Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

17 de Setembro de 2017, 12:19

Por

Portugal já não é “lixo” para a S&P

A subida do rating da República pela S&P de “lixo” (BB+) para a classe mais baixa de “investimento” (BBB-) surpreendeu.

A dívida pública nunca atingiu níveis tão elevados – estava em 132,4% do PIB em Junho de 2017 –, embora o Governo argumente que irá cair para cerca de 128% do PIB, após as amortizações de dívida previstas para a segunda metade de 2017. Mas é um facto que a dívida pública, líquida de depósitos da Administração Central, estabilizou desde Dezembro de 2015 (entre 121% e 122% do PIB), não obstante a maciça injecção de dinheiros públicos na Caixa Geral De Depósitos.

Mas, principalmente alguns dos indicadores relevantes para este tipo de “classificações” têm tido, nos últimos dois anos, uma evolução muito favorável.

O défice público está a cair e em níveis historicamente baixos, graças ao desempenho da economia, o melhor desde 2001, mas que mesmo assim não é suficientemente forte, após um longo período de estagnação económica.

A melhoria significativa nas contas externas, auxiliadas por um boom no turismo (que, nomeadamente, num exemplo casuístico mas caricato, aparenta deixar a capital portuguesa com preços de hotéis de três estrelas, neste final de Setembro, acima dos níveis de Nova Iorque) que dá um importante impulso ao crescimento económico. A saída do país do procedimento por défices excessivos. E, também, reconheça-se, a aceitação nacional e internacional da “geringonça”.

Acresce a política monetária acomodatícia do BCE, que se prevê seja estendida para os primeiros meses de 2018, contribuindo para que as perspectivas de entrada em incumprimento da dívida da República baixem no curto e médio prazo.

Por outro lado, os fundos de investimento institucionais procuram aplicações alternativas com taxas de juro mais elevadas à da dívida pública dos países mais ricos da zona euro. Note-se, por exemplo, que os títulos de dívida com maturidade a 70 anos da Áustria rendem somente cerca de 1,8% ao ano. Há poucos dias atrás a Áustria emitiu e vendeu 3,5 mil milhões de euros de dívida pública com maturidade de 100 anos e uma taxa de juro implícita (“yield”) de 2,112%. A Áustria comemora, no próximo ano 100 anos de existência e, como se sabe, passou por uma grande guerra mundial ao lado da potência que perdeu a guerra. Não obstante o rating “investimento” AA+ da S&P (o segundo melhor rating possível) e o relativamente melhor estado das suas contas públicas (défice e dívida pública de 1,6% e 84,6% do PIB no final de 2016, respectivamente), parece mais arriscado emprestar dinheiro à Áustria a 2,1% durante 100 anos do que a Portugal a 2,8% durante 10 anos.

Ou seja, na perspectiva dos investidores institucionais, haverá certamente quem tenha chamado a atenção junto das agências de rating para as inconsistências nos preços da dívida pública que se observam nos mercados. Afigura-se que alguns investidores institucionais aguardam uma subida de rating, para poder adquirir dívida pública portuguesa (na generalidade dos casos, os estatutos dos fundos e a regulamentação em vigor proíbem ou limitam fortemente a aquisição de dívida com rating “lixo”). Além disso, as próprias agências de rating terão observado a evolução das taxas de juro da dívida pública portuguesa. Daí faça sentido a subida de rating de Portugal de lixo (BB+) para investimento (BBB-), pela S&P.

Por conseguinte, excelentes notícias tanto para a economia portuguesa como para as contas públicas, por via da descida esperada dos juros, ainda que parte da descida que se tem observado possa já ter antecipado as perspectivas de melhoria de rating por uma das três principais agências de rating, como de facto veio a ocorrer.

Comentários

  1. Caro Ricardo Cabral, este exemplo da Áustria é paradoxal. E é muito importante para lembrar às pessoas como funcionam os ratings. Permita-me recordar que já antes houve quem tenha chamado a atenção junto das agências de rating para as inconsistências nos seus ratings. Lembro a notícia “Rating de Portugal sofreu corte oito vezes superior ao que era justificável
    O estudo é da universidade suíça de St. Gallen e diz que as agências de notação financeira alimentaram o endividamento na Zona Euro ao procederem a avaliações de “rating” mais severas desde que a crise da dívida soberana começou a revelar-se em 2009. Portugal está entre os exemplos do exagero a que foi sujeito nos cortes.” http://www.jornaldenegocios.pt/economia/detalhe/rating_de_portugal_sofreu_corte_oito_vezes_superior_ao_que_era_justificaacutevel

    Foram colegas seus, Suíços, que fizeram o estudo.

  2. Uma análise caseira que ,como todo o foguetório ,que apareceu na imprensa e nas televisões ,tem de ter em conta duas recomendações da S&P.Vai o “ratio” dívida /Pib baixar ,mesmo com esta economia apenas inchada?Vai o BCE continuar o QE e favorecer uma banca que está cheia de créditos ao consumo?Os mercados .na sua “sabedoria” o dirão.Até lá ,é só propaganda

  3. Para:
    A quem interessar

    Referência:
    ‘Votar nas eleições autárquicas’,
    António Bagão Félix,
    11-Set-2017 (Público)

    http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/09/11/votar-nas-eleicoes-autarquicas/

    Por ter sido recusado por Bagão Félix a sua publicação, copio em baixo comentário por mim enviado para o artigo acima referenciado, no qual Bagão Félix declara o seu apoio à candidatura de Fernando Medina em Lisboa considerando que ‘Fernando Medina tem tido um bom desempenho’.

    Comentário:

    ‘Medina tem tido um bom desempenho’?
    Mas ‘bom desempenho’ como?
    A cobrar e aumentar impostos para fazer obras de embelezamento superficial e que de pouco ou nada servem a não ser fins eleitoralistas?

    Para mim, as obras do Medina não serviram rigorosamente para nada. E só prejudicam.

    O Medina é absurdo.

    Diz ele (entrevista a TSF, 16-07-2017) que a mobilidade em Lisboa é problemática porque os outros, nos concelhos limítrofes de Lisboa, não investem em comboios, parques, estradas e auto-estradas. Bem, isso é não resolver nada e atirar com o problema para as costas dos outros.

    Como quem diz: auto-estradas e comboios sim mas só fora de Lisboa…em Lisboa não. Os outros, nos concelhos limítrofes (não o Medina), que resolvam o problema e gastem dinheiro em auto-estradas e comboios. Em Lisboa, ele, o Medina, só gasta dinheiro mas é com banquinhos, baloiços e quiosques de jardim.

    Depois diz ele que fez obras mas foi para requalificar o espaço público e melhorar a qualidade de vida.

    Mas requalificar o espaço público como se o que ele fez foi encher ruas e praças com cimento que não serve senão para fazer das ruas e praças caixas de ressonância de lixo e barulho?

    Eu preciso das ruas mas é para transitar, não para ficar lá a fazer mais lixo, barulho e confusão.

    E como é que ele quer melhorar a qualidade de vida se não resolve, e só piora, a mobilidade dentro da cidade?

    Sem mobilidade dentro da cidade não pode haver qualidade de vida na cidade!

    Ora, para além de uns bancos, uns baloiços, uns quiosques, umas ciclovias e uns ajardinados aqui e acolá, o que as obras do Medina efectivamente fizeram foi reduzir drasticamente o espaço para mobilidade automóvel.

    Com a seguinte agravante: como continuam a entrar e a sair da cidade os mesmos automóveis de sempre (como até o próprio Medina reconhece), menor mobilidade quer dizer que vai haver mais poluição no pára-arranca e consequentemente menos qualidade de vida também por causa de passar a haver mais poluição.

    Por exemplo, eu moro em Lisboa e tenho um pequeno utilitário para me deslocar em toda a cidade (bicicletas não resolvem o meu problema de transporte em Lisboa, pelas razões abaixo discriminadas, e nem preciso disso para fazer exercício). Ora a realidade com que me defronto é que, agora, depois das obras do Medina, tenho muito mais dificuldade em circular na cidade. Por exemplo, do Arco do Carvalhão para o Corte Inglês ou Marques de Pombal a circulação está mais difícil pois umas vias foram estreitadas e outras bloqueadas com cimento. Ou da José Fontana para o Corte Inglês (leste para oeste da Fontes Pereira de Melo) onde agora é preciso fazer umas voltas enormes porque as vias que existiam nas Picoas e no Saldanha foram cortadas! Etc.

