Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

13 de Outubro de 2017, 13:18

Por

Conhecidos desconhecidos na Operação Marquês

Donald Rumsfeld, um assanhado falcão que foi ministro dos EUA durante as suas recentes guerras mesopotâmicas, celebrizou-se por poucas coisas. Era um homem de negócios, a sua empresa foi das grandes beneficiárias da guerra, a ocupação do Iraque foi uma bênção para o terrorismo e uma maldição para os árabes, não é fácil encontrar alguma coisa que o recomende. Mas pelo menos dizia ao que vinha.

Talvez por isso os participantes na cimeira da NATO de 2002 possam ter sido surpreendidos pela sua triste declaração:«A mensagem a transmitir é que não há “conhecidos”. Há coisas que sabemos que sabemos. Há desconhecidos conhecidos. Isto é, há coisas que agora sabemos que não sabemos. Mas também há desconhecidos que desconhecemos. Há coisas que não sabemos que não sabemos.» De um chefe de guerra que conduz as tropas, mesmo que à confortável distância de um ecrã de videojogo, esperava-se certamente mais garbo. Mas as coisas são como são e Rumsfeld ficou-se por esta charada, só há “desconhecidos conhecidos” e “desconhecidos desconhecidos”, seja lá o que isso for.

Pois o caso da Operação Marquês contra José Sócrates, que agora chegou à acusação, prova que Rumsfeld não viu o filme todo: também há outra classe que ele esqueceu, a dos “conhecidos desconhecidos”. Um conhecido desconhecido é um ser bizarro, que está à nossa frente e não sabemos bem o que seja. Tem cheiro e cor, mas ao que vem, isso é desconhecido. O caso Marquês é esse bicho. O processo jurídico, o nosso conhecido (afinal já leva quatro anos de fugas de informação para o Correio da Manhã), se é alguma coisa pela certa, é só uma ponta do iceberg, esse sim menos conhecido, das relações entre política e negócios.

Em todo o caso, que ninguém venha agora dizer que é uma surpresa: se nada se sabe sobre estas culpas, que o tribunal há-de decidir, só por atrevida ignorância ou manhosa cumplicidade pode alguém fingir que não viu as evidências dos triângulos dourados entre políticos e banqueiros e beneficiários de privatizações e PPPs. São conhecidos desconhecidos, porque as contratações e ligações foram todas às claras, mas o que exactamente fizeram delas é desconhecido.

Há meia dúzia de anos, publiquei um livro com alguns colegas (“Os Donos de Portugal”) que investigava as carreiras de alguns governantes; depois completamos o estudo sobre todos os 776 ministros e secretários de Estado que nos governaram até 2011 (“Os Burgueses”). Ficará surpreendido se lhe disser que os governos com mais pessoal recrutado nas grandes empresas foram os de Durão Barroso com Portas e de Santana com Portas? Ou que os que foram ou vieram dos grandes grupos económicos ocuparam um quarto dos postos de governo? Ou que os que foram e vieram da finança são um em cada três governantes?

É certo que a lista da gente do BES nos governos (ou que foi para o BES) é especialmente impressionante: Durão Barroso, Rui Machete, Jaime Gama, António Mexia, Proença de Carvalho, Manuel Lencastre, Almerindo Marques e outros. Ou que foram ou vieram da PT, outra jóia do BES: Armando Vara, Medina Carreira, José Lamego, António Vitorino, Couto dos Santos, Todo Bom. Não são casos isolados: quanto Lobo Xavier, Jorge Coelho, Valente de Oliveira, Joaquim Ferreira do Amaral e Paulo Portas fazem a sua viagem pela Mota Engil – e alguns queixavam-se das autoestradas! –, percebemos como estes triângulos são atraentes (e note as ligações entre o BES e a Mota-Engil, por exemplo na Ascendi e na Martifer).

A acusação da Operação Marquês é gravíssima, pois aponta a corrupção ao mais alto nível do Estado. Mas há outra acusação que não precisa de tribunal, e que regista os que beneficiaram, legal e tranquilamente, do regime de promoção social que foi instituído pelo poder financeiro e pelo seu apetite dos governantes. Tem sido esse o regime que governa Portugal e não se espantem se nos cria problemas.

Comentários

  1. Visão sectária dum sirigaita de esquerda.Entao ,o procurador que estava feito con Socrates ,veio de onde?O presidente do S.Tribunal ,o lingrinhas veio de onde?A gorda do processo Freeport veio de onde?
    Então ,nada diz da nega do Passos Coelho ao dono disto tudo.,para safar o Bes.
    Medina carreira era um honem honesto ….

  2. O Espantoso é a surpresa que alguns demonstram face a isto.

    O Ainda Mais Espantoso é aquela solidariedade ambígua que alguns tentam fazer passar de forma mais ou menos descarada ao trafulha, pondo subrepticiamente em causa o processo, a investigação, o tempo da investigação, a factualidade, etc etc quando está na cara que os métodos desta gente desde o principio se pautaram por fazer tudo da forma o mais ‘legal’ possível, i.e. sem deixar rasto, dando curvas e mais curvas aos recantos mais inverosímeis do mundo para esconder a perfeita ‘legalidade’ do esquema.

    Mas esta Tugalhada tem tão entranhada a ronha e a corrupção, anda tão perfeitamente familiarizada com os esquemas das seitas, que de tão habituada a pedir fotocopias quando quer massa abre logo a boca de espanto e se acalora em abraços solidários, visitas de estado a prisioneiros ‘políticos’, confortos e indignações quando um carcamano deles é apanhado. Sim. Esta Tugalhada cúmplice com esta malta é a mesma que vai votar em massa no criminoso sabidola que ‘rouba mas faz’, e até lhe dá maioria absoluta. Não admira que num nojo de sociedade destas o caso seja objecto de um alvoroço tão gritante e perfeitamente abjecto quando o que se devia esperar e EXIGIR era justiça tanto mais exemplar quanto, pela inerência e dignidade do cargo, a conduta esperada do trafulha seria a do escrupuloso respeito pelos seus mais elementares deveres institucionais de verdade. E, se não fosse pedir muito, de probidade e honestidade pública.

