Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

30 de Outubro de 2017, 08:56

Por

O modismo anglófilo

Na União Europeia, com a saída do Reino Unido, restam dois países pequenos que têm o inglês como idioma co-oficial: Irlanda e Malta.  também não sendo a língua mais falada no mundo (é a 3ª), o inglês é a língua franca da globalização. Não admira que sejam cada vez mais as palavras de origem anglófona que entraram na nossa língua com dicionarização.

Mas, agora e aqui, quero falar de palavras inglesas adaptadas para o nosso idioma por via de uma tradução errada, enviesada ou escusada, ou ainda através do que se convencionou designar linguisticamente como “falsos amigos” (palavras que, apesar de semelhantes em duas línguas, têm significados diferentes, mas que induzem uma tradução aparentemente certa…). E tudo como se não houvesse palavras em português para melhor dizer o mesmo. Quase sempre com um certo tique social de pseudo erudição, tão despropositado, quanto convencido.

Começo pela palavra que elejo como “campeã”: REALIZAR, quando dita como sinónimo de aperceber-se ou notar, tal e qual a tradução literal do “falso amigo” to realize. “Realizei isto ou aquilo” será porque fiz ou empreendi, ou porque, agora pretensamente, me dei conta?

Outra palavra – na área das finanças – é FISCAL. O adjectivo homógrafo em inglês quer dizer orçamental e não estritamente fiscal. Pois agora, ouve-se frequentemente, “consolidação fiscal” em vez de “consolidação orçamental”, ainda que esta seja, quase sempre e infelizmente, pela via fiscal.

Um outro verbo: SUPORTAR enquanto forma de exprimir a ideia de apoiar. Não é que esteja errada, mas soa estranho dizer que “um filho suporta a sua mãe”. Toda a gente pensará que a tolera, aguenta ou que está à sua conta e muito poucos a entenderão como apoiá-la.

No futebol, não falo das palavras adaptadas à nossa língua (a começar pelo nome deste desporto), mas de uma outra que é mal importada porque erroneamente traduzida: ASSISTÊNCIA. O substantivo (assistance) e o verbo (to assist) significam ajuda e ajudar. Não vejo por que razão num passe para um golo se diz que um colega o assistiu? Será que se sentiu mal?

Um outro substantivo que agora está passando do desporto para a economia é COMPETIÇÃO (competition), quando neste domínio a palavra ajustada é concorrência. É que podemos ter competição sem concorrência e concorrência tão distorcida que nem há competição…

Ainda que menos frequente, já se ouve LEGENDA (legend) como sinónimo de lenda. Está consagrada em alguns dicionários, mas é, no mínimo, estranho dizer-se que “os filhos gostam muito da legenda do galo de Barcelos”. Pensarão eles nas letras por baixo das imagens do dito galo?

Muito em voga agora no domínio da defesa da concorrência é REMÉDIO (remedy). “A empresa A será autorizada a fundir-se com a empresa B se aplicar este ou aquele remédio”. Não é que esteja mal, mas 99% das pessoas pensarão logo na farmácia e na comparticipação (neste caso a pagar e não a receber). Não será preferível dizer medida de reparação, solução, correcção, ajustamento?

Evidentemente que tudo exige uma EVIDÊNCIA (evidence), assim dita no lugar de prova, ainda que em Tribunal não seja necessariamente evidente…

Há quem insista em dizer NO FIM DO DIA, como tradução literal de “at the end of the day”. Um disparate. Para quem não sabe inglês, no fim do dia é mesmo no fim do dia e não quando se conclui algo sem que seja no dia…

E por aqui me fico. O texto É SUPOSTO terminar. Eis outro modismo sintacticamente inadequado, pois o sujeito não é o texto. Terminar quem ou o quê? É no que está a dar a moda de to be supposed that ser adoptado à letra…

 

Comentários

  1. O inglês, como língua, é excepcional. Por alguma razão adquiriu a expressão global que hoje tem no mundo, particularmente no mundo civilizado, e pode ser considerada como a Língua Mais Falada do Mundo porque na realidade é a mais falada no mundo que interessa – o da civilização. Quanto mais civilizado fôr o mundo mais generalizado será o Inglês.

    Ao contrário do Português ela destina-se a enunciados claros, sem dupla interpretação, sem falsidades. É a língua ideal para cientistas e gente sã. O português, inversamente, é uma língua destinada à manha – o seu povo é o resultado directo da língua que usa e vice-versa, numa auto-construção malsã aparentemente inexorável. Oxalá no futuro – quando todos forem instruídos e cultos – só se fale português na alcova e dentro de casa, e o inglês universal na enunciação exterior do discurso público e cientifico.