    Na realidade, as obras para pouco ou nada serviram a não ser como manobra de diversão para fins eleitoralistas. O que essas obras revelam é que resolveram dar um golpe eleitoral optando pela via mais fácil: embelezamento superficial para criar uma ilusão de progresso no momento das eleições. Ou seja, as obras são fogo de vista eleitoral.

    Mas só é enganado quem quer ser enganado.

    É falacioso pretender-se resolver o problema da qualidade de vida sem resolver o problema da mobilidade.

    E é essa a falácia do Medina.

    Mais, o Medina não só está a enganar o público como está também a prejudicar o público com aumentos de impostos, taxas e taxinhas de toda espécie (através da factura da água, por exemplo) para pagar as obras do Medina que só ao Medina interessam na forma e no momento em que foram feitas.

    Havia de certeza muitas e melhores opções para (1) poupar o dinheiro dos contribuintes ou para (2) gastar o dinheiro mas resolvendo conjuntamente os problemas conjuntos da mobilidade e da qualidade de vida.

    Primeiro, no que respeita ao excesso de carros, a solução só pode ser (1) portagens à entrada da cidade (ou em locais estratégicos da cidade) ou (2) venda de selos para circulação em Lisboa (custo zero para residentes). Estas soluções não só representam uma forma de racionalização do tráfego através do preço (que é o melhor instrumento para esse efeito pois pode ser ajustado à medida dos custos que os carros causam à cidade) como também proporciona uma fonte de receita que pode ser usada para muitos fins (medidas adicionais para minorar este problema ou para a resolução de vários outros problemas da cidade).

    Segundo, há outros problemas reais e até urgentes (como o do reforço da capacidade de resistência sísmica da cidade) em cuja resolução o dinheiro teria sido muito melhor gasto.

    Bicicletas, nota final:
    Bicicletas podem ser úteis em algumas circunstâncias mas são geralmente morosas, perigosas para ciclistas e para peões quando ciclistas invadem passeios a baixa ou alta velocidade, incómodas por causa dos capacetes e da impossibilidade de transportar cargas, sujeição a intempéries, vento, sol, chuva e inadequação à topografia acidentada da cidade, não permitem ficar em lugar abrigado (como o do interior dum carro) em intervalos entre afazeres ou quando necessário lugar abrigado ou privado para se fazer certas coisas úteis, necessárias ou urgentes (telefonar, ler livro, jornal ou revista, preparar ou estudar uns documentos, etc, a sós ou com outros), etc.

    Assinado
    Temp Uno
    tyuiop00000000001@gmail.com

    1. Com o pedido de desculpas ao Ricardo Cabral por estar a responder num comentário num dos seus textos, quero apenas dizer que não recusei nenhum comentário ao contrário do que o seu autor sentencia sem saber. Pelo contrário fui eu que ao lê-lo agora o aceitei.

    2. Sem querer voltar a fazer acusações, muitos dos meus comentários no passado levaram “sumiço”, e outros comentadores do Público queixaram-se do mesmo. Falando da CML, a actual é horrível, a mais horrível que alguma vez tivémos, e correr com essa gente das rotundas triplas com canteirinhos e “ciclovias” deveria ser uma emergência. O comentador Temp Uno erra ao pretender punir os automobilistas de concelhos limítrofes, pois antes de mais o problema operacional de controlar a entrada de veículos de não residentes em Lisboa é de extrema complexidade, e eventualmente será inconstitucional. Mas erra mais ainda porque Lisboa tem interesse no afluxo de visitantes da periferia, e erra de novo porque os concelhos limítrofes poderiam e deveriam reciprocicar. Isto pode parecer muito estranho para alguns lisboetas mais tolos do que o normal, mas as suas viaturas a caminho das praias da linha de Cascais não deixam feliz quase ninguém para essas bandas, à excepção dos vendedores de gelados da praia. Além disso, muitos dos visitantes de Lisboa, se se virem confrontados com portagens para lá poderem ir, simplesmente irão a outro lado. É sempre o mesmo tema, o chico-esperto tuga julga que vai lixar o parceiro do lado, quando o que está a fazer é a dar tiros nos pés. Lisboa pagará com língua de palmo a hostilização dos concelhos limítrofes, isso se a conseguir realizar, até porque é ilegal.

