Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

12 de Outubro de 2017, 08:45

Por

Arvo Pärt entre números

Arvo_PärtNeste dia da apresentação do Orçamento do Estado e da leitura do seu sempre extenso relatório e da proposta de lei certamente labiríntica onde, habitualmente, se mete tudo numa fúria legiferante e se submete à paciência dos interessados remissões de remissões de artigos perdidos em códigos tributários remendados e desconsertados, nada melhor do que ouvir Arvo Pärt.

A música deste estoniano nascido há 82 anos é um bálsamo de espiritualidade, num tempo em que até o Outono nos foge e o primado autofágico da materialidade de tudo toma conta.

Agora que acabaram de ser atribuídos os Prémios Nobel, Arvo Pärt recebeu também, há semanas, uma distinção que é conhecida como uma espécie de prémio Nobel da Teologia. Trata-se do “Prémio Ratzinger” (o Papa Emérito é também um melómano) atribuído pelo sétimo ano pelo Vaticano. O prémio foi justificado pela “inspiração altamente religiosa da sua arte musical”.

Pärt não é católico, mas sim cristão ortodoxo. Sujeito a uma vigilância opressiva por parte do regime soviético (o seu país, a Estónia, fazia parte da URSS), emigrou para a Áustria com a família no início da década de oitenta, tendo regressado a Talin depois da reconquista da independência. É, desde 2011, membro do Conselho Pontifício para a Cultura.

A sua música é uma simbiose perfeita de um muito pessoal minimalismo (que Michael Nyman definiu sinteticamente como fazer mais com menos), ou melhor um quase sacro-minimalismo, de uma linguagem da simplicidade harmónica, quiçá de algum regresso nostálgico ao arcaísmo, de uma austeridade ascética com simplicidade de meios, de uma sonoridade contemplativa e mística e de uma atmosfera musical de quietude e meditação. Uma música quase desassossegadamente hipnótica. Uma criação que dá ao minimalismo repetitivo o aroma da harmonia anímica e do armistício espiritual, entre os tumultos do nosso quase compulsivo actualismo.

Com “Für Alina” e “Spiegel im Spiegel”, Arvo Pärt foi o criador do por ele apelidado Tintinnabulum (derivando de sino, em latim), assim definido pelo próprio: “trabalho com escassos elementos. Construo a partir de um material primitivo – com o acorde perfeito, com uma tonalidade específica. As três notas de um acorde perfeito são como sinos. Por isso lhe chamei tintinnabulação“. E acrescenta numa analogia cromática: “Posso comparar a minha música à luz branca que contém todas as cores. Só um prisma pode dividir as cores e fazê-las realçar. Esse prisma é o espírito do ouvinte”. Para depois lhe dar uma formulação aritmética: “Tintinnabulum é a rigorosa ligação matemática de um ponto a outro, a regra pela qual a melodia e o acompanhamento são só um. Um e um é um, não dois”.

No fundo, o mais maravilhoso e intrigante na sua música é a sua honesta procura de respostas, na angústia lúcida (admito que triste) perante a hostilidade do seu exterior, espelho de um mundo de caótica modernidade.

Para mim, a sua obra faz uma honesta e genuína bissectriz entre a sonoridade da música antiga e a plasticidade da música contemporânea. Assim Pärt exprime o que ele chamou de “amor por cada nota”, do qual provém o poder espiritual que nos quer transmitir.

Além das obras atrás citadas, bem como de Tabula Rasa, Fratres, Credo, várias sinfonias e outras composições, elejo “Cantus in memoriam Benjamim Britten” como a minha preferida. Pena é que, por cá, encontrar um cd deste compositor é quase como procurar água no deserto.

Ouvido Pärt, passarei para o Orçamento. No caos organizado, no inferno fiscal, no Estado omnisciente. Até que volte à sobriedade sublime do músico de terras hanseáticas. Entre (muitos) números…

 

 

Comentários

  1. Obrigado pela sugestão. Belo. Mas neutro. Tomei conhecimento através do You tube, que nos leva a todo o lado. Prefiro outras inspirações. Wagner, “As Valquírias”, por exemplo, Coppola, em 1979, fez um figurão com isto. O tema era a Guerra do Vietnam e Robert Duvall fez um show monumental de acting – sequência do raid de helicópteros em “Apocalypse Now”. Wagner suscitou a admiração de muita gente – Luis II da Baviera perdido para sempre pela sua música; por outro lado, a música de Wagner foi dominante no regime nacional-socialista.

    Em Julho deste ano, em Londres no Albert Hall, a BBC apresentou o seu habitual PROMS. Desta vez sobre a obra de Noel Scott Engel(vulgo Scott Walker), 1943, Hamilton, Ohio, USA. Veja-se no You Tube Songs of Scott Walker 1967-1970, BBC Proms 2017. Temas sobre o estalinismo, o cinema(Bergman e “O Sétimo Selo”), a Europa(“Copenhagen”, belíssimo tema), as cinzas da guerra(“Angels of Ashes”), a vida de plástico e artificial(“Plastic Palace People”) e muitos outros. Claro, lyrics à disposição através do Google. A Net é um mundo riquíssimo, permite-nos conhecer quase tudo. O homem é o Deus de si próprio? Que tal uma revisitação a Vergílio Ferreira, Sartre e Camus? Por cá, muita admiração por parte de Jorge Palma, J.P.Simões, Rádio Macau(Xana e Flak) – existe um CD de tributo(2005). Lá fora os monstros Bowie(RIP), Ferry e tantos outros curvaram-se ao talento. Há que afirme: se existe Deus, então a música de Scott Walker tem o toque daquilo a que se chama divino.

    Quanto aos números – valem o que valem. Só me motivam quando, ao analisá-los, penso na Estatística Descritiva e no coeficiente de concentração de Gini e na correlativa curva de Lorenz. Números pelos números só em Teoria dos Números – Gauss, Turing, Fibonacci, Hilbert e Wiley ainda vivo(provou o teorema de Fermat na década de 90 do século passado). E já agora uma revelação para alguns perderem as ilusões: “Nada do que é ensinado nas escolas secundárias no âmbito das matemáticas foi descoberto depois de 1800”, afirmacão de Jean Dieudonné, “A Formação da Matemática Contemporânea”, Lisboa, D.Quixote,1990. O século XIX foi muito fecundo. O século XX ainda mais. Apareceram então as novas disciplinas:álgebra abstracta, topologia e, pela mão de Turing, os computadores. Existem problemas em aberto.

    Fiquei um pouco desiludido com o teor resignado das afirmações do Prof.Félix sobre a flexibilidade de 2003, introduzida no Código do Trabalho em Portugal, na qualidade de Ministro em funções. Foi, de facto, equivalente a um furacão de intensidade máxima: os vestígios e os destroços em Portugal(e também na Europa) são imensos(miséria, pobreza, precariedade, desigualdades abissais…). A Economia é uma Ciência Social. O IPP em Lisboa tem como patrono Sedas Nunes. Espero que, doravante, seja uma inspiração para todos os economistas interiorizarem que a economia é uma Ciência Social. A Bem da Humanidade. Só assim os autores das importantes decisões dormirão serenamente e sem problemas de consciência. Os actos políticos têm grande importância: mexem com as vidas das pessoas. E então a música de Pärt entrará melhor em todos nós.

  2. Muito Obrigado! Excente a sua crónica Dr Bagão Felix e excelente a música de Arvo Pärt que recomendo a todos os seus leitores! Está também para audição imediata no You Tube!

  3. Óptima sugestão. Mas eu optaria por “Chasing sheep is best left to shepherds’ de Nyman.

    ( Excelente Tri-blogue, cheguei a pensar que a fúria das inovações dos tolos do costume quisessem também silenciar esta janela para o ar livre.)

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