Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

9 de Outubro de 2017, 08:12

Por

Estatísticas com género a papel químico

Estava equivocado. Segundo o censo de 2011, afinal há 16.077.756 nacionais. Portugueses são 10.562.178 e portuguesas são 5.515.578. Nos portugueses estão incluídas as portuguesas, mas como cada vez mais ouço “portugueses e portuguesas” (ou vice-versa) fiquei baralhado e fui fazer as contas. É que essa coisa dos conjuntos matemáticos, em que na sua união não se consideram os subconjuntos contidos num ou mais dos conjuntos, foi inventada antes deste século.

Há dias, estive numa reunião onde, nos discursos, ouvi “todas e todos”. Éramos para aí umas duzentas pessoas. Pelas minhas contas, 130 homens e 70 mulheres, logo “todas e todos” seríamos 270, mais do que os 200 que supunha. Com a agravante de a palavra ser exactamente … “todos”.

As audiências televisivas pecam por defeito e a tiragem dos jornais deveria ser rectificada. É que, além dos espectadores, compradores e leitores, há que juntar as espectadoras, compradoras e leitoras.

Também não concordo com a ideia de que há carência de pessoal lectivo. Não é verdade, pois “professoras e professores” são muito mais do que os professores, ainda que reconheça que seria bom que houvesse mais estabelecimentos de ensino por haver “alunas e alunos” que, pelos vistos, excedem os alunos. E numa aula de antropologia dir-se-á “humanos e humanas” para caracterizar a espécie?

Nas eleições autárquicas, a taxa de votação excedeu, em muito, os cadernos eleitorais. É que entre eleitores e eleitoras, não há abstenção que resista!

Portugal está muito mais envelhecido do que nos andam a dizer. Afinal o número de idosos não é de 2.010.064 pessoas. Temos de lhe juntar as idosas que são mais de 1.000.000. Evidentemente que assim não há sistema de pensões que resista, a não ser que não se paguem, em duplicado, pensões às reformadas, mas apenas às que estão incluídas nos reformados.

Só tenho filhas, netas e irmãos, pelo que, em reunião familiar, não tenho de dizer “filhas e filhos”, “netas e netos” e “irmãs e irmãos”. Interessante é o conjunto dos nossos progenitores. A mãe e o pai juntos são pais, ou seja, o plural do pai. A avó e o avô são avós que é o plural da avó! Língua traiçoeira…

Já quanto à minha relação com o transcendente, sou monoteísta, o que evita invocar “minhas deusas e meus deuses”.

Curioso é que esta prática matemática de juntar um subconjunto ao conjunto que já o contém, de modo a evitar infracções relacionadas com “estereótipos de género”, não se aplica a situações negativas ou indesejáveis. Assim como nos dizem “portuguesas e portugueses” ninguém balbucia sequer “desempregadas e desempregados” (bastam os desempregados), “mortas e mortos”, “incendiárias e incendiários”, “arguidas e arguidos”, etc. Em suma, uma forma unívoca para “simpáticas e simpáticos”. Creio, também, que não vai aparecer num partido alguém a referir-se a “militantes e militantas”, não só porque esta forma feminina não existe, como correria o risco de ser redutora e alguém a entender como “militantes e mil e tantas”.

Alguns sustentam que também dizemos “minhas senhoras e meus senhores” no início de uma intervenção. Mas aqui, está-se a fazer uma distinção com urbanidade e elegância, pois que, neste caso, a palavra “senhores” é inequivocamente só destinada às pessoas do sexo masculino.

Tudo considerado, estou hesitante em frequentar um curso sugerido pela Comissão para a Igualdade do Género ou reciclar os meus conhecimentos de teoria dos conjuntos, quem sabe se ora submetida à ideologia de género.

