Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

3 de Novembro de 2017, 13:00

Por

Outubro em Novembro

Comemorar tem um risco, o de usar a efeméride para diluir a sua memória nas penumbras do tempo. Por isso, o anjo da história tem a cara virada para o passado, escrevia Walter Benjamim, mas esse passado nunca é deixado em paz, ele é trucidado e capturado pelos vencedores, pois nele constroem a sua hegemonia. No bicentenário da revolução americana, o constitucionalismo continuista foi erguido em virtude, como se a guerra independentista não fosse a ruptura constitucional. No bicentenário da revolução francesa, foi o Rei homenageado, para se desprezar a turba que não tinha aceite os brioches prometidos. Nos 25 anos de Abril de 1974, a comissão empossada por Cavaco Silva propôs-nos que louvássemos a cordial “evolução” para esquecermos a nefanda “revolução”. Agora, no centenário de Outubro de 1917, são santificados os Romanov. Sim, há algo em comum: qualquer deslocação social é suspeita, como se a história se destinasse à transcendência do poder eterno, das majestades, dos barões-ladrões, do capital omnipotente.

Mas comemorar tem ainda outro risco. É olharmos para nós próprios, com mais velas e menos futuro, tanta gente resumindo-se ao que em tempos teria considerado abominável. Como no romance de Dumas, vinte anos depois, em que D’Artagnan e Porthos estão alistados com o Cardeal Mazarino, enquanto Athos e Aramis conspiram com a Fronda, só se juntando, assim os condena o autor, para tentar salvar a cabeça de Carlos I de Inglaterra, vencido pela revolta de Cromwell. O arrependimento é aí resgatado pelo heroísmo, mesmo que fracassado.

Se estes riscos da comemoração forem evitados, talvez olhemos para os acontecimentos no seu tempo. Perdoar-me-ão então os leitores que, ignorando a efabulação de quem tem de apresentar a virtude da sua conversão a remediar passados tormentosos, veja para a revolução de Outubro como um momento inaugural do século XX.

Revolução, foi então o início de uma nova história, contraditória e atormentada. Enquanto decorria a tomada do poder pelos sovietes, Rosa Luxemburgo, escreveu as suas Notas de Prisão que “Concretamente, o que poderá trazer à luz do dia os tesouros de experiência e ensinamentos não é a apologia cega, mas a crítica penetrante e reflectida. Porque uma revolução proletária modelo num país isolado, esgotado pela guerra mundial, estrangulado pelo imperialismo, traído pelo proletariado internacional, seria um milagre.” Um milagre?

Winston Churchill, que depois da revolução foi o principal promotor da invasão da Rússia pelas tropas do seu país e seria pouco dado a encómios dos inimigos, escreveu sobre Lenine: “A sua mente era um instrumento notável. Quando brilhava, a sua luz iluminava o mundo inteiro, a sua história, as suas dificuldades, as suas farsas e, sobretudo, as suas injustiças”. Um milagre?

Essa revolução não foi um milagre, foi a consequência da 1ª Guerra Mundial mas também do colapso do czar, criando pânico entre as classes dominantes. Mudando os eixos da política europeia, Outubro desencadeou outros abalos sísmicos (Alemanha, Hungria, Bulgária, Itália) e depois influenciou a vitória eleitoral das esquerdas em França e a revolução republicana em Espanha. A resposta das classes dominantes foi o fascismo e o nazismo e, portanto, a 2ª Guerra Mundial.

Sabemos agora que faltava a essa revolução a experiência de saber fazer o novo poder. Escrevia Rosa, a crítica: “Sem sufrágio universal, liberdade ilimitada de imprensa e de reunião e sem confronto livre de opiniões, extingue-se a vida em todas as instituições públicas, converte-se numa vida aparente, em que a burocracia passa a ser o único elemento activo”. Como ela antecipou o que viria depois, os choques, as purgas, a destruição da vida política. Outubro em Novembro é toda essa herança, do que começou e do que fracassou.

