Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

19 de Setembro de 2017, 08:04

Por

Os geringonçólogos

No tempo da União Soviética, que deus tenha, havia uma trupe de analistas encartados que se reconheciam como “sovietólogos”. Competia-lhes a tarefa árdua de olharem à lupa para as fotos, que a televisão era pouca, e de colecionarem boatos para poderem chegar à conclusão de que o secretário-geral estava com azia, se fosse o caso, ou outra infâmia qualquer. Da influência de casos desse tipo nos misteriosos destinos do planeta reza a história.

Suponho que, perante o inesperado, é assim que reagem as sociedades perfeitas e os seus mestres de cerimónias. Querem saber e, se não sabem, querem adivinhar. Se for coisa de Ficheiros Secretos, se for eco da Cidade Proibida de Pequim, se for boato da mansão de Futungo de Belas em Luanda, até se for de tumulto no parlamento de Brasília, é esta classe de analistas que é chamada ao palácio para traduzir os sinais, os hieróglifos e as entoações. Sinal dos tempos, agora dedicam-se a Trump e a outras surpresas, e não lhes faltará assunto.

Mas se o desconhecido se instala entre nós, como um vírus, e não à distância de um telejornal, então o cordão sanitário é um desespero: os que mandam têm que compreender ou pelo menos classificar, os de baixo devem ser alertados e prevenidos. É o caso da ameaça da “geringonça”, que não é só uma mazela, é mesmo uma ameaça à moral e aos bons costumes.

Calhou-nos portanto a sorte de ter que viver com esta casta especial, especializadíssima, que é a dos peritos em decifrar o tom de voz, a catadura, a posição da mão, o andar, a cor da roupa, a gravata e até, em desespero de causa, a palavra desta gente que arrombou a porta do palácio. São os geringonçólogos.

Habituados ao debate político, os geringonçólogos no entanto abominam a troca de razões; desgostosos dos silêncios oficiais, no entanto aborrecem a discussão pública sobre dossiers e questões; irritados com negociações de gabinete, no entanto indignam-se com a transparência, a que preferem a fuga de informação.

Sendo profissão de sucesso, a carreira de “geringonçólogo” atrai variadas espécies: tudólogos, mas também jornalistas-comentadores, incluindo ideólogos e, além deles, os engraçados, que são os meus preferidos, se tiver voto na matéria. Em todo o caso, a sentença é pesada: os partidos da esquerda vêm de um “resultado pífio” (isto é editorial), “não se levam a sério”, atravessa-se-lhes uma “alegria tonta” (isto também é editorial) ou elaboram “fantasias” avulsas (este é de ontem). Como não compreender que não sejam ouvidos, “ou melhor, ouvimos, mas não lhes damos valor”?

Como não compreender que mulheres que dirigem uma destas esquerdas sejam umas “alucinadas” ou até umas “patas”, em todo o caso perigos públicos, “mais daeshistas do que o Daesh”. O mais moderado destes escritores manifesta a sua tristeza pelas “propostas nalguns casos delirantes” desta gentalha.

Miguel Pinheiro, o director do Observador, cujas posições já tinham brilhado em algum canal de televisão e se não me engano na Sábado, tudo pilares do jornalismo mais isento, resolveu escrever que essas geringoncistas “gritam muito, e berram muito, e protestam muito, para que, no meio do ruído, ninguém perceba isso”. Outro director enfuna as velas e intima: “O que pensam Mariana Mortágua, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa da vergonha que vem nas viagens pagas para se obter um contrato do Estado? Não pensam nada porque foram os agora seus (nessa oitava maravilha do mundo que se denomina geringonça) que apanharam o avião, comeram e dormiram de borla e agora, apanhados, põem o futuro à disposição. Mariana, Catarina e Jerónimo não têm vergonha”. Azar dos Távoras, Pedro Mota Soares foi forçado a esclarecer, compungido, como tinha autorizado viagens, já para não detalhar a viagem do primeiro-ministro Cavaco Silva sob hospitalidade da Nestlé – e há pelo menos um partido de que não se encontra nenhum nome em viagens deste jaez.

O meu argumento é que nada disso importa. O fluxo de insinuações e de intimações já não é jornalismo, é a canibalização do espaço público para ajustes de contas, para ensaios de carreiras, para praxes ideológicas e para luta de interesses. Mas há uma ideia, e ela resume todo o sucesso da geringonça e da sua relação de forças com a direita e entre si: os geringoncistas já só têm uma agenda, que o PS tenha maioria absoluta. Tudo se resume agora ao apelo da alma, oh céus, venha pelo menos o poder total de António Costa para que se encoraje a afastar a geringonça, de qualquer modo com Passos e Cristas já se perdeu a esperança, resta Cavaco mas quem lhe liga, mais vale perdidos por cem do que perdidos por mil.

 

Comentários

  1. Excelente. De facto o bom humor do texto realça ainda mais o ridículo desses ‘especialistas’, que como os da bola, ao domingo e a qualquer hora, são a praga mais isenta e verdadeiros exemplos de sensatez.

  2. É preciso manter a geringonça por motivos sanitários: a rede clientelar do PS, sobretudo, deve criar segmentos de qualidade. Sem experiência nestes assuntos, nomeadamente os neófitos do BE, poderão ajudar algo. O PCP que dê a cassete a Costa, a da superioridade moral, na presunção que esteja ainda em vigor.

    Costa, com maioria absoluta, o que fará ele? Vai ajudar mais gente(os compagnons de route do Largo do Rato) a governar a vidinha ou vai acabar com a pobreza, a precariedade e as desigualdades? E converter os jovens para a procriação. A Alemanha, em vésperas do dia 24, está com uma idade mediana de 52 anos -52 anos!!! -, quando há poucos anos estava nos 46 anos. Isto após integração de um milhão de refugiados. Este problema é extensivo a Portugal e aos jovens de Portugal. Cá também os velhos são um produto corriqueiro. O sonho de alguns é, aproveitando a ideia passada de Ricardo Araújo Pereira, colocar um velhão em cada esquina de todas as cidades, vidas e aldeias de Portugal. Para rimar com vidro e vidrão…Reestruturação da Segurança Social facilitada, dirão eles. É necessário que Costa promova o bem-estar em Portugal e que Medina, eleito, promova a habitação jovem com a indispensável ajuda das construtoras do regime e, atenção, no tocante a Lisboa e, em particular a Medina, os conselhos dos vizinhos de baixo não são oportunos.

    Quanto ao jornalismo, há coisas boas e coisas más. Conheço alguns velhos do jornalismo que continuam a dar cartas. Os que chegaram há menos tempo, alguns deles, têm um discurso estranho e são atrevidos, porque confundem as suas convicções pessoais com as próprias posições da instituição que servem, dizem-nos que o futuro pertence aos criativos -só os criativos poderão sobreviver e medrar – e, sobretudo, confiança cega na tecnologia(é como eu não saber nada de estatística e mandar a máquina fazer uma amostra aleatória simples de uma distribuição uniforme de 1000 elementos, com valor mínimo zero e valor máximo um. Quer dizer, eu não sei nada do que a máquina está a fazer. Então, robot ,1- eu(ou ele), 0. Ou seja:o jornalismo é , sobretudo empolgamento literário(lembro, até, para os mais delirantes adeptos da Bola, as belas lições de Português que aprendi com Carlos Pinhão, Aurélio Márcio e Homero Serpa no ainda existente jornal “A Bola”). E o português do popular BB, exímio no domínio da língua. Ou seja, o jornalismo é rigor, objectividade e defesa da língua.

  3. JOSE FERREIRA; temo que nem todos tenham ainda aprendido.
    Pode ser que pelo menos alguns tenham percebido.
    O senhor António Costa perdeu as eleições exactamente por não de demarcar durante as eleições de forma evidente da governação da coligação PFP.

  4. Geringonçólogos é uma palavra que lhes assenta que nem uma luva. Esgrimem palavras e e retorcem-se em convulsões. A geringonça passa…

  5. Calma, Prof. Louçã. Os portugueses já sabem que a nossa comunicação social é 90% de Direita.
    Além disso, não podemos esquecer a história de 30 anos de cavaquismo, ou seja, de 30 anos a decifrar códigos pré-programados.

    O que a comunicação social portuguesa deveria pensar, é em denunciar os desvios da própria Direita, especialmente perigosos, e vindos principalmente do PSD.
    Não é propriamente uma apelidada por Passos Coelho de “habilidadezinha”, de quem não foi feito para comunicar, mas sim para governar (com alguns erros, óbvio), como aconteceu esta semana com alguns ministros. O mesmo Passos que mentiu e enganou várias vezes os portugueses de forma descarada e sem pingo de vergonha.

    Trata-se da introdução do racismo e xenofobia no interior do PSD, tendo antes Passos Coelho um álibi dentro de casa, como se os portugueses tivessem alguma coisa a ver com o que se passa dentro de sua casa.
    Quem apoia candidatos autarcas racistas, como o Ventura de Loures, também é racista. Ponto.

    Mais uma estratégia de dividir perigosamente para ganhar votos, de puro lixo não saído do lixo, ao contrário do que fizeram esta semana os agentes ratinguistas americanos, com a nossa dívida soberana.

  6. Uma coisa é certa, o que este geringonçistas dizem não me vai fazer muda de opinião… nem acredito que faça mudar a alguém sério.
    E deixo aqui um aviso às pessoas, todos sabem o que é o PS a governar sozinho…

    1. Mas também sabemos todos que o BE quer ser o novo PS (mais do mesmo…). Basta ver as ninharias porque se batem na TV.

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