Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

27 de Setembro de 2017, 17:33

Por

Uma vitória eleitoral com sabor a derrota

 

Angela Merkel durante a campanha eleitoral:

– “Den Menschen in Deutschland ging es noch nie so gut

– “Deutschland geht es gut

Programa de Governo 2017-2021 da CDU:

– “Für ein Deutschland, in dem wir gut und gerne leben

 

As eleições na Alemanha não foram a esperada descida do Olimpo para Angela Merkel, mas quase a sua descida ao “inferno” político. Exagero, naturalmente, mas a analogia é tentadora. Senão vejamos:

Merkel parecia que queria repetir Helmut Kohl – o seu predecessor na CDU – e alguém que, com 4 mandatos sucessivos, conduziu os destinos da Alemanha durante 16 anos e sobretudo teve um papel decisivo na reunificação do país, ao saber aproveitar sem hesitações a oportunidade que a História lhe concedeu.

Mas, o último mandato de Merkel foi, em meu entender, muito desapontante e Merkel não se deveria ter recandidatado.

Embora seja comum apontar a imigração (note-se, principalmente, o acolhimento de refugiados de guerra), a ajuda aos países em crise na zona euro, ou ainda as críticas à política monetária acomodatícia (e taxas de juro negativas) como causa principais da modesta e insuficiente vitória eleitoral, o principal problema parece ter sido outro.

Afigura-se que os decisores políticos se deixaram iludir por estatísticas macroeconómicas que pareciam sugerir que, na Alemanha, tudo corria (muito) bem: crescimento económico e do emprego, desemprego quase inexistente, contas públicas excedentárias, contas externas a baterem recordes sucessivos. E claro, o contraste com outros países do mundo em crise económica, com problemas políticos ou mesmo em guerra.

Por isso, a chanceler alemã repetiu à exaustão – numa atitude algo similar a Obama, nos EUA, que demonstrava grande satisfação com os resultados do seu mandato – que a vida na Alemanha corria bem, que as pessoas nunca tinham vivido tão bem, e o motto do programa da CDU referido acima – por uma Alemanha em que vivemos bem e com prazer – a reforçar a imagem subliminal do paraíso na terra.

Mas essa visão denota distanciamento da realidade do dia a dia da maioria dos alemães. A economia alemã é muito competitiva, mesmo no seu sector de serviços não transaccionáveis. A quota parte do factor trabalho do rendimento nacional diminuiu na Alemanha desde 1998, de forma similar ao que ocorreu nos EUA e no Japão, mas em contraste com o observado em França e Itália.  A vida para a maior parte dos alemães é exigente e o receio do desemprego está muito presente, sobretudo na classe média. O leste ainda continua a ser uma espécie de deserto económico, com cidades lindíssimas mas vazias: as pessoas em idade activa migraram em grandes números para o ocidente em busca de melhores empregos. A pressão sobre os salários é grande, com muitas empresas a substituir trabalhadores com contratos permanentes antigos por trabalhadores com vínculos precários e com salários mais baixos. Os preços de serviços como hotéis, restaurantes, cafés e outros serviços indiciam que os rendimentos da maior parte das famílias continuam a não crescer suficientemente rápido.

Não terá sido o facto da maior parte dos alemães não sentir na pele o suposto segundo milagre económico que estaria a ocorrer na Alemanha, que os terá levado a optar pela mudança?

E, Merkel e o SPD cometeram mais um erro. Optaram por uma grande coligação dos dois grandes partidos da democracia tal como se esperava que ocorresse no final de 2015 em Portugal com PS e PSD. Um enorme faux pas, que empurrou os eleitores que pretendiam mudança para fora dos partidos do centro. Esse foi o génio dos autores e actores políticos da “geringonça” portuguesa, que pressentiram correctamente que o país precisava de mudar de rumo e de forma de estar no final de 2015, embora, no caso português, ao contrário da Alemanha, a situação económica e social não permitisse optimismos como os demonstrados pelos políticos alemães da CDU e mesmo do SPD nesta campanha eleitoral.

Talvez os dirigentes políticos da Alemanha possam agora aprender com este enorme desaire e, sem tentar “prender à força” o génio dos populismos de novo na lâmpada mágica, procurar formar um governo, sem o “austeritário” Schäuble à frente das finanças, que lhes permita colocar o bem estar e o nível de vida da maior parte das pessoas da Alemanha, no centro das suas políticas económicas. Pode parecer que não, mas essa alteração de objectivo para a política económica e social na própria Alemanha, seria por si também uma boa ajuda para a União Europeia.

Comentários

  1. ADITAMENTO:

    A situação da Alemanha:

    (Fonte: “Le Monde”, 26/09/2017 ; EUROSTAT; DIW BERLIN; HOVER)

    (1) Pobreza, precariedade no trabalho

    Instrumentos: Leis Hartz(2003/2017)

    2003:os desempregados não podem recusar ofertas de emprego; criação de empregos para trabalhadores pouco qualificados(mini-jobs até 400 euros; midi-jobs até 800 euros); ajudas estatais ao empreendedorismo; 2005: redução do subsídio de desemprego de 32 para 12 meses; reforço dos processos de controlo. 2013: aumento dos salários pagos nos mini-jobs de 400 para 450 euros e nos midi-jobs de 800 para 850 euros.

    (2) A precariedade laboral passou de 18,1% em 2001 para 20,7% em 2016, sendo de 30,6% nas mulheres;

    (3) Salário Bruto Horário em 2014(em euros): 13,02 empregos atípicos; 19.99 empregos normais;

    (4) Número de pessoas com empregos de muito baixa qualidade(mini-jobs): em 1991, 900.000; em 2016, 2.700.000;

    (5) 11% dos reformados alemães(65/74 anos) são obrigados a trabalhar, o dobro em 10 anos;

    (6) Reforma média de um antigo activo: 1100 euros na Alemanha(em França, comparativamente, é de 1370 euros);

    (7) Percentagem de trabalhadores pobres(ganham menos do correspondente ao salário mediano do país: 7,2% em 2005; 11,5% em 2016.

    A taxa de desemprego de 4,1% na actualidade é perfeitamente enganadora e longe do que anteriormente se considerava emprego normal.

    As razões para o desastre da sociedade alemã explicam-se pelos números acima.

    1. Caro Nelson Faria,

      muito obrigado. Excelentes e muito informativos os seus dois comentários a este post. De facto a temática das reformas Hartz do mercado de trabalho introduzidas por Gerhard Schröder em 2003, que Merkel não quis inverter, bem como a reforma e o congelamento da actualização de pensões (em alguns anos), contribuíram muito para a actual situação e mesmo para a crise do euro.

  2. (1) A herança de Merkel: os indicadores económicos na passagem do testemunho não são famosos. As razões da perda de posição do factor trabalho explicam-se pelos números da economia e pela evolução das políticas desde o princípio do século, com a evidente cumplicidade dos social-democratas no desastre alemão de 24/09/2017. A desvalorização interna permanente do factor trabalho, o aumento da pobreza e da precariedade levou ao ressurgimento das forças de extrema-direita, de grande significado e trauma para o povo alemão. A resposta às políticas de Merkel-Schaüble-SPD tem um rosto:AFD e os seus 13% dos votos expressos.

    (2) Pierre Rosanvallon, sociólogo francês, autor de “La Societé des Égaux”, foi clarividente(vide PÚBLICO de 26/09/2017): “…para lutar contra as desigualdades temos de lutar contra o consentimento das desigualdades”. Dou um exemplo: no actual contexto fala-se abertamente de descida do desemprego. O emprego dos tempos anteriores (aquilo que se chama trabalho com contrato de prazo indeterminado) tem uma expressão muito menor. E para criar a simulação da realidade nada melhor que criar os chamados “Mac Jobs”, empregos de má qualidade a tempo parcial e alguns deles somente de algumas, poucas, horas semanais. Em termos políticos tenta-se ganhar alguma coisa dizendo que o desemprego baixou. Mas não baixou, pelo menos de acordo com o figurino tradicional.
    Consequências: o que fazer? Reformular a teoria económica e o sistema estatístico por forma a acolher as novas realidades? Pela Alemanha é o sistema que vigora.

    (3) A inflação não sobe – o desemprego está alto: simples tese de Draghi para a manutenção das taxas de juro e do Quantitative Easing. Daí, as dificuldades da economia. E existe um diferendo entre o BCE e Berlim. E, como já se disse, a situação é muito prejudicial para a Alemanha, os investimentos dos fundos de pensões acumulam perdas.

    (4) A actuação de Macron enquadra no mesmo diapasão: a desvalorização interna do factor trabalho. Mas o clima social é aqui diferente e a contenda está em aberto. O resultado do passado dia 24 mexeu na correlaçâo de forças. Merkel perdeu na Alemanha e Macron perdeu em França. A estratégia das ordennances e do Código do Trabalho, já de si com evidentes recuos, não surtirá efeito. O novo eixo franco-alemão está ameaçado.

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