Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

11 de Novembro de 2017, 12:39

Por

Hitler é filho de Lenine?

Simon Montefiore é um curioso historiador tornado romancista, que se especializou na história russa e tem produzido biografias sobre os Romanov e sobre Estaline (“A Corte do Czar Vermelho”, publicado em Portugal). Mas, ao contrário do que manda o ofício do historiador, Montefiore exibe uma relação sentimental com os seus biografados, definindo-os por traços que não podem ser mais do que atribuições hipotéticas e subjectivas. Assim, o seu fascínio por Estaline leva-o a descrevê-lo como “enérgico e vaidoso” (p.23), “loquaz, sociável e um excelente cantor” (p.24) que “zumbia de energia sensitiva” (p.65), sendo um “político superinteligente e dotado” (p.24), para chegar a afirmar que “a base do poder de Estaline dentro do partido não era o medo: era o encanto” (p.64), o que a história parece contrariar.

Na vertigem dos cem anos da revolução de Outubro, o nosso romancista acrescentou a esta história-socialite uma outra filosofia, a da história-destino. Em artigo no New York Times, que merece certamente ser destacado no Observador, deu voz a uma ideia circulante e cómoda: “Sem Lenine não teria havido Hitler”. Ele explica-se: “Sem a revolução russa de 1917, Hitler teria acabado como um pintor de postais em algum das lojas onde começou. Sem Lenine, nada de Hitler – e o século XX tornar-se-ia inimaginável. De facto, mesmo a geografia da nossa imaginação se tornaria inimaginável.” É sempre uma aventura imaginar o inimaginável que a imaginação não consegue descrever. Mas Montefiore vai disparado e todo o século XX mudou na sua fantasia: “Mao, que recebeu uma grande ajuda soviética nos anos 1940, não teria conquistado a China, que talvez ainda fosse dirigida pela família de Chiang Kai-Chek. As inspirações que iluminaram as montanhas de Cuba e as selvas do Vietname nunca teriam acontecido. Não teria havido Guerra Fria.”

É melhor pararmos antes que nos diga que, sem Lenine, nunca teria havido uma cápsula a viajar até à Lua ou que Éder não teria marcado o golo da vitória no campeonato europeu. De facto, a curiosidade desta narrativa sobre o destino cósmico é que é estritamente instrumental e portanto ideológica: em vez de analisar os factos e os processos sociais e políticos, Montefiore quer atribuir culpas e ajustar contas e escolhe para isso atrabiliariamente os seus alvos. Ora, a falsidade de tais propósitos é grotesca: se o nazismo resulta da vontade de sectores importantes do capital alemão de destruírem os movimentos populares que o ameaçavam na Alemanha, e que foram apoiados pelo impacto da revolução em Petrogrado, isolar o nazismo como uma irritação anti-soviética é desculpá-lo ou, pior, ignorar que o mesmo sistema de acumulação de capital já tinha gerado a escravatura, o colonialismo e bastas ditaduras ocidentais. O capitalismo foi fascista sempre que precisou de o ser.

Assim, a história é sempre uma escolha: em todos os momentos, encontra bifurcações, alternativas possíveis que dependem da vontade dos actores sociais, da relação de forças e das estratégias seguidas. Fazer da história um destino inapelável é uma forma pouco sofisticada de desresponsabilizar os crimes, neste caso os de Hitler, para nem discutir a esfusiante narrativa sobre o século XX com a eternidade da família Chiang Kai-Chek ou com Fidel Castro a desaparecer na Sierra Maestra e os casinos de Baptista e da Mafia a prosperarem até aos dias de hoje.

O problema suplementar desta história fantasiosa é que nunca tem um princípio: se Hitler e Estaline são filhos de Lenine, este é filho de quem? Dos Romanov? De Marx? E Marx é filho de Hegel, Hegel é filho de Napoleão, este de Maria Antonieta, esta de Mazarino, este de Alexandre Dumas, este do iluminismo? Chegamos a Gengis Khan ou a Júlio César? A Cristo? Uma história ideológica é sempre uma mentira patética.

Comentários

  1. Mesmo a Pide não chegava aos calcanhares da Kgb. E no entanto, odiosas como eram, serviam conscienciosamente regimes tão diversos.

    É muito difícil conceber um mundo em paz e harmonia quando se esgravata nestas coisas. Terrível.

