Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

13 de Novembro de 2017, 08:50

Por

A praga da omissão (enviesada) nos media

Estamos num tempo em que a verdade é suplantada pelas múltiplas formas da mentira: a meia-verdade, a notícia falsa, o rumor, a agora chamada pós-verdade e outras formas capciosas de falsificar a factualidade. Para além destas, há a mais insidiosa forma de eliminar a verdade factual, não a negando, mas omitindo-a. O silêncio que transporta é, não raro, uma forma sibilina de esconder, falsificar, suprimir, reduzir o que se passa. A omissão deliberada ou consentida em meios de comunicação social tem-se revelado cirurgicamente como uma forma perversa e não democrática de “fazer notícias” ou “alinhar noticiários”. Em liberdade, não há lápis azul, mas há esta poderosa forma de censurar sem lápis, num aparente jogo democrático de escolhas, subliminarmente ditatorial, preconceituoso, covardemente anónimo e não escrutinável quanto à decisão (e decisor) da omissão.

Há dias, tivemos mais um exemplo paradigmático desta forma de (não) noticiar. Três “Caminhadas pela vida” de pessoas que se juntaram para expressar o seu modo de pensar e agir face a questões da vida e para dar testemunho público da sua defesa do direito incondicional à vida. Em Lisboa, no Porto e em Aveiro. Uma iniciativa cívica e apartidária, sem sindicatos e outros poderes mediatizados, bem sucedida, em particular em Lisboa, com muitas pessoas a ela aderirem.

E o que nos informaram a quase totalidade dos media? Zero. Absolutamente zero.

Um despudor por magia da omissão. Serão capazes de justificar tal censura? Ou querem transformar-se em pseudo polícias dos costumes, seleccionando a seu bel-prazer o que deve ser noticiado? Quaisquer vinte arruaceiros à espera de uma equipa de futebol são motivo de notícia, com direito a repetição prolongada. Qualquer manifestação sobre o contrário do que a “Caminhada pela vida” defende sobre o aborto, a eutanásia, as barrigas de aluguer, as políticas de natalidade, etc. é objecto de reportagem, directos e debates. Qualquer ajuntamento por mais insignificante que seja de LGBT tem honras de bom alinhamento e boa página. E não venham com o argumento de “falta de espaço” ou “falta de tempo” com que, por vezes, querem justificar o injustificável.

Esta iniciativa teve, aliás, o conforto de uma saudação do Papa Francisco aos seus participantes, tendo em conta a “promoção e defesa da vida, contra a cultura do descarte, guiada por uma lógica económica que exclui e por vezes mata”. Este Pontificado que tantas vezes é glosado em muitas das posições que assume, mesmo por quem não é cristão, é aqui também omitido na enxurrada do silêncio. Para umas coisas, Francisco é o exemplo, para outras não existe.

Não está em causa a liberdade de se pensar desta ou daquela maneira sobre estes e outros temas chamados fracturantes (ou dissolventes). Está em causa a imparcialidade mínima de órgãos (alguns públicos!) de comunicação social que, pelo menos aparentemente, parecem ser ou deixarem-se ser dominados ou condicionados pela tal agenda de fractura.

Infelizmente, o que agora se passou é a regra. Digo-o sem rebuço: o conúbio mal disfarçado entre certa esquerda iluminada que se considera detentora do monopólio da verdade, da justiça, da cultura e da sensibilidade e algumas expressões mediáticas, elas próprias com uma acentuada maioria de agentes e profissionais dessa zona ideológica, quer afunilar o pensamento tornando-o único e reduzir à insignificância “gente” a que pejorativamente chamam conservadora.

Comentários

  1. Muito bem. É exactamente como diz o Dr. Bagão Félix. O Público, então, está há muito tomado pelos LGBT, ou lá como é que isso se chama. Depois queixam-se das pessoas não comprarem jornais.

  2. Os meios de comunicação social pertencem a grupos privados, existindo somente uma empresa estatal neste âmbito, a RTP.

    Vamos obrigar a Impresa a publicar o que achamos justo? O próprio Balsemão está a reformular o seu negócio e, excluindo o Expresso em edição impressa, tudo o resto permanecerá no futuro digital. A SIC é o ponto de lança, no mercado da televisão, onde se pretende equilíbrio entre receitas(publicidade) e despesas. Balsemão, um profundo conhecedor dos meandros da comunicação social – fez estágio como Director do Diário Popular nos finais dos anos 60, à frente da empresa da família, tomando balanço para a Ala Liberal. Ora, Balsemão, como empresário privado, tenta maximizar o lucro do seu negócio. Publicará notícias da estrutura supra da sociedade – as ideias, a cultura e os costumes – se lhe der na real gana, assim se estabelecendo os canais de comunicação com os directores dos respectivos media. Quem diz Balsemão, diz a Sonae com o Jornal Público, a Média Capital com a TVI e a Rádio Comercial, a Global Capital com o DN, JN e TSF, e o Grupo Cofina com o Correio da Manhã(que detem 40% do total das emissões diárias impressas), o Record e o Jornal de Negócios.

    Nas redacções abunda a precariedade laboral: baixos salários e insegurança. Situações de investigação, frequentes no passado – na nossa memória o Watergate e a queda de Nixon. nos anos 70, passado para o cinema por Pakula, com dois actores lendários Redford e Hoffman. Hoje, em Portugal, não é possível. No Público, ainda hoje, Cerejo é a excepção que confirma a regra. Ou Paulo Moura e Alexandra Lucas Coelho que, entretanto, saíram do Público.

    Os privados cortam, obviamente, nas notícias comprometedoras do ponto de vista dos seus pontos de vista. Se disserem o contrário, devemos sorrir. Sendo um negócio pouco rentável, não vão arranjar lenha para se queimarem…Veja-se o ritmo de extinções de publicações…Este mundo não é para graças… Escolhem criteriosamente os directores das publicacões que funcionam como os controladores da ideologia difundida.

    Os privados sobretudo investem, através de notícias e artigos de académicos, investigadores e jornalistas seniores de longa experiência e conhecimento(vide no PÚBLICO o caso de Teresa de Sousa, Jorge Almeida Fernandes e São José Almeida) na parte da infraestrutura da sociedade: o mercado de trabalho, as lutas sindicais, os aspectos da evolução da cena internacional na vida do país). Aqui se joga muito: o processo de optimização dos negócios pela divulgação de um conjunto de princípios que permita a evolução do negócio e a manutenção de um status quo favorável aos seus interesses.

    A quem se pode exigir o que o post reivindica é à RTP(Rádio e Televisão de Portugal). Sendo estatal, deverá abrigar as opiniões que pulsam na sociedade.

    Não se devem culpar os jornalistas. Analisando o panorama dos meios de comunicação os desafios são sérios e preocupantes. Que independência se pode esperar? Quem manda no Jornal – manda no sentido do capital e cobertura de prejuízos – tem a faca e o queijo na mão…Não adianta bramar contra os Jornalistas…

    Já não existem Jornalistas que tenham, sequer, a possibilidade de tornarem os seus textos empolgantes, objectivos e linguisticamente impecáveis. As condições são outras: está aí o digital. O que vemos viajando nos transportes públicos? Quem está a ler um livro ou um jornal? Raros. Quem está a teclar um instrumento digital? Quase todos. É esta a imagem real da realidade envolvente. Contra factos não podem existir argumentos.

  3. Muito bem caro Félix. A omissão e a manipulação por omissão dos media ocidentais é uma das sebentices que mais tenho denunciado aqui nos comentários do Público. Além claro da narrativa adormecente encadeada de forma subliminar em alguns factos reais e até alguns números para dar contexto verídico e matemático às mentiras drogantes. Agora engana-se o caro Felix em pensar que a omissão e a manipulação está só relacionada ou sobretudo relacionada com uma “esquerda iluminada”… a manipulação é sempre, sempre, sempre visível em tudo o que seja do interesse dos mercados e da política externa americana. Nisso não há deslizes nem são permitidas margens de manobra nos media. Sobre o resto, nomeadamente política nacional interna, há uma margem de manobra substancial, com altos e baixos conforme as relações de poder mas que a meu ver até é aceitável. É assim…

  4. O Público, por exemplo, está tomado por ideologias. Já nem têm pudor em tentar disfarçar. Uma passagem pela página principal do online mostra o total desrespeito pela pluralidade de ideias. Já não é um jornal. É um folhetim activista.

    Uma pergunta rápida: porque é que o Provedor do Leitor não escreve nada há mais de ano e meio? Serve para quê, concretamente?

  5. Tem toooooda razão. O país anda vergado a estes trambiqueiros e não vai acabar bem. É um problema muito mais profundo, de uma completa insensatez, e do qual emergem, entre outros, para referir apenas os mais recentes, aquilo no ‘Panteão’, do gajo que dá porrada na polícia e volta airoso do muito civilizado juiz, ou o cão do Ministro.

  6. Muito bem!
    E depois queixam-se das redes sociais, dos perigos da falta de controlo das notícias dadas naquelas, mas já de há muito que os jornais, incluindo o PÚBLICO (apesar de ainda assim ser dos melhores), só noticiam o que “fica bem” na seleção de notícias e temas que os “doutos” gurus das redações acham importante e de noticiar.
    Meus caros jornalistas, a credibilidade tem custos decorrentes da isenção, transparência, honestidade e imparcialidade, que muitas vezes obriga a noticiar e dar voz ao que não gostamos, ou ao que não está na moda do vosso microuniverso da opinião publicada e, chatear amigos e gajos porreiros. Mas para evitar isso, há as colunas de opinião, convindo que identifiquem claramente as vossas ideologias, simpatias e opções.

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