Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

6 de Setembro de 2017, 13:38

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A queda da despesa pública com juros

É surpreendente que, nas actuais condições de instabilidade geopolítica, as taxas de juro da dívida pública da zona euro andem ”pelas ruas da amargura” (para os credores, claro!), a ponto da dívida pública dos países membros da zona euro, Portugal em particular, ser a menos má de entre as (dispendiosas) alternativas.

Analistas do Bank of America antecipam que o programa de expansão quantitativa (EQ) do BCE será prolongado durante os primeiros seis meses de 2018, com o nível de compras de activos a ser reduzido de 60 para 40 mil milhões de euros por mês. Mas há mesmo quem argumente que o programa continuará até ao primeiro trimestre de 2019. Draghi não deverá dar indicações sobre a continuidade do programa de EQ na conferência de imprensa desta quinta-feira, o que, em si, é um sinal de continuidade do programa, porque os “falcões” no Conselho do BCE já pretendiam discutir o fim do programa antes do verão.

O certo é que, em antecipação do fim do programa de EQ, o euro já se valorizou significativamente face ao dólar, aproximando-se da barreira dos 1,2 dólares. E, por conseguinte, Draghi parece procurar “jogar poker” com os mercados.

Dadas as expectativas dos mercados, é agora muito provável que o programa de EQ e, em particular, o programa de compra de dívida pública (PSPP) dos países membros da zona euro, seja prolongado o que é benéfico para a economia e contas públicas portuguesas.

No relatório sobre a sustentabilidade das dívidas externa e pública argumentava-se que a dívida pública a adquirir até ao final de 2017 pelo Eurosistema, deveria ser mantida nos balanços dos bancos centrais nacionais da zona euro por tempo indefinido. Mario Draghi e também Vítor Constâncio e outros membros da Comissão Executiva e do Conselho do BCE estão, para já, a comprar mais dívida pública do que o previsto, durante mais tempo do que antecipado, num processo fundamental para salvar temporariamente[1] a zona euro.

No final de 2017, cerca de 15% da dívida pública portuguesa (quase 20% do PIB) será detida pelo BCE e BdP, no âmbito do PSPP e de outro programa anterior (SMP). Só não é mais porque Portugal não tem dívida transaccionável suficiente. Com a extensão do programa, é provável que as regras do PSPP sejam alteradas, permitindo a aquisição de uma maior percentagem da dívida pública portuguesa e de outros países membros.

curva de rendimentoF: Investing.com

As taxas de juro da dívida directa do Estado de curto e médio prazo estão a níveis extraordinariamente baixos. O Estado português é capaz de emitir dívida com maturidades até 2 anos com taxas de juro negativas (-0,026%).

Como o gráfico acima (de 21-8-2017) sugere, a queda das taxas de juro no último ano tem sido mais pronunciada nas maturidades iguais ou inferiores a 7 anos, tendo continuado a diminuir desde 21-8-2017. A taxa de juro das Obrigações do Tesouro a 10 anos diminuiu menos, para cerca de 2,8%, duas décimas de ponto percentual abaixo do valor registado em Agosto de 2016.

Mas, para Portugal, um país em que a taxa de juro implícita média da dívida pública é de 3,3% em 2017 (relativamente ao stock de dívida no final de 2016), isso significa que as emissões de dívida em 2017 (que substituem a dívida antiga que chega à maturidade este ano), se fazem a taxas de juro muito inferiores à taxa de juro da dívida que vence, contribuindo para reduzir significativamente a taxa de juro implícita média da dívida da República.

Portugal deve, por conseguinte, aproveitar para aumentar as emissões de dívida com prazos inferiores a 7 anos (e taxa de juro inferior a 2%), para assim reduzir significativamente a despesa com juros em 2018 e anos seguintes.

 

 

 

 

 

[1] Não obstante a enorme dimensão do programa alargado de compra de activos do BCE, as falhas da arquitectura da zona euro e os desequilíbrios externos acumulados são tais, que o programa do BCE não será, por si só, suficiente para responder à crise que a zona euro atravessa.

Comentários

  1. (1) Pode-se ver a questão doutro ângulo: a inflação não está a dar sinais de poder subir até 2%, para desespero do german team do BCE. E não sobe porque, como o próprio Draghi já disse, o desemprego real é superior a 15%. Logo…Curva de Philips e NAIRU. E o principal papel do BCE é regular a inflação nos 2%, através da política monetária. É claro a Alemanha quer subida das taxas de juro: os fundos de pensões estão a perder muito dinheiro. Em Outubro, Merkel dirá de sua justiça…Vai diligenciar para alterar o jogo de forças no seio do BCE?;

    (2) O euro valorizou talvez porque as compras de moeda na Europa cresceram o que fez subir a cotação do euro. O BCE em princípio só pode influenciar as cotações através da política monetária – não pode fixar um limite para a cotação, esse poder pertence ao jogo das trocas monetárias. É interessante: compra-se mais moeda porque a economia está melhor mas isto amarra o BCE ao QE. Com a moeda em alta, compra-se mais barato ao estrangeiro(sobem as importações) e vende-se mais caro(descem as exportações). Com tudo isto, Draghi estará a pensar em dar a indicação de manutenção da inflação, com inclinação para baixo.

  2. De qualquer forma.nunca será bom termos uma dívida pública superior a 100% do PIB, sendo a actual equivalente a 138,8% (250.000.000.000/180.000.000.000 euros). Aliás, penso que aquele patamar não deveria poder ser ultrapassado e o não haver limites ao crescimento da dívida só serve para despesas assumidas menos responsavelmente.

    1. Não gostas de dívida? Mas não sabes que todo o dinheiro é criado como dívida pelos sistema bancário? A alternativa (para o euro) é o parlamento europeu tomar nas suas mãos o poder de criar e destruir dinheiro (através de taxação) e distribuir esse dinheiro pelos países consoante as necessidades da economia real.

    2. “Não gostas de dívida ?” Pergunta aqui um epicurista. Bom, por mim tudo bem se fores tu a pagá-la. Mas dívida para a te encher o pacote e serem os outros a pagar é coisa de xico-esperto aporcalhado, ou de Tugalhóide idiota.

    3. X,

      Estava apenas a salientar que actualmente quase TODO o dinheiro é criado através da emissão de dívida. No actual sistema monetário, para que tu possas ter dinheiro no bolso ou na conta bancária alguém teve FORÇOSAMENTE de se endividar a um banco. Seja esse alguém um indivíduo, uma empresa ou uma instituição. A alternativa é passar o poder de criação e destruição de moeda para as mãos dos parlamentos que o podem criar sem se endividarem. Mas esse continua a ser um assunto tabu. Qual é a tua opinião sobre isto?

  3. e se as rating agencies tirarem Portugal do lixo? Aumenta a quantidade de dívida transaccionável e os juros baixam ainda mais? Será possível o BCE acabar por deter 50% da divida portuguesa? Ou mais? Há limite? E os alemães não refilam? Será que podemos deixar de nos preocupar com a divida? Os meus netos europeus que se preocupem, não é?

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