Comentários

  1. Rosa Luxemburgo queria a revoluçao e liberdades ilimitadas mas o que a historia tem mostrado é que isso é como querer fazer a quadratura do circulo. Os bolcheviques nao tinham a experiencia de “saber fazer o novo poder” mas as revoluçoes comunistas posteriores podiam ter aprendido com a experiencia russa e, no entanto, o mesmo projeto (coletivizaçao da economia e uma sociedade de funcionarios publicos) produziu sempre os mesmos resultados em todo o lado – sociedades em que todos (ou uma boa parte) têm teto, pao, cama e roupa lavada mas de que todos querem fugir, como na prisao. Se hoje, em Moscovo, Praga ou Berlim, ninguem se mexe para celebrar a revoluçao de Outubro nao parece que seja porque a Historia é escrita pelos vencedores – neste caso o que houve foi derrotados, o comunismo implodiu rejeitado pelos povos que era suposto libertar – mas sim porque o legado da revoluçao ainda está fresco na memoria coletiva, e é um legado de que poucos parecem ter saudades.
    E agora? A democracia liberal será mesmo o “fim da Historia” ? Nao sabemos o que o futuro nos reserva mas o que parece certo é que ainda nao vai ser a revoluçao Bolivariana da Venezuela que vai mostrar aos oprimidos e explorados deste mundo o caminho para o paraíso, a via para a prosperidade e liberdade. Entretanto, aos olhos dos milhares de refugiados que procuram a Europa todos os anos, é ela que encarna essa esperança.

  2. O foguetório que por aí em partes infinitas se celebra o centenário da revolução de outubro deixa a ideia de que foram mil revoluções, não uma.

    Este texto é uma visão de águia em vou picado sobre o século. O que cabe na comunicação social ampla, extensa e seca que existe? Talvez.

    A revolução que está em marcha agora, dos dois lados do Atlântico, é a do regresso dos valores derrotados nas grandes guerras desses continentes.

    A resistência é o que faz falta de uma e outra margem desse mundo.

  3. Não deixa de ser irónico que, no século XX, a história da barbárie ocidental (germânicos) tenha sido em função dos eslavos, essa barbárie oriental, sempre detestada pelos germânicos. No século XX os germânicos tornaram a perder contra os eslavos.

    O ódio dos germânicos (godos, anglo-saxões, francos e afins pré-históricos) aos eslavos perpetua-se pelos séculos. Há algo profundo nesse ódio. Não é apenas o facto da barbárie ocidental nunca ter conseguido apropriar-se da Rússia, nem as violações colectivas do exército vermelho às alemãs (que geraram alguns dos alemães de hoje), é algo muito anterior.

    Os germânicos são os pré-históricos da miséria total, dos piores locais da europa. Não foram viver para o inverno por gosto, foram fugidos. Fugidos do leste, dos eslavos.

    O ódio dos germânicos aos eslavos é o ódio do perdedor que teve de fugir para onde ninguém queria ir, para a miséria total, para sobreviver aos do leste.

    O confronto das barbáries continua hoje igual, nada evolui nestas hordas de pré-históricos. É divertido observar que os Russos continuam a não perceber porque é que nunca foram aceites pela barbárie ocidental.

    Hoje o confronto USA Rússia, mesmo depois do fim do comunismo soviético, revela que não é apenas um confronto ideológico, é um confronto muito anterior, entre barbáries, a ideologia foi mais um pretexto. Ainda por cima era uma ideologia germânica.

    O século XXI promete mais um confronto entre as barbáries ocidental (germânicos) e oriental (eslava). É a vez da barbárie germânica da américa perder, para continuar a eterna derrota dos germânicos.

    Actualmente há o poder da China, e aí observa-se claramente que, mesmo sendo uma ameaça muito maior para os USA e assumida como comunista, é vista de forma muito mais tranquila pelos USA, sem a agressividade que apresentam contra os eslavos.

    As bases culturais são anteriores às ideologias. A história das culturas é que determina os comportamentos, as ideologias são apenas fantasias passageiras dessas culturas, e as ditas revoluções mostram como o mesmo sistema se mantém com nomes diferentes.

    Rei ou presidente, partido ou investidor, corte ou classe política, servo ou trabalhador, a barbárie não tem cultura para sair da estrutura da horda pré-histórica.

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