  3. A grande maioria dos humanos säo maus, sublinhou Maquiavel… A entrevista à RTP de ontem é absolutamente fundamental para se tentar perceber o intolerável nauseabundo da estatura moral de um antigo agente politico de Estado. O infelicissimo ex-PM, que tinha entrado no PS pela mäo de Guterres, agarra-se desesperadamente a um truque de algibeira, a falta de provas…
    Quando elas existem e säo mais do que reais e concretas até pela lógica de Aristóteles, claro. E a verdade-provada e restaurada na sua complexidade insofismável- será uma conquista que anunciará o futuro da democracia resgatada.

    1. A fortuna de Socrates e a logica de Aristoteles: se Socrates era milionario (34m !) como se explica que estava inteiramente nas maos do amigo Santos Silva para ter acesso ao dinheiro de que Santos Silva punha e dispunha como queria ? Que aconteceria se Santos Silva morresse – Socrates ficava sem um chavo !? 34 milhoes assim ? Santos Silva era bom amigo mas Socrates era a galinha dos ovos de ouro para o amigo! Comovente.
      Mas aqui chegados, e agora com 34 milhoes em causa, o que parece é que a teoria do testa de ferro é mais misteriosa do que quando a novela começou. Isto promete. Aguardemos as cenas dos proximos capitulos.

  4. O princípio geral segundo o qual o Estado está invariavelmente ao serviço da classe dominante que dele tira vantagem fica muito enriquecido com os casos práticos e nominais que aponta no texto que hoje nos trás e nas publicações referidas que merecem vénia e agradecimento.

    Esta investigação de anos feita pelo ministério público ilustra essas ligações entre políticos dos partidos da classe dominante e os atores dessa classe dominante. Por momentos cabe perguntar se parte do poder enlouqueceu e guerreia o próprio poder. Dito em forma de espanto: o poder entrou em autofagia!?

    Veremos que estamos apenas a ser iludidos e chamados a figurar num romance de ficção. Realmente a classe dominante continua a dominar e destas querelas resulta o reforço dos mesmos.

    Alguém terá de fazer o necessário para mudar o poder. Essa energia está fora do poder!

    Permita-me um pequeno texto datado.

    SEXTA-FEIRA, 4 DE JUNHO DE 2010

    O roubo em nome da Lei

    A existência de empresas privadas de capital exclusivamente público mostra a natureza moral e ética dos que inventaram, institucionalizaram e usam esse instrumento para praticarem diariamente furtos gigantescos ao erário público, ainda por cima, a coberto da lei.

    Essa indignidade pratica-se sem criticas expressivas de ninguém. Isso só pode querer dizer que todas as forças organizadas estão, duma maneira ou de outra, a beneficiar desses furtos.

    Todos sabem que aumentando os impostos directos e indirectos sempre se arranjará forma de aumentar o bolo que só uma pequena parte vai comer.

    Não vale esperar por alguém ajuizado que ponha fim a este regabofe. Este regabofe só acaba vencidos os seus utentes e criadores. Os governos da partidocracia.

    Igual flagelo se identifica nas chamadas parcerias público privadas que inventaram um novo tipo de capitalista que investe sem capital e com o risco coberto. O Estado paga tudo.

    Não se pode enquadrar este disparate na designação de Capitalismo de Estado porque é uma roubalheira muito mais indigna.

    Aos Partidos políticos compete, nos termos da Constituição e da Lei eleitoral, seleccionar o pessoal político para gerir o Estado. Esperava-se que a selecção fosse no sentido de escolher os mais qualificados, preparados e sérios. Não! Aconteceu e está a acontecer exactamente o contrário.

    Isto acontece porque os que mais podem e mandam no interior dos partidos políticos não são sérios, nem preparados, nem qualificados. Tendem por isso a rodearem-se de gente ainda pior.

    Os partidos não se auto-reformam. É um erro esperar isso, mas degradam-se e podem caucionar sofisticadas formas de ditadura.

  5. Não se tente fazer rankings de corruptos nos partidos. Todos eles estão infestados de corruptos, interesseiros e vigaristas. Isto está totalmente descontrolado. Ninguém é preso. Ninguém é obrigado a devolver o que roubou. O Governo, amigo, cobra aos cidadãos e dá aos ladrões. Eu até nem quero aquela malta do BPN ou BES na prisão. Não tenho prazer nenhum nisso. Quero é que eles e a sua descendência sejam obrigados a devolver cada tostão que roubaram. E que quem ganhou com isso tenha que fazer igual. Só que vão descobrir um erro processual, uma escuta sem papel e pronto. Inocentes coitadinhos.

  6. A sua acusação velada a quem veio daqui ou dali equivale à condenação de um judeu por ser judeu, e não por ter cometido qualquer crime. É um texto racista contra os “burgueses” e contra aquilo que considera ser a “direita”. O que devia ser investigado não é quem veio daqui ou dali, mas precisamente o que aconteceu nas PPPs e outros negócios em que o Estado esteve implicado e tenha sido prejudicado, e quem foram os responsáveis, quer tenham ou não vindo do BES, da PT, ou do Largo do Rato.

    1. Devia ser investigado? Está a ver como é a justiça em Portugal. Olhe o caso de Oliveira e Costa e do BPN? Bem mais antigo, mas do qual continua sem se saber nada.

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