Comentários

  1. Tenho observado, com prazer, que reage com ironia (mas que, sobretudo, reage) aos mau tratos que são dados à nossa língua materna pelas mais variadas razões: demagogia, inferioridade cultural (abuso de estrangeirismos) ou simples ignorância. O caso que aponta é um bom exemplo do que poderíamos chamar demagogia linguística ou cedência demagógica ao feminismo. Os portugueses ficaram a ser só os homens; as portuguesas passaram a constituir um grupo aparte. Assim, de facto, somando os portugueses às portuguesas, temos, como diz, um total de 16 077 756 cidadãos. O que tornaria a abstenção nas últimas eleições quase dramática. Sobre os estrangeirismos por ignorância, neste caso do velho latim (ignorância que o Novo Acordo Ortográfico acabará por generalizar e tornar irreversível), basta recordar as palavras áiteme, em vez de item, e mídia (os brasileiros até dizem “a mídia”), em de media. Há aqui uma óbvia submissão à cultura americana e uma simétrica traição à língua portuguesa. Aproveito esta oportunidade para lhe pedir que me diga o que pensa sobre a expressão “perigo de vida”, usada de forma constante nos boletins médicos e na comunicação social. Por minha parte, quando ouço ou leio a notícia segundo a qual um acidentado “não corre perigo de vida”, a conclusão que retiro é a de que o referido acidentado está morto e bem morto, isto é, já não corre perigo de vida. Que lhe parece?

    1. Agradeço as suas excelentes observações. O “correr perigo de vida” é uma expressão tonta, mas que de tão repetida passou a significar o mesmo que o seu contrário. Há uma outra expressão – menos letal – que também muito se usa, sobretudo na linguagem futebolística: “correr atrás do prejuízo”, quer dizer querer mais prejuízo. Atrás se vai, em vez de se ir contra…

  2. Está bem visto. Erro lógico e gramatical.

    Há um certo talento em dizer “Precários nos querem, rebeldes nos terão!!!”.

    Mas, nos casos indicados, de facto, há repetição. A união em teoria dos conjuntos define-se com o conjunto de elementos pertencentes a um ou a outro ou a ambos os conjuntos em análise. Nestes termos, basta dizer “trabalhadores” em vez de “trabalhadores e trabalhadoras”, porque, homens ou mulheres, trabalham, ou seja, são trabalhadores.

    É claro não faz grande sentido dizer “os benfiquistas e as benfiquistas”, nem “os economistas ou as economistas”. Percebe-se mas é ilógico, à luz da união ou reunião.
    Nem sequer “os explorados e as exploradas”. Ou. igualmente, “os contratados a prazo e as contratadas a prazo”.

    De acordo: não é preciso dizer “os miseráveis” e “as miseráveis”. Vítor Hugo resumiu bem:”Os miseráveis”.

    Em suma: a esquerda radical pequeno-burguesa urbana vive uma dupla crise, a crise da correcção lógica e gramatical e a crise do “abraço do urso”.

  3. Não há dúvida e ninguém duvida. Haja bom senso e já agora,… será boa sensação. Faltam alguns e algumas: doentes e doentas (?), crianças e crianços (?), presidentes e presidentas, sentados e sentadas, calados e caladas… e quando se fala de meninos, os putos e as … meninas.

  4. No conjunto, os seus conhecimentos de teoria nesta e em outras matérias, como o direito do trabalho, já têm vindo a ser demonstrados. Portanto, não se consuma com formações, caro Bagão Félix, tantos canais que pode ver no televisor!

  5. Quem sabe, talvez surja a oportunidade de criar o Código-do-género-Bagão-Felix? O gestor, aqui autor, demonstra perceber tanto disso quanto do direito do trabalho, afinal!

    1. A sua opinião e oposição ao meu modo de olhar para estes assuntos não lhe deveria dar a “autoridade” de ser insultuosa. Aliás, desvaloriza a sua argumentação que, todavia, aqui não foi exposta.

  6. Pelo amor de Deus, o que nos faltava agora era um Sindicato das Professoras a adicionar ao Sindicato dos Professores. Não lhes dê ideias, por favor.

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo