Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

28 de Agosto de 2017, 08:16

Por

Nem rosa, nem azul. Os pais que se cuidem!

Há uns livrinhos para crianças do pré-primário que – imagine-se! – têm cores diferentes consoante o sexo dos destinatários. Dizem-nos, agora, que o cor-de-rosa para meninas e o azul para meninos é coisa reaccionária. Vai daí, uma Comissão para a Igualdade de Género (é assim que se diz, não é?), depois de instruída por um ministro sagaz deste Governo, “sugeriu” a erradicação de tal discriminação colorida. Além disso, os livrinhos têm umas folhinhas diferentes para umas poucas actividades com uma dificuldade menor para as meninas. Em suma, tudo “estereótipos de género”, avisaram-nos.

Assim, o assunto – entre incêndios e outras desgraças – virou matéria de Estado, com uma solene admoestação à incauta editora, na esteira do tique interventivo de que alguns jamais se libertam. Esta, atenta e veneranda, lá fez a vontade a tão escrupulosos zelotas da ideologia do género. E, sabendo que este mercado é tutelado por Suas Excelências governamentais, suspendeu a venda e prometeu corrigir tão hedionda discriminação. Bem-haja um Estado tão exíguo para o que importa e tão afazendado para o resto.

Azul e rosa. Rosa e azul. Machismo e discriminação. Estereótipos tutti-frutti. Segregadores. Daltónicos. Astigmáticos. Estrábicos. Mas, calma, tudo vai ficar normalizado. Só não se sabe como. Qual vai ser a nova cor dos livrinhos? Mistura entre rosa e azul? Metade rosa e metade azul? Fluorescente, sendo azul de dia e rosa de noite? Arco-íris? Cor do burro quando foge?

Com esta onda censória, atenção aos hospitais e às suas recomendações e adereços para os nascituros. Azuis e rosas, nem pensar nisso! Podem ter insondáveis consequências na escolha de género!

Cuidado, também, pais e avós, com esta Comissão tão vigilante! Eu cá por mim estou à vontade. Só filhas e netas, não há discriminação, embora haja, por certo, quem hoje considere quase “incorrecto” não haver quotas para nascimentos “segundo o género”. Já estivemos mais longe…

Pus-me a pensar quando chegará o tempo certo de um auto-de-fé para os livros da Anita ou da Sofia, por óbvia discriminação. Ou, então, porque não substituir na Branca de Neve um dos 7 anões que, coitados, trabalhavam arduamente como mineiros, por uma anã mineira? E, que diabo, no Ali Babá e os 40 ladrões nem uma quota simbólica de ladras? E a Heidi de saias, não pode ser!

Evidentemente que continua a haver discriminações, social e culturalmente resilientes, entre homens e mulheres, apesar do avanço que se vem alcançando em muitos domínios. E há, ainda, comportamentos misóginos que se devem repudiar.

Todavia, ser anti-discriminação não significa, necessariamente, ser favorável a uma completa anulação da distinção entre homens e mulheres forçada pela nova engenharia social do género. Distinção – e não diferença – quer dizer que homem e mulher devem ser igualmente diferentes ou diferentemente iguais. Essa distinção e complementaridade, expurgada de discriminações injustas ou injustificadas, é positiva para a humanidade.

Enfim, tudo isto é por demais ridículo. O mundo está a ficar atado – em diferentes domínios – à chamada ideologia do género, enquanto construção social e cultural de identidade de género que se escolhe ou modifica, independente dos sexos (masculino e feminino) e com evidente secundarização da biologia e da natureza da espécie humana.

Esta ideologia quer impor um proto código (quase) totalitário na linguagem e em outras expressões educativas e sociais. Uma espécie de polícia da língua que condiciona muita gente, sobretudo nos media. Agora até o insuspeito e ícone da esquerda Chico Buarque apanhou pela grande por causa de umas palavras fora do politicamente correcto de género.

Já não há paciência para esta romaria tonta!

Comentários

  1. Na passada semana a minha filha pediu-me um caderno para fazer desenhos,tem 8 anos, peguei um de capa azul ao que ela disse que não era esse mas sim um cor-de-rosa, devo apresenta queixa da pequena Maria Miguel à CIG por ela não respeitar a identidade de género? deveria obrigá-la a levar o azul?
    QUE GRANDES ANORMAIS REINAM NESTE PAÍS

  2. Por uma vez uma discussão inteligente, civilizada e serena com argumentos válidos de ambos os lados, prova de que o mundo não é a preto a branco e de que as questões são habitualmente muito mais complexas do que parecem à primeira vista. Infelizmente discussões como está não são muito comuns nas páginas de comentários do Público.

  3. Caro Miguel
    Como penso que sabe, aliás porque a diferença é normalmente óbvia, existem de facto diferenças de género.
    E estas não são primeiramente condicionadas por aspectos ambientais, educacionais ou sociológicos, mas simplesmente por aqueles que aparentemente se esquecem nestas discussões redutoras: os fisiológicos.
    Estes são os que na verdade determinam as diferenças. E mesmo que os “guardiões do templo” queiram impor uma
    moral ou uma linha de pensamento politicamente correcta, na época que atravessamos, não conseguirão nunca contrariar
    esta evidência.
    E é verdade: os sexos masculino e feminino são efectivamente diferentes, e é nessa diferença que reside a riqueza de cada
    um deles. Querer de algum modo esbatê-las ou diluí-las, não é mais do que uma tentativa mais ou menos encapotada de de “normalização” da sociedade, bem ao gosto de certo pensamento actualmente muito em voga…
    E este facto tende a que as vantagens e desvantagem de cada um dos géneros, se vão esbatendo em nome de uma igualdade falsa, que vai retirando a cada um o potenciar das suas capacidades intrínsecas.
    Tão só esquecem (ou fingem esquecer) que é precisamente nestas diferenças, que reside a beleza e a diversidade da natureza humana, que se por um lado tem trazido os maiores retrocessos, por outro tem do mesmo modo feito que a humanidade alcance patamares impensáveis há algum tempo atrás.
    No final e, a continuar esta tendência actualmente tão em voga e tão do agrado de certas correntes de pensamento, poderemos estar a caminhar, para o universo imaginado por George Orwell na sua obra “Animal Farm”: Todos os animais são iguais… Mas há uns mais iguais que outros.
    Sim, porque o universo de 1984 já é neste momento uma realidade…

    1. António, as diferenças biológicas são indesmentíveis. A questão é até onde é que elas nos levam. Foram essas diferenças que legitimaram que as mulheres não votassem (não têm cabeça para entender essas coisas da política), que não pudessem trabalhar sem autorização dos maridos (o homem é que sustenta a casa, a mulher deve ocupar-se de coisas nobres como a família) e por aí fora. E para que não me diga que isto são só coisas do antigamente, pergunto-lhe onde é que há 30 anos se via um homem a mudar uma fralda? E sabe porquê? Eram as diferenças biológicas e fisiológicas, os homens, naturalmente, ao contrário das mulheres, não tinham instinto (!) para essas coisas. Os homens também não cozinhavam em casa nem punham a louça na máquina, não podiam passar a ferro e só alguns sabiam escolher a sua própria roupa. Tenho muito em conta as diferenças entre os dois sexos. Mas é preciso combater os anacronismos que impedem a igualdade de oportunidades. Só para acabar, os interesses comerciais e económicos apontam todos no sentido de diferenciar bem os dois géneros. Se fosse fácil encontrar roupa de bebé de tons neutros, poupava-se um dinheirão com o segundo filho, por exemplo. Os exemplos podiam continuar, mas julgo que estão aí à vista para quem quer estar atento.

    2. Caro António, concordo em pleno consigo quando diz que há diferenças e que estas resultam da interacção de muitos factores, “fisiológicos” incluídos. Mas gostaria de saber, na sua opinião, quais as características “fisiológicas” que justificam a subrepresentação em áreas em são necessárias competências complexas (e muitas vezes subjectivas). Para além da força física é claro. Na sua opinião, não há discriminação profissional entre homens e mulheres? Como justifica as diferenças de vencimento entre indivíduos de géneros diferentes, quando desempenham as mesmas funções ou funções que geram um valor “semelhante”? Do mesmo modo, qual a sua justificação para o facto das mulheres estarem subrepresentadas nas posições de liderança em muitas áreas, quando em termos globais estão presentes em maioria dentro das organizações? Não tome as perguntas como provocação, tenho curiosidade genuína em saber. Isto porque tenho lido muitas argumentações baseadas em “diferenças” mas geralmente estas não são explanas, o que a meu ver impede um debate mais profundo.

  4. Concordo com a Sofia Gomes. Nem tudo é biologia. Não se subestime o papel da cultura, da sociedade. Agora mesmo acabei de ler um ensaio sobre saneamento, que tem um capítulo sobre a India. Pergunto, o que é que na biologia aponta para o sistema de castas? O que é que na biologia aponta para a existência dos “intocáveis”? E não o sistema de castas não deixou de funcionar. Apenas é ilegal e continua precisamente porque a tradição quer que continue. Negar o papel da cultura, da construção social relativa à atribuição dos papéis sociais para homens e mulheres é não querer ver o que é bastante evidente

  5. Lá vem mais um homem a mandar a mulher para a “sua” cozinha. Como um retrógrado assumido subscreve o discurso mais reaccionário da “ideologia de género”, um discurso inventado porque o género não é uma ideologia é uma política de identidade. Esta resistência dos homens às transformações sociais, sobretudo às que promovem a igualdade entre homens e a mulheres está a transformar os homens nuns histéricos que choram para que o “tempo volte para trás”. Esta polémica dos livros de exercícios para meninas e rapazes (veja-se a promoção dos meninos a rapazes) fez estalar o verniz dos machistas intelectuais e privilegiados, correram todos a defender as princesas, o cor-de-rosa, os bolos, os colares, as bailarinas e outros estereótipos de género que estavam nas capas dos tais livros de exercícios antes que as relações de género mudem e lhes roube o lugar de senhores do mundo. Eu cá também prefiro a capa do livro de exercício dos meninos, em vez de mandar os meninos para a “cozinha” das meninas tem lápis, carro, caravela, nave espacial e bola, tudo profissões que lhes permitem conquistar o mundo e continuarem a ser uns vencedores.

  6. O preconceito (chamemos-lhe pré-conceito) intelectual de Bagão Félix perpassa todo o texto quando confunde alhos com bugalhos, baralha e torna a dar à moda antiga. O género masculino e feminino é aquele com que se nasce, mas longe está o tempo em que havia papeis pré-definidos socialmente para cada género, que nem depende do órgão sexual que se tem. O problema dos livros azuis e cor de rosa é esse, para além do que os mesmos determinavam várias atividades (algumas ao nível do patético, tal como pude constatar pois tive os livros na mão além dos exemplos que correram nas redes sociais), de acordo com a divisão estereotipada do tempo do Salazar ou aproximado…Aos meninos, seres fortes, inteligentíssimos e corajosos, as atividades mecânicas, desportivas, de dificuldade maior (o exemplo do exercício do labirinto é apenas um atestado de menoridade às mulheres e mais nada do que isso!), às meninas a lide doméstica, o cuidar da casa e dos filhos, o ser professora, vá lá, no máximo enfermeira! Os tempos mudaram, as atividades que cada um procura em plena liberdade e desenvolvendo os seus interesses próprios são aquelas que eles escolherem e não as que estão pré-escolhidas pelos pais, pela sociedade ou por quem quer que seja. O papel dos pais é propor aos filhos a LIBERDADE E A RESPONSABILIDADE de fazerem as suas escolhas, conforme as suas aptidões e inclinações pessoais: se a menina quiser vestir azul e ser futebolista sê-lo-á, se quiser vestir cor de rosa ou amarelo e ser doméstica sê-lo-á. E o menino se quiser vestir cor de rosa e ser bailarino sê-lo-á e se quiser vestir azul ou mesmo cor de rosa e ser futebolista sê-lo-á. E é só isto que está em causa nas sociedades modernas, plenas de liberdade e responsabilidade. Não é acabar com o género nem com a identidade de género. Bagão Félix que se cuide! Os tempos mudaram!

  7. Para concluir, penso que mistura também o conceito de género com o conceito de orientação sexual. Segundo o seu raciocínio qualquer homem com apetências para a lietratura ou para o exercício da medicina (que aliás é um bom exemplo de como os preconceitos de género podem ser facilmente desconstruídos) será homossexual?

    1. Caro Adriano, tem razão quanto à orientação à questão da orientação sexual, interpretei-o mal.
      De resto, qualifique como quiser, mas o absurdo decorre do seu raciocínio. Nas suas palavras “…na minha opinião o sexo condiciona em média alguns (dos muitos) traços de personalidade. De tal maneira que define “um género”. Não me parece ser uma construção social o facto de em média, as mulheres preferirem profissões relacionadas com as pessoas como bem referiu a enfermagem a medicina as ciências sociais a biologia etc e os homens as profissões relacionadas com as coisas como a engenharias ou a canalização (por exemplo). A testoterona é uma hormona que condiciona muito os comportamento…”. Então os homens que escolhem outro tipo de profissões, serão em média”menos homens” ? Um engenheiro é “mais homem que um biólogo? Um canalizador tem menos testoesterona que um sociólogo? Se as aptidões são um espectro, o facto de um indivíduo ser impedido de aceder a uma profissão ou posto somente devido ao seu género não constitui discriminação? Se essa discriminação é generalizada não demonstra que há de facto uma desigualdade na sociedade que deve ser ultrapassada?

    2. Olhe amigo, sabe o que quer dizer “em média”? Terá o Miguel apreendido na escola o que é uma distribuição? Sem este tipo de bases probabilisticas é impossível estabelecer diálogos minimamente racionais. Quanto às suas perguntas e suas falácias; como aquela de um biólogo ter ou não menos testosterona que um médico, deixo para si a resposta. Saúde e alegria.

    3. Caro Adriano, apesar de não ser especialista em estatística percebo bem o conceito de média e de distribuição. Saberá o Adriano também que o conceito de “média” não traduz o valor mais frequente, nem o mais provável de obter analisando a população ao acaso nem dá qualquer informação sobre a variabilidade da população. Conheço também o conceito de variância.

      Mas vamos por partes. Nas suas palavras:

      “Uma sociedade inclusa respeita as suas margens e assegura-lhes os mesmos direitos dos outros apesar das suas diferenças não força metade da população a assumir tarefas que não as realizam em nome de uma “igualdade” ideológica.”

      Posso estar a interpretá-lo mal, mas tendo em conta esta afirmação e outras que foi fazendo o Adriano parece argumentar que as diferenças “biológicas” entre géneros resultam em diferenças na competência (…tarefas que não as realizam…), para além da preferência, para desempenhar determinadas funções / tarefas. Estas diferenças biológicas serão aquelas que definem os géneros e as diferenças de competência resultantes são suficientes para justificar a sub-representação das mulheres em algumas posições e ramos de actividade, relegando assim a questão da descriminação com base no género para segundo plano. Estou a interpretar a sua posição em relação a esta temática correctamente? Eu limitei-me a tentar levar esta hipótese ao limite. Concordo plenamente que o resultado é um pouco absurdo, mas fi-lo como forma de provocação (saudável, não como ofensa) de modo a que você elaborasse mais sobre o assunto.

