Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

18 de Setembro de 2017, 08:01

Por

O ridículo não vota. Que pena, não haveria abstenção…

A taxa de abstenção nos actos eleitorais atingiu números democraticamente preocupantes. Em todo o caso, manda o rigor dizer que o seu valor continua artificialmente empolado. Basta, aliás, atender aos seguintes números: para as eleições de 1 de Outubro, os cidadãos eleitores recenseados são 9.396.680, segundo a Comissão Nacional de Eleições. De acordo com os últimos dados demográficos do INE, a população total é de 10.309.573 pessoas, pelo que a que está recenseada atinge a insólita percentagem de 91,1%! Partindo do princípio de que todos os indivíduos com 18 ou mais anos estão recenseados, restam, assim, abaixo desta idade 912.893 jovens e crianças. Acontece que, na mesma estatística oficial de 2016, os indivíduos até 14 anos de idade são 1.442.416 e se lhes juntarmos os que têm idade compreendida entre os 15 e os 19 anos (é esta a seriação feita pelo INE) teremos 2.000.581 pessoas. Se, por hipótese, neste escalão, houver uma uniforme distribuição etária entre os jovens que já podem votar (18 e 19 anos) e os que ainda não podem (15, 16 e 17 anos), concluiremos que a população que não pode votar por insuficiência de idade será de 1.777.315 e não a acima citada de 912.893 indivíduos. Daqui resulta que a taxa de abstenção estará, à partida, inflacionada em, nada mais nada menos, do que 9,2 pontos percentuais, independentemente do abstencionismo efectivo!

Vem isto a propósito da súbita e cativante preocupação por causa de uns tantos jogos de futebol no dia das eleições. Que podem fazer aumentar a abstenção, dizem-nos com ar compungido, ao mesmo tempo que não se liga patavina ao já referido inchamento de eleitores teimosamente inscritos, e muito menos às causas substantivas de origem político-partidária.

Vai daí eis mais uma ideia peregrina que, espero, não se venha a concretizar. A de proibir certos eventos em dias eleitorais para que o incauto povo tenha tempo de sobra para ir às urnas. Pondo de parte a tecnicalidade e a arbitrariedade de se saber quais os eventos e a sua natureza (impedir um Sporting-Porto e não o fazer num Tondela-Paços de Ferreira? Romarias populares? Um espectáculo em Lisboa do Tony Carreira, mas não em Alpiarça?), esta ideia, só pelo facto de ter surgido na mente de alguns ilustres políticos, é de assustar.

É a expressão de quem acha que nós, coitados, temos de ser conduzidos por um legislador omnipresente e omnisciente que, assim, determina e controla a nossa vida. Uma espécie de farol tutelar que nos ilumina e nos diz o que devemos ou não fazer. Um modo legalista de protecção de néscios e deseducados cidadãos. Onde é que eu já vi isto?!

Este lirismo de pensar que uma pessoa se abstém por causa de um jogo de futebol vai ficar nos anais legislativos. Já agora sugiro: 1) proibir chuva, vento e frio se a eleição for no Inverno; 2) encerramento das praias entre as 8 e as 19 h, se se votar no pico do Verão; 3) alteração da Concordata com a Santa Sé para que, em domingo eleitoral, todas as missas sejam antecipadas para o dia da reflexão; 4) fechar todos os centros comerciais e cinemas; 5) suspender telenovelas e transmissões desportivas; 6) decretar o absentismo ao trabalho em tais domingos; 7) acautelar junto da Eurovisão que não há festivais de música nesses dias; 7) isentar viaturas das portagens em auto-estradas e pontes.

Assim guiados pela “mão visível” do Estado-protector, a abstenção será virtualmente nula. E, orgulhosamente, continuaremos a votar em domingos.  Não somos como esses indígenas britânicos ou americanos que, desgraçadamente, votam num dia de trabalho.

Ah! Ia-me esquecendo, o voto (ainda) não é obrigatório.

 

Comentários

  1. Eu não me sinto representado por nenhum candidato ou partido português, por isso raramente voto. Das poucas vezes que o fiz, foi apenas para tentar impedir alguém particularmente asqueroso de chegar ao poder. Para obrigatório já me basta o voto nas eleições da minha ordem profissional, onde naturalmente faço questão de inutilizar o voto com alguma mensagem de protesto.

  2. O que mais faltava era que o voto fosse obrigatório! Por este andar ainda aparece algum querido líder…eleito por 99% dos dos obrigados eleitores.
    Acredito numa democracia humanista formada por cidadãos racionais e livres.
    Tratar os cidadãos como de fossem incapazes de discernimento é muito mau e indigno.
    Com o risco acrescido de se poder tornar uma profecia auto-realizada!

  3. Raivosos e enganados, exigem aos outros a peregrinação humilhante de ir às urnas (quais mortos vivos) agradecer publicamente o facto de serem roubados e maltratados nos últimos 4 anos.
    Eu não entrego o meu poder! vcs querem pela força que eu me humilhe.
    Não voto e nunca vou votar. No dia em que me obriguem a pagar multas farei cobrar o mesmo valor ao estado através de actos de vandalismo. E se me prenderem ainda mais vão ter e pagar. Estamos compreendidos?

  4. O número de crianças e jovens não considerados, nos termos do post, aumenta o nº. de inscritos, logo a percentagem de abstencionistas diminui. Mas, toda a gente sabe que o nº. de inscritos está inflacionado pela consideração de eleitores já falecidos(desactualização dos cadernos eleitorais), de que a Imprensa dá nota regularmente.

    Concordo com o teor do post no tocante à intervenção do Estado no processo de proibir o futebol em dias eleitorais, principalmente o futebol. “…para que o incauto povo tenha tempo de sobra para ir às urnas…”. É completamente ridículo este procedimento. E sem voto obrigatório, como diz o post.

  5. Não é obrigatório votar, mas devia ser. Permita-se o voto por correspondência, mesmo aos residentes em território nacional. Problema resolvido. Penalize-se quem não quer votar.

  6. Ora cá está um consenso que a malta até diria: “He, pá. Isto sim, seria um consenso”.
    Falo obviamente do consenso urgente entre todos os partidos, quanto ao VOTO OBRIGATÓRIO.
    Resolveria este e outros problemas (“Vai ver a bola, mas antes tens que votar ou pagas multa”).

    Mas que legitimidade têm, por exemplo, Marcelo ou Cavaco do BPN (ou Macrón, supondo que em França não existem mortos-vivos nas listas eleitorais), para se arrogarem dizerem depois de umas eleições com mais do que 50% de abstenção, “Eu é que sou o Presidente deste país”!?

    Se os impostos são obrigatórios, porque votar não o é, como existem noutros países, alguns deles bem mais desenvolvidos e com maior tradição democrática!?
    A quem interessa de facto a abstenção!?

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