  2. Bem menos crível parece-me ser a ideia da inevitabilidade de Hitler. Acho que é óbvio que sem a instauração do regime soviético a história da Europa e do mundo seria diferente em muitos aspetos. Não pode ser de outra forma!! Se todos concordamos, e certamente que o Autor do texto também, que a vitória dos comunistas na Rússia foi o mais importante acontecimento politico do séc. XX, como é que podem descartar os reflexos dessa vitória? É óbvio que os fascismos nascem como reação à implantação do comunismo na Rússia e, mais que isso, ao ataque que estes fizeram à Igreja cristã – ortodoxa naquele caso. É o risco, a ameaça, de que o comunismo se espalhasse e ameaçasse a ordem cristã vigente que provoca a reação – especialmente nos países de maior índole católica como eram Espanha, Itália e Portugal. Na Alemanha as razões passam por aí, e por outras coisas, mas é óbvio que Hitler não foi uma inevitabilidade e faz parte, até, de uma conjuntura irrepetível.
    O comunismo não foi feito para derrotar o fascismo – que nem sequer existia à época! O fascismo é que foi feito para derrotar o comunismo!!!

    1. Portanto os campos de concentração onde se mataram 10 milhões de pessoas, os assassínios em plena praça pública, as deportações em massa, os guetos, as perseguições e fomes maquinadas que aconteceram na própria Alemanha foram todas culpa da revolução bolchevique. E para proteger a fé em nosso senhor Jesus Cristo…
      Até faz sentido se nos lembrarmos que as três grandes religiões monoteístas nunca promoveram o bem-estar humano.

      Só te faltou escrever “Viva o fascismo!”

      .

  3. Eu gostava que estes historiadores que reinventam a história me explicassem porque é que a ONU, que foi fundada depois da 2WW para derrotar o fascismo e dar paz ao mundo, continua a ter a sede em Nova York, nos EUA, hoje um país fascista e governado por um fascista milionário de berço…

    É nos EUA e na Europa de hoje, a perder poder económico mundial, e hoje já com 6 países fascistas, e outros tantos a caminho (incluindo aqueles que dizem ser contra os partidos fascistas e comunistas, como se fossem iguais, ou seja, são hoje países fascistas – o mesmo se aplica a nível individual, porque quem acha que comunismo e fascismo são iguais, é porque já são fascistas, ou a caminho), que estes supostos historiadores contam estórias (alguns até dizem que aquele regime semi-feudal dos czares é que era bom).

    A reinscrição da história repete-se, incluindo o macartismo contextualizado ou não… mas a verdade é que o nível de vida da URSS ultrapassou algumas vezes o ocidente, apesar das guerras, logo no início com 5 anos de guerra civil dos bolchevistas contra o mundo, enquanto os americanos se embebedavam às escondidas em caves, alimentavam as máfias, e a bolha que estourou em 1929, e depois com a terrível 2WW que devastou a Rússia e não os EUA…

    1. “mas a verdade é que o nível de vida da URSS ultrapassou algumas vezes o ocidente”

      Os americanos embebedavam-se em caves e os russos ou morriam de fome ou nos Gulag. De facto os seus critérios históricos, não são melhores que os dos historiadores que critica.

      Mas sim, foi a Rússia quem venceu a Segunda Grande Guerra e não o tio Sam, ao contrário do que é difundido:
      http://www.veraveritas.eu/2014/11/foi-russia-quem-ganhou-segunda-grande.html

  4. Apesar de algo fantasioso, gosto da escrita de Montefiore, uma escrita iluminada e sempre interessante, sempre com o objectivo de nos manter, aos leitores, presos à narrativa, mas isso não impede que concorde com Francisco Louçã, é preciso cuidado com as extrapolações em história, para não entrarmos no domínio das estórias e fantasias.
    Excelente artigo de Louça.

  5. Que umas ideologias surgem como reação contra outras consideradas ameaçadoras, não tenho qualquer dúvida. É problemático saber como surgiu a primeira, mas que a segunda surge como reação à primeira parece-me perfeitamente razoável. Por isso até se compreende que a ideologia subjacente à revolução bolchevique de 1917 tenha provocado outras que surgiram como reação contra ela.

  6. Não sei se Hitler é filho de Lenine, mas sei que se Estaline não tivesse ganho a guerra com Hitler, você e o seu partido já teriam sido ilegalizados como qualquer partido de extrema direita.

  7. Vou citar-lhe Eric Hobsbawm, A Era dos Extremos, Lisboa, Ed. Presença, 2014, 6ª ed. (pag. 130):
    “(…) os apologistas do fascismo provavelmente têm razão que Lenine engendrou Mussolini e Hitler.”:
    Não para si, mas para alguns que lêem este comentário, o inglês Eric Hobsbawn é historiador de formação marxista e um dos maiores do século XX.

  8. Excelente texto caro Louçã. Reduzir a história à ideologia é além de redutor, idiota. Em qualquer caso a Matemática desmistifica essas falácias históricas através da Teoria do Caos. Pequenas variações infinitésimais num determinado instante temporal, podem despoletar em caminhos total e diametralmente opostos. Fazer análises históricas baseadas em “ses” é por conseguinte sempre falacioso.

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