    4. Além de conceitos estatísticos básicos eu conheço também alguns dos estudos que reportam as propaladas diferenças entre géneros ao nível daquilo que você refere como “apetências”. Conheço outros que as contradizem. Na verdade a maioria desses estudos refere-se a interesses ocupacionais (que não são uma medida de competência para desempenhar a função) – que podem ser influenciados por muitos factores, incluindo a representação do papel social de cada género, como já foi aqui discutido. Também incidem muito sobre traços gerais de personalidade, que são “auto-reportados” pelos indivíduos que participaram no estudo, ou sejam não são traços objectivamente medidos, pelo que estão sujeitos a viés devido a expectativas culturais. Mesmo no que toca à questão hormonal, ela parece ter influência em alguns traços de personalidade, mas mesmo aqui se encontra uma grande variabilidade nos resultados, a que acresce o facto de estímulos comportamentais parecem alterar o equilíbrio hormonal de cada indivíduo. Não sei se foi identificada alguma correlação entre diferenças na estrutura do cérebro dos diferentes géneros (que parece existir de facto antes da nascença até) e traços de personalidade/competências.

    5. No entanto vários autores realçam alguma “tendências”: para muitos dos parâmetros abordados há uma uma extensa sobreposição entre as populações dos diferentes géneros (são mais as semelhanças que as diferenças entre géneros) e mesmo em caso de diferença, esta é de baixa amplitude. Há ainda uma variabilidade grande em cada população, sendo que esta variabilidade é maior no caso dos homens, o que dificulta a análise estatística. Portanto, nestes casos a média aritmética simples, para além de pouco informativa, parece ser um parâmetro muito redutor e bastante “uniformizador”. Ignorando a variabilidade torna-se portanto difícil extrair conclusões em relação à igualdade de oportunidades ou de circunstâncias, pelo contrário, corre-se o risco de acentuar desigualdades artificialmente (na minha opinião).

    6. O que eu gostaria de saber, porque acho útil para clarificar a discussão, é se o Adriano acredita ou não que há discriminação no acesso das mulheres a alguma tarefas/posições, discriminação assente no género e não nas capacidades de cada indivíduo. Gostaria também de voltar a colocar-lhe estas questões: se essa discriminação é real e generalizada não demonstra que há de facto uma desigualdade na sociedade que deve ser ultrapassada? Se a discriminação ocorrer em posições de decisão e de influência social, não pode rá isto atrasar ou impedir a progressão para uma situação em que haja igualdade de oportunidades? Neste caso, não acha que caberá ao poder político (como representante da população), bem como a outras forças da sociedade civil, promover algum tipo de medidas com vista a eliminar esta desigualdade?

  8. Os exemplos da leitura e do desporto são exemplos clássicos de “áreas” em que essa pressão social é evidente – mais uma vez encontrará com facilidade exemplos que desafiam essa visão. Os seres humanos aprendem, o seu comportamento não resulta apenas de determinantes genéticos, e aprendem por observação e por imitação de modelos. Penso que é por isso que a questão da representação dos géneros é tão importante, principalmente em crianças pequenas.

    Quanto ao respeito pelos direitos dos diferentes géneros, está errado, os direitos são universais. Para que fosse como diz teria de dividir a população não só por género mas também pelas múltiplas variações e condicionantes que existem na população – isto parece me o oposto completo da definição de sociedade inclusa. Parece-me até bem claro que há preconceitos que impedem que as pessoas sejam avaliadas em situação de igualdade (mais uma vez para ambos os géneros, mas também em relação a idades, cores da pele, extratos sociais etc.). Mais uma vez poderia dar-lhe “n” exemplos mas acho que se pensar no assunto também os encontrará. O que você acha errado é a imposição de quotas para mulheres. Eu concordo com o conceito, principalmente no que diz respeito a cargos de representação política e em posições de liderança, tenho poucas dúvidas que há de facto discriminação. Se realmente o sistema de quotas funciona, é uma questão pertinente. Provavelmente só saberemos na próxima geração. Tenho ainda de dizer-lhe que esta opinião é tão ideológica quanto a sua, como lhe procurei demonstrar.

  9. Sofia
    Desculpe o que em comportamento humano é neutro??? Não faz sentido. Os pais compram os dois livros e a criança faz os dois!!!!
    Não me pode é proibir a mim de educar os meus filhos ou filhas da forma que eu entendo que é a correcta e de ter as opções para as minhas preferências.

    1. As opções e preferências devem ser primordialmente as dos seus filhos e não as suas. O seu papel é o de orientar os seus filhos para a liberdade de pensamento, de atitude pela forma mais abrangente possível, dando-lhes esse exemplo de liberdade e inteligência. No mais, eles saberão, como todos nós, escolher o caminho. E é só isto que está em causa com estes livrinhos do tempo do Salazar.

  10. A verdade é que o problema (chamo-lhe problema porque para mim se trata, efectivamente, de um problema) não são tanto as cores. O problema é que a menina ajuda a preparar o lanche, enquanto o menino constrói um robot. Há algum mal nisso? Não haveria nenhum, se vivêssemos num mundo onde pudesse ser assim ou… vice-versa. Mas não é “vice-versa”, é só… assim. À mulher a cozinha e os trapinhos, ao homem o exercício físico e a engenharia. Isto não ajuda a esbater desigualdades de género, que me incomodam tanto mais quanto sou mulher. Há desigualdade no papel que se atribui a cada um dos géneros, e essa desigualdade penaliza a mulher, que é quem continua a passar mais tempo de volta das tarefas domésticas e menos progride na sua vida profissional. Isto resolve-se com livros verdes, laranja ou amarelos (está a ver?, não é preciso dramatizar tanto a escolha das cores, há imensas opções para fugir ao azul e rosa)? Não. Mas resolve-se com exemplos que ajudem a abandonar estereótipos. Há muita coisa engraçada para sugerir às meninas e aos meninos sem estarmos sempre com os mesmos exemplos estafados de ajudar na cozinha ou ir jogar à bola.

    1. Cara Filipa, como disse defendo o acesso de toda a gente às profições que bem entendem. Eu cresci com pistolas de fulminantes e metralhadoras de brincar. Fiz tudo para não ir á tropa, e não fui. Vivo rodeado de tachos e panelas. Gosto de ver mulheres toureiras e já aprendi muito com engenheiras. Mas diga-me, sinceramente, acha que hoje em dia alguma rapariga não segue engenharia porque o pai não deixa?

    2. Caro Adriano, sou espanhol e o meu português não é perfeito. Desculpe por isso.

      Eu acho que a discriminação hoje não quer dizer que os pais forcem aos miúdos a seguir uns estudos ou outros, senão perpetuar uns estereotipos que vão na linha que Filipa estava a comentar. Se uma menina vê que as mulheres do seu entorno são cabeleireiras, empregadas de limpeza, ou hospedeiras, é mais provável que pense que é um caminho reservado para elas. Nem em Espanha nem em Portugal há já barreiras legáis para que as mulheres estudem e trabalhem no que elas prefiram, mas ainda falta tempo para que isto se converta numa igualdade real. E não quero dizer com isto que tenha de haver um 50% de homens e mulheres em cada profissão (isso parece-me absurdo), mas também é obvio que elas estam infra-representadas em conselhos de administração e outras instituções que exercem o poder real ou tem grande influencia social.

    3. Adriano:
      “Mas diga-me, sinceramente, acha que hoje em dia alguma rapariga não segue engenharia porque o pai não deixa?”

      Sim, há hoje em dia raparigas que não seguem engenharia porque o pai, ou a mãe, ou os avós não aprovam.
      Ou porque ela mesma não considera que seja um tema interessante, por não conhecer nenhum exemplo de mulheres de sucesso nas profissões ligadas à engenharia, por não querer estar rodeada só de rapazes, etc etc. Veja-se o caso gritante da engenharia informática.
      É bastante naïf assumir que esse assunto já está resolvido e as escolhas educacionais ou professionais de raparigas e mulheres se encontra livre de estereótipo…
      A mesma história é válida para homens: quantos homens escolhem estudar enfermagem? quantos homens escolhem ser educadores de infância? quantos homens escolhem ser dançarinos de ballet? etc etc

    4. Alexandro, sim isso é verdade. Também estão sub-representadas na construção civil, na polícia, na recolha do lixo e muitos outros casos. Para quando um movimento para atrair as mulheres para a HONROSA e INDISPENSAVEL profição de cantoneira?

    5. Caro Alexandro, penso que o seu comentário sintetiza na perfeição a situação. E de facto, é a grande disparidade de acesso a posições de influência que torna aceitável a imposição de quotas para mulheres em alguns casos. Já abordando os exemplos apresentados pelo Adriano, o caso das forças armadas e forças de segurança é paradigmático da necessidade de intervenção política no sentido de permitir o acesso das mulheres a estas áreas, bem como dentro de cada organização no acesso a diferentes funções. De resto, como bem diz é necessário atrair as mulheres a essas áreas (coisa que as forças armadas foram forçadas a fazer, devido à escassez de candidaturas – veja por exemplo o evoluir da representação do “militar” nos meios de promoção das candidaturas às forças armadas. A meu ver isso decorre do facto de culturalmente não serem ocupações associadas a mulheres (embora no município onde resido haja quase paridade de género na recolha de lixo, por exemplo).

  11. Não poderia concordar mais. O que é importante é igualdade de oportunidades independentemente do género. Igualdade de género é uma estupidez e uma contradição por natureza. Olhe até já ouvi (acredita-se ou não) que o sexo é uma construção cultural. Como se rebate esta ideia absurda? Se preciso mostrar a genitália, explicar que o homem não tem útero nem ovários, que as hormonas estão em proporções diferentes??? Eu sinceramente fico baralhado e incrédulo com estas afirmações. Outra coisa que me irrita é afirmar que o sexo é um espectro. Ora termos 49,9% de um lado e 49,9% do outro e efectivamente uns 0,2% espalhados entre estes dois pontos não tornando sexo um espectro, são apenas dois polos e uns pontinhos no meio. Para ser um espectro teríamos uma pontinha de homens outra pontinha de mulheres e uma grande massa de transsexuais. Como sabemos isso não existe.

    1. Adriano, parece-me que está a misturar os conceitos: o ser humano nasce com órgãos sexuais que determinam o seu sexo (feminino ou masculino). O género, ser homem ou mulher, é que se considera uma construção social porque consiste na assumpção de que se adquire determinadas características de personalidade consoante os órgãos sexuais. Características essas que vão determinar o papel social que cada género desempenha. Por exemplo, atribui-se, por via da maternidade, que as mulheres possuem características cuidadoras, atribuindo-se esse papel cuidador na sociedade (educadoras de infância, enfermeiras, assistentes sociais, etc.) ao sexo feminino. Pergunto: uma mulher que bebe cerveja, senta-se de pernas abertas e gosta de futebol é um homem? E um homem que gosta de ficar em casa, fazer costura e cuidar de idosos, é uma mulher? A verdade é que gostar de futebol, de cerveja, de costura e de cuidar de idosos é uma característica humana, transversal aos dois sexos, não são gostos determinados pelos órgãos sexuais.

      Ora, isto não passa de uma construção: os órgãos sexuais não determinam as características da personalidade, caso contrário todas as mulheres teriam uma certa personalidade e os homens outros, sem excepção. Em meu entender, as características do ser humano são transversais: há homens e mulheres cuidadores; há homens e mulheres corajosos; há homens e mulheres sentimentais; há homens e mulheres frios e distantes, por aí fora. Creio ser muito difícil determinar exactamente o que é ser homem ou ser mulher sem recorrer a estereótipos do passado e na dominação de um género pelo outro.

      A principal diferença entre os sexos reside na função reprodutiva após a puberdade. Deste modo, dificilmente se entende que, para crianças dessa idade (e mesmo depois), tenham de ser educadas segundo este padrão. Todas as crianças são seres humanos xx ou xy (fora os casos de hermafrodismo e outros). A personalidade, o papel social e a sua profissão não devem ser determinadas inculcando uma certa visão binária e construída do que se pensa que um homem ou mulher devem ser sob pena de se limitar um leque de opções.
      Vejamos, existem ainda uma contradição, se as características e papéis sociais estão tão “naturalmente” definidos pelos órgãos sexuais, dificilmente seria necessário repetir o esterótipo até à exaustão desde que os bebés nascem, comprando o livro azul para o menino e para menina o livro cor de rosa, com toda a simbologia que isso comporta. Posto isto, repare-se que os pais continuam a ser livres de o fazer, mas ao contrário não se verifica. Os pais que queiram objectos neutros do ponto de vista do género não têm o mesmo leque de opções.

    2. Sofia, o sexo é definido na concepção, existe, como sabe, diferenças também na gestação e quando se nasce a probabilidade de não se ser homem ou mulher é muito baixa. Na minha opinião o sexo condiciona em média alguns (dos muitos) traços de personalidade. De tal maneira que define “um género”. Não me parece ser uma construção social o facto de em média, as mulheres preferirem profissões relacionadas com as pessoas como bem referiu a enfermagem a medicina as ciências sociais a biologia etc e os homens as profissões relacionadas com as coisas como a engenharias ou a canalização (por exemplo). A testoterona é uma hormona que condiciona muito os comportamentos. Aceitar mais riscos ou ser-se mais agressivo parece estar fortemente correlacionado com a testosterona. E as diferenças são inúmeras, mesmo a nível cerebral existem diferencas sexuais e em média mulheres e homens demonstram apetências diferentes: pergunte-se a uma turma mista para listarem todos os sinónimos de “casa” que conseguirem em 5 minutos. Vai ver as moças em média a conseguir três e quatro vezes mais sinónimos que os rapazes. Junte raparigas de 12 anos (maiores e mais fortes que os rapazes) com rapazes de 12 anos e mande-os atirar uma pedra. Vai ver as pedras dos rapazes em média chegam mais longe e que as lançam de maneira completamente diferente das raparigas. As diferenças existem desde a nascença. Uma sociedade inclusa respeita as suas margens e assegura-lhes os mesmos direitos dos outros apesar das suas diferenças não força metade da população a assumir tarefas que não as realizam em nome de uma “igualdade” ideológica.

      Outra coisa é que se pode agrupar e correlacionar a população como se quiser. E os bonitos terem a vida facilitada em relação aos feios? Acha bem? E os inteligentes ganharem mais que os menos inteligentes? Acha justo?

    3. Caro Adriano, as diferenças de facto existem desde o início, mas na minha opinião há vários problemas com a sua argumentação.
      Até ver as diferenças não determinam a personalidade de cada indivíduo nem a sua aptidão para tarefas complexas (ao contrário das proezas atléticas, mais particularmente as que exigem maior força muscular) – a questão dos gostos ou afinidades (penso que sei a que estudo se refere) não procura quantificar a capacidade de indivíduos dos diferentes géneros para desempenhar as funções. Depois, mesmo tendo em contas as diferenças iniciais, a sociedade amplificará (no mínimo) essas diferenças. Isto é muito fácil de aferir historicamente e não precisa de recuar muito no tempo para verificar que essas pressões eram aplicadas de uma maneira mais explícita, sendo no essencial muitas dessas ideias predominam. E não atingem só as mulheres. Por outro lado há uma significativa variabilidade entre indivíduos do mesmo género, o que faz que mesmo se considerarmos as “diferenças de aptidão” de que falou sejam em grande medida sobreponíveis entre muitos indivíduos de géneros diferentes. As “aptidões” que referente estão muito longe de ser estanques portanto. Durante o meu percurso académico as pessoas mais competitivas com quem me cruzei eram mulheres, as pessoas com mais capacidade de raciocínio lógico e abstrato eram mulheres, também alguns dos melhores condutores de automóveis que conheço são mulheres (tanto a nível de destreza como de orientação espacial) – “apetências” atribuídas a homens portanto. Isto são só alguns exemplos, se olhar em seu redor tenho a certeza que também os encontrará. Deve ainda considerar que as pessoas podem procurar desenvolver ou treinar as suas competências, o que faz com que as capacidades individuais transcendam em muito o que seria definido apenas pelo seu “género”.

    4. Cara Sofia Gomes,
      Nasce-se com identidade homossexual, hetero, ou bi? Ou são tudo construções que se adquirem culturalmente e (como as correntes ultramontanas pretendem) passíveis de ser “corrigidas” através de educação ou doutrina?

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