    3. Eu erro? Que tolice tão pouco liberal.
      Por mim, a não ser muito excepcionalmente, eu nunca vou de carro para as praias da linha de Cascais. Nem de Cascais nem da Caparica e nem de nenhuma dessas coisas. Nem de carro nem sem ser de carro. E nem sequer vou para a estrada em Agosto. As filas de trânsito, barulho e confusão são absolutamente horrorosas. Nem que me pagassem eu me metia naquilo. E acho absolutamente horrorosas essas medonhas filas de trânsito a entrar e a sair de Lisboa todos os dias. Todos os dias. Eu até me arrepio todo só de ver aquilo e de pensar como é que o país e tanta gente tem tanto dinheiro para pagar tanto automóvel, petróleo, poluição e tempo gasto no pára-arranca e na confusão das infindáveis filas de trânsito para entrar e saír de Lisboa todos os dias.
      Dito isto:
      Contrariamente ao alegado, eu não errei coisa nenhuma. Pelo menos não errei pelas causas acima apontadas:
      1. ‘Punir’, ‘hostilizar’? Uma ova. Isto não tem nada a ver com ‘punir’ ou ‘hostilizar’ quem quer que seja. Tem só a ver com racionalizar o acesso à cidade e o uso do espaço público comum. O melhor instrumento para esse fim é o preço a cobrar por esse acesso, o qual pode ser calibrado na exacta medida dos custos e benefícios envolvidos.
      2. Complexidade? Uma ova. Em vez de fazerem obras para complicar o trânsito, a la Medina, façam obras no quadro de um plano integrado para verdadeiramente resolver o problema conjunto da mobilidade e da qualidade de vida que inclua portagens (que não têm de ser permanentes) em pontos estratégicos e/ou selos, etc. E pode haver tabela de preços para casos diferenciados. E claro que esse plano deve ser enquadrada em plano mais geral que englobe os concelhos envolventes. E não tem de ser feito tudo de uma vez a la Medina atamancado só para caçar votos nas próximas eleições.
      3. Ilegalidade ou inconstitucionalidade? Uma ova. Já existem em muitos lados (por exemplo, na ponte e em autoestradas, etc). O acesso por automóvel, de resto, já está a ser condicionado em vários pontos da cidade. Aliás esse é um dos efeitos das obras do Medina…Não faltará muito que acabem por interditar o automóvel em certas áreas (como acontece noutras cidades na Europa, ao que consta).

  4. Gostava de perguntar ao Doutor Ricardo Cabral, se faz o favor, se o somatório da dívida pública e privada portuguesa não é neste momento superior à da chegada da Troika apesar de alguma amortização da segunda . Depois, gostava, se faz o favor, noutro artigo de opinião, do seu cometário a propósito da exactidão científica dos estudos que apontam para o facto de que, com este saldo primário, Portugal necessitaria de um nível de crescimento nunca visto para a sua dívida ser sustentável. Ou seja, pergunto ao doutor, se tecnicamente Portugal não necessita de um hair cut?

    1. A dívida pública tem vindo a subir (portanto é superior ao nível registado em 2010/2011) e continuo a considerar a dívida pública insustentável e a entrada em incumprimento muito provável, sobretudo devido ao peso da dívida externa do país. Tenho defendido publicamente a reestruturação da dívida pública e externa portuguesa. E o grupo de trabalho sobre a sustentabilidade da dívida externa, sugeriu um modelo possível para a reestruturação da dívida pública.

      Dito isto, esta análise é feita em termos relativos. Apesar do risco de incumprimento da República ser elevado, parece-me muito mais arriscado investir em dívida da Áustria a 100 anos.

      E para as agências de rating o importante é a ocorrência de um episódio de incumprimento. Quanto mais alto o rating, mais baixa é a probabilidade (baseada em observações históricas) de o devedor entrar em incumprimento pouco tempo depois (creio, que o prazo considerado é até 2 anos). Parece-me, por conseguinte, que a S&P acredita que nos próximos anos a probabilidade de incumprimento de Portugal é relativamente baixa.

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