    1. O Sr. Silva conhece bem a língua inglesa?
      Então não sabe que como o português tem expressões com múltiplo sentido, os engraçados phrasal verbs, entre outras idiossincrasias linguísticas.
      Quanto à implantação do inglês no mundo, mais do que as virtudes da língua em si (que as tem sem dúvida), tal deveu-se mais ao poderio político, cultural e económico da Grâ-Bretanha e depois do Estados Unidos.

  2. (substitui a anterior)
    É habitual ouvirmos anedotas sobre o franceguês, portunhol e portenglish dos nossos emigrantes quando regressam a Portugal nas férias. Mas eles tem a desculpa de estar fora a maior parte do ano, sendo por isso compreensível que confundam palavras, sobretudo quando são semelhantes com as portuguesas.

    Já para mim é aberrante e parolíssimo, demonstrativo de acentuada indigência intelectual, que sobretudo nos antros lisboetas da economia, da mercadologia e do “jornalismo sócio-fútil”, as coberturas de bolos passem a “toping”, as participações sociais a “ownership”, os terraços panorâmicos a roftops, os ciberjogos a “gaming”, o pontapé de saíde seja “kickoff”, o 5 minutos a pé passe a “5 minutos walking distance”, a resposta seja “feed-back”, o talão/senha/bilhete/título seja “ticket”, as comissões sejam “fees”, o plano de negócio seja “Business plan”, a formação prática seja o inenarrável “workshop”, a corrida é “running”, a sapatilha o “tennis”, a moda “fashion”, com o tasco/taberna a ser “wine bar”, a roupa de ir à rua o “street style”, o “roadshow” em vez de campanha de divulgação/apresentação/promoção, já para não falar das Inbox e Outbox, das hot stocks e price targets, o logout e o log in, o trading e a wishlist, entre outras tão desnecessárias quanto por vezes confusas.
    Mas apele-se também às academias para que divulguem alternativas, ainda que criando palavras, como as muito bem sucedidas telemóvel e multibanco.

    1. E gozam com a “voiture” e a “maison”, sem se aperceberem de que estão a fazer exactamente a mesma coisa com o “concept” o “target”, o “branding”. Falou nos al-economistas, mas se se debruçasse sobre os al-marketeiros era garantida uma grande dor de cabeça.

      Mas, para mim, a mais ridícula de todas (todas!) é o engajamento. Sim, a tradução (?) directa de “engagement” do facebook. Não tem a ver com gajas nem gajos. Os al-marketeiros defendem este termo com unhas e dentes para explicar o sucesso do que escrevem na plataforma.

  3. É habitual ouvirmos anedotas sobre o franceguês, portunhol e portenglish dos nossos emigrantes quando regressam a Portugal nas férias. Mas eles tem a desculpa de estar fora a maior parte do ano, sendo por isso compreensível que confundam palavras, sobretudo quando são semelhantes com as portuguesas.
    É habitual ouvirmos anedotas sobre o franceguês, portunhol e portenglish dos nossos emigrantes quando regressam a Portugal nas férias. Mas eles tem a desculpa de estar fora a maior parte do ano, sendo por isso compreensível que confundam palavras, sobretudo quando são semelhantes com as portuguesas.

    Já para mim é aberrante e parolíssimo, demonstrativo de acentuada indigência intelectual, que sobretudo nos antros lisboetas da economia, da mercadologia e do “jornalismo sócio-fútil”, as coberturas de bolos passem a “toping”, as participações sociais a “ownership”, os terraços panorâmicos a roftops, os ciberjogos a “gaming”, o pontapé de saíde seja “kickoff”, o 5 minutos a pé passe a “5 minutos walking distance”, a resposta seja “feed-back”, o talão/senha/bilhete/título seja “ticket”, as comissões sejam “fees”, o plano de negócio seja “Business plan”, a formação prática seja o inenarrável “workshop”, a corrida é “running”, a sapatilha o “tennis”, a moda “fashion”, com o tasco/taberna a ser “wine bar”, a roupa de ir à rua o “street style”, o “roadshow” em vez de campanha de divulgação/apresentação/promoção, já para não falar das Inbox e Outbox, das hot stocks e price targets, o logout e o log in, o trading e a wishlist, entre outras tão desnecessárias quanto por vezes confusas.
    Mas apele-se também às academias para que divulguem alternativas, ainda que criando palavras, como as muito bem sucedidas recordo o telemóvel e multibanco.

  4. As coisas estao cada vez mais divertidas. Gosto especialmente da “governança” e dos NPL (crédito em incumprimento dos bancos); “resolver” um banco tambem é um mimo; “força de trabalho” (workforce) é outra com força. Por este andar qualquer dia ouvimos dizer que a gentes do norte swapam os bês pelos vês.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo