Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

27 de Setembro de 2017, 11:12

Por

Vergonha na Catalunha

Há dois dias realizou-se um referendo acerca da independência do Curdistão iraquiano, conduzida pelo governo regional. Bagdad protestou, a Casa Branca tentou convencer os dirigentes curdos a adiar a consulta, mas ela realizou-se. Não houve prisão de governantes regionais, invasão policial, ameaças financeiras ou outras violências — e é uma zona de guerra contra o Daesh, para nem referir os ataques das forças turcas contra as milícias curdas. Apesar do perigo, a população teve o direito de votar

No caso da Catalunha, em resposta à decisão do parlamento de realizar um referendo, alguns governantes foram presos e todos estão ameaçados, foi suspensa a autonomia financeira, milhares de polícias foram mobilizados de outras regiões, o procurador-geral anuncia que prenderá o presidente catalão e Rajoy ameaça com a mãe de todas as violências. Mesmo que as sondagens tenham vindo a indicar que a maioria da população quer ter o direito a escolher o seu futuro em referendo, mas que, se consultada, poderia preferir manter uma associação ao Estado espanhol, Rajoy tentará impedir a consulta pela força.

Este banquete de ameaças invoca a ordem constitucional, que foi estabelecida em 1978 na transição pós-franquista e que ao longo de 40 anos nunca foi modificada, apesar de sucessivas promessas feitas às autonomias regionais. Durante estas décadas, nem a solução federal vingou nem o direito de decisão nacional foi reconhecido.

Para quem assiste de longe à radicalização do conflito sobram muitas questões. Quanto a Portugal, interessa-nos, mais do que tudo, saber se a direita vence este braço de ferro e se Rajoy se torna mais agressivo do que já tem sido contra Portugal desde a formação do governo Costa, ou se são respeitados direitos fundamentais, como os que a diplomacia portuguesa invocou no passado recente.

De facto, Timor-Leste tornou-se independente graças a um referendo em que a maioria da população decidiu separar-se da Indonésia, cujo poder sobre o território, convém lembrar, era reconhecido pelos Estados Unidos, pela União Soviética, pela China, por Cuba e por muitos outros países. Apesar disso, Timor resistiu durante décadas e conseguiu votar a independência, a diplomacia portuguesa apoiou o referendo, a população portuguesa solidarizou-se, a ONU envolveu-se.

No nosso tempo foram realizados dois outros referendos sobre o direito à autodeterminação: no Quebec (1995) e na Escócia (2014), ambos aceites pelo Estado que poderia ser objecto da separação. O povo decidiu e a independência perdeu nos dois casos. O contraste com o caso espanhol é muito evidente: não houve ameaças, prisões, processos sumários, perseguições. E alguns Estados recentes foram formados sob a invocação da autodeterminação, como aconteceu com a Croácia, aplaudida na Europa quando se tratava de destruir a Jugoslávia.

Pensemos então que a Catalunha independente nem é viável nem necessária, ou que esse será o seu destino, só há um ponto em que precisamos de estar de acordo: o respeito pelo direito a decidir. É a democracia. A Catalunha tem o direito de votar.

Finalmente, deixem-me os leitores mostrar o meu espanto pelos doutrinários portugueses que, a despropósito, nos vêm agora explicar que, não tivesse havido 1640 e a recuperação da independência de Portugal, prefeririam fazer parte de Espanha e assim continuar. Há nisto uma leveza notável, que é essa imaginação delirante do que seria a história se não fosse o que foi. Pura fantasia: se esses doutrinários tivessem rodas poderiam ser um triciclo, mas não têm, pois não? Mas há pior, é o gosto de submissão a um Estado estrangeiro, como se a história pudesse ser corrigida descartando a nossa soberania. Olhar para a Catalunha a fazer vénias aos Bourbons tornou-se o destino dos nossos desistentes.

Comentários

  1. Escrevo na vespera das eleicoes autarquicas em Portugal e do referendum (?) na Catalunha. Que lugar tem isto no Linkedin ? Bom, teem que ler para, no fim, saber.

    1. Portugal

    Os media e os “fazedores de opiniao” neles instalados, sao unanimes em atribuir uma derrota monumental à “direita”, com relevancia para o partido que antes foi Governo. Porque sao eleicoes autarquicas, ha seguramente factores locais que nao permitem uma extrapolaçao nacional, como se de legislativas se tratasse, mas…. aceito que serão de qualquer modo, para utilizar uma linguagem clinica, uma radiografia convencional ( e nao propriamente uma TAC ou uma RM ). Acredito, ou melhor, desejo e nao ficarei surpreendido, que os portugueses deem uma mostra de maturidade. Maturidade que decorre de um saber nao academico, mas antes de um saber feito de experiencia, de mais de quarenta anos de democracia. Mais de quarenta anos, que nos permitiram saber distinguir o trigo do joio. Em que aprendemos a conhecer, com a intuicao que so a experiencia da, os vendedores de sonhos, os que venderam a alma e os que “andam nisto porque acreditam”. Se assim for, os fazedores de opiniao e as corporacoes a que estao ligados , terao uma surpresa. Os portugueses, “la no fundo” sentem que lhes estao a vender um conto de embalar. Sabem que nao ha milagres. sobretudo quando operados por gente que promete tudo , como se tudo fosse possivel. Como se “ o dinheiro nascesse de dentro da terra”. Podem nao ler jornais ou ligar muito aos noticiarios, mas – mesmo sem saberem que ele o disse – sentem como o Sec da Saude : “o Governo nao tem condicoes para responder a todas as reivindicacoes”. Como sabem tambem, que quando ha condicoes, os beneficiarios sao para “os mesmos do costume, ie, as diversas corporacoes com lugar a mesa do OE.

    2. Espanha

    O referendum na Catalunha é mais um produto, daquilo que se convencionou, com propriedade, identificar como “populismo” e que tem crescido por todo os paises desenvolvidos ( deste e do outro lado do Atlantico ). Eh o aproveitamento do sentimento de ausencia de perspectivas e de abandono, que as classes medias experimentam desde o inicio do seculo, com o acentuar dos efeitos da globalizaçao.Em situacoes como esta, prevalecem os sentimentos de sobrevivencia cega. Eh o salve-se quem puder. A cada esquina inventam-se inimigos, porque precisamos, compreender/perceber por que razao o mundo que davamos como certo e seguro, desapareceu. Desapareceu para nos e para os nossos filhos. Quando uma sociedade vive momentos destes, cria o terreno mais fertil para o desenvolvimento de movimentos que exploram os instintos mais primarios em cada individuo. Movimentos que assumem as bandeiras levantadas contra os mais diversos “inimigos”. Desde os imigrantes, que hipocritamente sao culpados pelos empregos que perdemos ( e que sabendo ser mentira, fingimos crer, porque precisamos de uma justificacao ) aos nacionalismos , porque temos que estar contra alguem e esse alguem eh o nosso vizinho. A pulsao de sobrevivencia dita esses comportamentos. Mas o que dita o aparecimento dos movimentos populistas, nao eh a resposta a estas questoes, mas sim o aproveitamento do desespero, para realizar interesses proprios, pessoais, dos promotores desses movimentos. Se assim nao fosse nao tinhamos a Historia cheia de episodios que acabaram com a vida de centenas de milhoes de pessoas. Foi e eh isto que o populismo, quaisquer populismos, sempre produz.

    Uma das bandeiras icadas por todos estes movimentos, da extrema direita a extrema esquerda e pelos grupos que nos habituamos a ver proximo do centro mas que agora cavalgam esta onda, eh a do combate a globalizacao. Porque lhe atribuem o desaparecimento da sociedade que conheciamos e com essa “luta” se colocam ao lado e na defesa do interesse, dos que se sentem desfavorecidos. Porque lutando contra a globalizacao combatem as desigualdades. Eles sabem, que nunca na Historia um processo economico e social, retirou da probreza, tantos milhares de milhoes de pessoas, como a globalizaçao o fez. Os processos que defendem, ditaram, esses sim, a morte de centenas de milhoes, pela fome ou pela guerra.

    Tal como acontece com o renascer dos nacionalismos. Os grandes defensores do direito ao referendum na Catalunha encontravam-se ha nao muito tempo no extremo oposto. Era assim quando cantavam os amanhas gloriosos que esperavam o “homem sovietico” produto de uma amalgama de povos que se combateram e odiavam, reunidos debaixo da bandeira, a da USSR. Nunca a esquerda, que hoje defende o referendum, que de facto propoe a secessao da Catalunha, o aceitariam a qualquer das “republicas sovieticas”, que mais nao eram que regioes comandadas por homens impostos e ao servico do poder central. Devemos interrogar os “novos nacionalistas” sobre o que fizeram ao internacionalismo, que antes pregavam e levavam a outros povos, se necessario pela força das armas e com o custo de muitas vidas. Converteram-se todos, por milagre, ao nacionalismo que excomungavam ? A palavra de ordem de entao “ proletarios de todo o mundo uni-vos” repetida em todas as “internacionais” , sim as “internacionais”, deixou de fazer sentido ? O combate ah desigualdade faz-se, promovendo a secessao da Catalunha, rica e dirigida por uma elite corrupta, porque nao convem aos ricos e corruptos da Catalunha contribuir para que outras regioes de Espanha vivam melhor? Eh este o internacionalismo e o combate ah desigualdade defendido pelos novos nacionalistas/defensores dos desfavorecidos (vide artigo FLouca/Publico) ?

    Acredito que em Portugal como em Espanha, a maioria da sociedade nao socumba ao canto das sereias.

    Como espero que cada um de nos, nas empresas como em todas as organizacoes da sociedade, assuma e defenda uma cultura de meritocracia, porque so eliminando o apelo ao conforto, que a sereia do corporativismo canta, se promove o desenvolvimento da sociedade e a liberdade do individuo. Esse desenvolvimento e essa cultura, sao , hoje como antes, o maior contributo para a emancipaçao do Homem, numa sociedade com menos desigualdade. Uma sociedade livre.

    Agora entendem porque escrevo isto no Linkedin. Estamos todos no mesmo barco.

    SP/Sep29,17

    1. Aqui vai mais uma ajuda para Francisco Louçã decidir se é contra ou a favor :
      “In her powerful account of the famine in Soviet Ukraine in the early 1930s Anne Applebaum, a Pulitzer prize-winning writer (and a former journalist at The Economist), tells an even more sinister story. Far from an unintended result of ill-conceived policies, she argues, the roughly 4m deaths from hunger in 1932 and 1933 were part of a deliberate campaign by Josef Stalin and the Bolshevik leadership to crush Ukrainian national aspirations, literally starving actual or potential bearers of those aspirations into submission to the Soviet order. As her book’s subtitle says, Stalin was waging “war on Ukraine”, the Soviet Union’s strategically and economically most valuable republic after Russia. War, as Carl von Clausewitz famously put it, is the continuation of politics by other means. The politics in this case was the Sovietisation of Ukraine; the means was starvation. Food supply was not mismanaged by Utopian dreamers. It was weaponised.”
      Pode ser comprado o livro.

  2. Excelente texto! Tenho pena todavia que Louçã não se aperceba do mesmo anacronismo constitucional, quando se trata de “pensões e salários”. A mesma Constituição que é sacra para proteger pensões e salários em Portugal, independentemente do estado da economia e das contas públicas, é todavia anacrónica em Espanha para preserver a integridade nacional. É como a estória do PCP e o direito à “autodeterminação dos povos”! Tal só é válido se o invasor e o tirano não for a URSS.

  3. 5º.Parágrafo:

    A Indonésia fez mais por Timor-Leste em meia dúzia de anos do que Portugal em alguns séculos. O que se compreende: a proximidade cultural e geográfica foi factor determinante.
    Deve ainda ser referido que me apercebi, in loco, que o Portugal “multiracial do Minho a Timor”, era treta do Estado Novo. O que encontrei, em 1969, na Guiné-Bissau, na zona de Aldeia Formosa-Quebo, foi miséria, atraso e abandono. Populações na Pré-História da Civilização, vivendo em palhotas de colmo e barro, sem assistência médico-sanitária, morrendo por doenças perfeitamente curáveis mas que a debilidade crónica era factor agravante e decisivo na luta pela vida, alimentando-se de verduras e mandioca, da pesca e da caça. Desenvolvimento zero. E Timor não devia andar longe disto.
    E a palhaçada do “Lusitânia”, comandada pelos formidáveis Eanes e Marques, o General e o Médico, diz tudo do anedótico da situação. Às portas de Timor, os canhões da Indonésia falaram mais alto…e toca a vir para trás. Uma viagem sem resultados. O ridículo absoluto. Assim se simulou o combate à potência regional Indonésia…e à sua invasão de Timor. E só a via diplomática resolveu.

    Último parágrafo:

    Que nacionalismo. “A submissão ao Estado estrangeiro…”. Em que ficamos? Voltamos a 1640? Que linguagem deslocada. 2017!!! Globalização, digital,…”Fazer vénias aos Bourbons…”.Deixa-me rir…

    Onde está a análise histórica das autonomias regionais de Espanha, e em particular da Catalunha? O que é a Catalunha tem a ver com o Curdistão?

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