpas.

      O meu argumento é baseado numa comparação entre 2008 e 2016. Ocorreu um ajustamento externo (variação favorável da poupança externa do país) de cerca de 12 p.p. do PIB e mais de metade explica-se pelos factores por mim enumerados. O comportamento da economia não depende só de factores externos e o próprio efeito dos factores externos pode ter variado de ano para ano.

  3. “desempenho é, numa parte significativa, explicado por factores externos exógenos, como a queda do preço do petróleo, o crescimento do turismo, a desvalorização do euro e a redução das taxas de juro.”

    Desde final de 2014 que o petróleo está mais barato, o turismo já crescia nas 2 casas decimais, o euro se começou a desvalorizar devido à emissão de moeda do BCE, e que as taxas de juro estão em mínimos históricos.

    Mas em 2014, a economia cresceu 0,89%, em 2015 cresceu 1,82%, em 2016 cresceu 1,54%, e em 2017 crescerá entre 2,6% e 2,7%.
    Os seus textos são sempre muito úteis e completos, mas este falhou completamente, pois não fala em ponto nenhum do que explica estas diferenças de crescimento.

    Falta também dizer o óbvio: enquanto estivermos no euro, o caminho para países como Portugal não entrarem em default (devido à dívida externa da sua economia, principalmente o sector privado), é manter, ou agravar, as condições laborais, de forma a impedir o poder negocial dos trabalhadores, e assim manter o poder de compra numa trajetória descendente em % do PIB, com os salários a crescerem estruturalmente SEMPRE abaixo da inflação, ou abaixo do crescimento Real (do aumento da produtividade), ou abaixo de ambos.

    O problema é portanto político. De carácter até! Há quem queira arriscar o futuro do país, só para manter este status quo. É por isso que a “união monetária” lhes dá tanto jeito, e dia sim dia não, lá vem um “comentadeiro” avençado do regime dizer que “sair do € seria loucura”… pois claro, é que aqui dentro de “união”, para além disso não há controlo de capitais, e os Panamá e Paradise Papers não seriam possíveis com a mesma facilidade…

    Dito isto, preparem-se para 2018/2019: eleições em Itália com maioria Euro-cética que quer fazer referendo para sair da “união”, Brexit, fim dos juros baixos (e o respectivo efeito devastador numa dívida que teimosamente ainda não foi restruturada), valorização do euro, subida do petróleo, turismo a estabilizar em Portugal, e Trump e Macron a liderarem nova vaga radical de Neoliberalização (a papel químico de Reagan e Tatcher nos anos 80), já para não falar do estoiro da bolha dos mercados que está para breve.

    Quem rejeita esta conjuntura favorável para sair do euro e reestruturar a dívida, e recuperar a soberania e o equilíbrio macroeconómico (impossível para Portugal dentro do euro, a não ser, e mal, com salários de miséria), terá de responder pelas consequências da próxima crise.

  4. Em síntese,

    …. o bom desempenho actual das contas públicas deve-se em parte significativa a factores externos exógenos (sic)…que não controlamos. Como não podia deixar de ser.

    Voltem os trafulhas do costume a delírios e esperem pela pancada.

    1. Gera poupança externa (i.e., por isso a terminologia empresta ao mundo). A dívida externa líquida do país reduz-se. Mas a dívida externa bruta só cai se quem gerou poupança externa decidir amortizar dívida ao invés de, por exemplo, realizar aplicações financeiras no exterior.

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