Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

10 de Outubro de 2017, 12:13

Por

Despojos laranja depois da enxurrada autárquica

Cá temos então Santana vs Rio. É a principal consequência da eleição autárquica: colapsando para cerca de 10% nas duas principais cidades, todo o projecto do PSD passista falhou. Nem houve eleições legislativas antecipadas, o famoso diabo, nem o governo se desgastou, antes aproveitou o contraste que lhe foi oferecido entre a crispação ressentida e o alívio na bolsa e na vida das pessoas. Portanto, o governo ganhou, venha o senhor laranja que se segue.

E aqui é que está a novidade. A sucessão não é Montenegro, o herdeiro que não seria mal visto em Belém, nem Rangel, o ideólogo. Ambos tinham aparelho e carreira por fazer, mas sofreram um pânico de última hora e invocaram razões “pessoais e políticas” ou “familiares” que, fossem o que fossem, já lá estariam antes de se terem dado à maçada de comunicar ao país que “estavam em reflexão”. Terá sido então um puro exercício de narcisismo, culminando numa cínica declaração de que a sua carreira está acima do seu partido (“não apoio nenhuma candidatura”)? O certo é que saíram de cena.

A novidade é então Santana, que Rio era certo e sabido. E esse confronto desloca o PSD da sua recente tradição neoliberal, troikista, para terra desconhecida. Santana, que já deu provas, molda-se ao que for: como governante, frequentou o populismo mas foi de pouco brilho, como opositor interno viveu da evocação sácarneirista, mas foi frequentemente derrotado. O que será agora, para tentar ganhar, já vamos ver, inventa-se tudo de novo. Sabe-se em todo o caso o que deixará de ser, aquele senhor de meia idade finalmente bafejado pela sensatez e distância das excitações mundanas. Para ganhar, Santana só pode regressar ao passado e isso pode ficar-lhe mal.

Do outro lado, Rio. É demasiado conhecido, o que não lhe convém: parece só um autarca regional. É demasiado atrevido em autoritarismo: a sua proposta de reforma do sistema político é deixar cadeiras vazias no parlamento como prémio da abstenção, portanto uma estratégia de terra queimada. Quero ver como é que Pacheco Pereira, um dos bons advogados do governo actual, se encaixa nesta deriva.

Assim se resume o PSD depois das autárquicas: espaços em aberto, descontinuidade, regressos ao passado. Nem ideias novas, nem um programa de governo, nem um projecto social, só a rememoração de Sá Carneiro (Santana), mas quem se lembra dele, ou de si próprio (Rio na Câmara do Porto), e quem gosta do que se lembra?

Tão frágil é esta construção que se torna necessário convocar artilharia. No caso, contra o PCP, empolando negativamente os seus resultados para esmorecer o efeito no PSD. Já notou, cara leitora ou leitor, quantos comentadores anunciam que o PCP se abstém no Orçamento que ainda está por concluir, ou que provocará eleições? Uma crise política, por favor, pedem encarecidamente uma crise, haja distracção que sem ela vamos mal. No extremo, Teresa de Sousa defende o seu partido com uma injunção histórica: “o PSD tem futuro”, o PCP não.

Esquece simplesmente que, mesmo nestas eleições autárquicas, o PCP tem 490 mil votos nas Câmaras, o que é mais do que nas legislativas (445 mil, ou nas presidenciais, 180 mil). Se acho estranho que o PCP esteja a agravar a percepção dos seus resultados por razões de questiúnculas partidárias (as inventadas “insinuações” e “calúnias” de outros partidos, um dia evocadas, aliás repetindo um refrão antigo, mas no dia seguinte denunciadas como citação abusiva da imprensa, que criaria “falsos conflitos”), os números dizem tudo sobre a sua grande força municipal.

O preconceito ideológico dirige portanto esta invocação da crise que não existe. Esse é mesmo o problema do PSD: queria o diabo europeu, falhou, quer o diabo nacional, falha, quer o mal e a caramunha – mas pode ser que o país vá perdendo a paciência.

Comentários

  1. Para usar uma expressão do seu camarada Jerónimo: “não meta o nariz em assuntos que não lhe dizem respeito”! Bem sei que a veia totalitária tende a querer interferir na vida dos opositores, procurando decidir quem fica e quem sai, ao mesmo tempo que combate ferozmente qualquer tentativa no sentido inverso. Não tenho dúvidas que na hipótese do desaparecimento da oposição de “direita”, rapidamente se procederia à criação dos correspondentes fantoches numa qualquer secção do partido. A suprema habilidade do ditador é fazer com que os seus subjugados pensem que vivem numa democracia.

  2. Vai ser muito difícil refazer a ‘Social-Democracia’ depois do monte de cacos que o Cavaco fez.

    Santana era o tal ‘moeda fraca’ que fazia do Cavaco o messias a quem a Tugalhada dava maiorias absolutas…

  3. Lembro que o PSD é o 2º partido em votos, mandatos, presidências de câmara e maiorias absolutas no plano autárquico.
    No plano das legislativas o PSD detém o maior grupo parlamentar na Assembleia da República em funções. No plano da influência do Estado domina nos conselhos de administrações das instituições que o Estado influencia e também domina nas administrações das empresas públicas e, mais ainda, nas empresas privadas. Não é uma força que se possa reduzir à imagem que Passos Coelho e seu bando lhe colaram.

    A derrota que o PSD sofreu nas autárquicas vale por consumar o afastamento de Passos e, mais importante, do “Passismo”.
    Essa deriva inconstitucional, revolucionária e insurrecta que quase levou Portugal a perder as condições objetivas para ser um país viável foi verificadamente sustida, derrotada e afastada.
    Com essa derrota a “Geringonça” cumpriu o seu principal papel patriótico.

    O que vem a seguir é o costume: mudar alguma coisa nas lideranças, na “boy(ada)”, na imagem, na linha de comunicação para disputar, com fortes hipóteses de êxito, as próximas eleições legislativas e voltar a liderar o governo.

    Para PS, PSD e CDS estratégico é ocupar o poder real que existe. Seja nas IPSS ganhando dinheiro e influência com o assistencialismo, seja na CGD, no BdP, EDP do Estado Comunista da China, REN, monopólio privado, da mesma China ou na EFACEC, etc. do Estado de Angola ou na TAP, Brasileira e tantos outros centros de poder de propriedade estrangeira e estranha à civilização ocidental e, muito menos, à cultura portuguesa. Estratégico é também dominar as alavancas do poder central ao serviço da UE/BCE.

    Os portugueses que votaram a 1 de outubro votaram nisso, não contra isso.

    Contra isso urge erguer um sobressalto social que recupere a dignidade do mundo do trabalho com direitos, contratação coletiva, correspondentes portarias de extensão, erradicação da precariedade, recibos verdes e essa reintroduzida condição de trabalho à jorna, por conta própria, pobreza certa com pomposas designações.

    A insubmissão organizada por pequenos passos, sem ilusões ou deslumbramento face às artes de prestidigitação do atual governo minoritário de direita do PS.

  4. O Santanete ou o Fanático dos Pópós? Eis o que o PSD propõe para o país. O Santanete detesta ver uma cadeira vazia… Já o Fanático parece que é maluco por corridas….

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