Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

25 de Agosto de 2017, 10:46

Por

O partido da plutocracia em Angola

Enquanto decorre a contagem dos votos em Angola e o apuramento se transforma num imbróglio, o MPLA clama vitória anunciando uma perda de quase 10% em relação a eleições anteriores, mas mantendo uma margem confortável. Se se confirmarem esses resultados e o novo presidente aceitar o seu papel, a dinastia Dos Santos continuará no poder: o pai como presidente do partido, controlando as nomeações nas forças armadas e segurança, os filhos à frente dos pilares do negócio do petróleo.

O que está em jogo é um imenso império que fez com que Isabel dos Santos se tornasse a mulher mais rica de África (ao Financial Times ela resumiu a sua história empresarial explicando que já aos seis anos vendia ovos, mas o antigo primeiro-ministro do MPLA, Marcolino Moco, ri-se e explica que “toda essa fortuna vem do facto de o pai ser a lei”), enquanto se descobre que um destacado general transferiu 300 milhões de dólares pelo BES do Dubai e que um vice-presidente cessante é acusado de comprar os serviços de um magistrado português.

A corrupção da cúpula angolana é o que define o seu poder. Mas o governo de um país que é dos grandes produtores de petróleo do mundo tem vastos recursos, utilizando Portugal como um centro de lavagem de dinheiro e de reciclagem de influência. É esse poder e influência que suscita espantosos equívocos, descontando mesmo o entusiasmo de um ex-ministro do PSD e consultor do governo angolano que compara Dos Santos a Mandela.

O roteiro do equívoco é evidente: o PCP é o partido que mais se identifica com o MPLA, mas o MPLA é parte da Internacional Socialista com o PS; entretanto, o MPLA virou-se para o PSD e o CDS (escrevia o órgão do regime que Paulo Portas é “um grande amigo do país, que está a ser lançado para liderar a direita portuguesa em caso de as coisas correrem mal à atual coligação, o que mostra que é possível, afinal de contas, um entendimento com Portugal”, Jornal de Angola, 4.2.2013).

A razão desta identificação ideológica e política com a direita portuguesa tem uma razão (a elite angolana assumiu a sua passagem do “marxismo-leninismo” para os encantos do capitalismo) e um efeito (facilitar a máquina de lavagem de dinheiros). Estão por isso irmanados com a direita neoliberal. Depois de ter lutado pela independência contra o colonialismo português, depois de ter ganho a longa guerra civil contra a UNITA, o MPLA passou a ser um instrumento de acumulação de capital para as famílias dominantes – e anunciou que era mesmo isso que pretendia. Percebo por isso o incómodo dos que aligeiram a sua bênção ao regime angolano com a reclamação do respeito pela soberania nacional, como se esse direito inalienável do povo angolano a escolher o seu destino obrigasse a fazer vénia aos plutocratas que pilham Angola – e que não respeitam outra soberania que não seja o seu próprio enriquecimento à custa do seu país.

Ora, do que certamente não se pode acusar Dos Santos e a sua família é de esconderem essa escolha. Num discurso ao parlamento, o presidente explicou que “A acumulação primitiva do capital nos países ocidentais ocorreu há centenas de anos e nessa altura as suas regras de jogo eram outras. A acumulação primitiva de capital que tem lugar hoje em África deve ser adequada à nossa realidade. A nossa lei não descrimina ninguém. Qualquer cidadão nacional pode ter acesso à propriedade privada e desenvolver atividades económicas como empresário, sócio ou acionista e criar riqueza pessoal e património” (discurso no parlamento, 16.10.2013). O Jornal de Angola já tinha resumido este processo de acumulação: “as riquezas do Estado passaram para as mãos de privados, desde as casas onde viviam até aos espaços comerciais, às fazendas, propriedades industriais, minas e tudo o que era estatal”. De forma ainda mais lapidar, o jornal oficial anuncia que “Angola tem direito a ter uma burguesia nacional que seja cada vez mais forte e mais rica” (JA, 26.11.2012).

Esta “burguesia nacional”, “cada vez mais forte e mais rica”, reclama vitória nas eleições angolanas para continuar o seu negócio. Percebo que haja quem em Portugal se vanglorie com essa extorsão a Angola, mas por favor não finjam que é por solidariedade e respeito pelo povo que é roubado.

Comentários

  1. O caro Louçã está com dificuldades em aceitar a diversidade e especificidade africanas.

    Se os africanos quiserem perpetuar o seu sistema de sobas, em que a população e o país pertencem ao soba, o que é que o caro Louçã tem a ver com isso?

    Desde quando a dita “democracia feirante” da europa bárbara germânica (em que elegem o organizador da feira e não o organizador da sociedade) é um sistema válido?

    Aliás, que percebe a actual europa germânica de democracia? Quando é que Smith ou Marx estudaram a democracia? Nunca, não falam sequer de democracia mas sim de organização da feira.

    Na europa fazem eleições para escolher um capataz de feirante (a que chamam partido) cuja função é obrigar a todos a cumprir as regras da feira medieval (as regras de submissão aos tais “mercados”). Que moral tem esta europa para falar de democracia?

    Os partidos não actuam para instaurar o civismo, actuam para perpetuar a feira medieval (“mercados”), actuam para manter o poder dos feirantes sobre a população. Que moral tem esta europa?

    Os “partidos” apresentam abertamente, sem qualquer rodeio ou pudor, ideologias germânicas de feira, para mantimento da feira sobre as populações. Os “partidos políticos” europeus revelam abertamente que são instrumento de imposição da feira germânica (direita ou esquerda) à população.

    Que moral tem esta Europa ignara, feirante, para falar dos africanos?

    Nesta europa são todos obrigados a andar com senhas de autorização feirante (dinheiro, o instrumento do poder feirante sobre a população) a vida toda. São todos obrigados a pagar essas senhas, têm de pedir e pagar a autorização dos feirantes para tudo, durante a vida toda… onde está a democracia na europa caro Louçã?

    Os “mercados” existem tanto na áfrica como na europa, e isso revela que estão no mesmo nível de atraso.

    Quando os europeus tiverem um exemplo melhor, os africanos irão copiá-los. Até lá copiam a miséria da europa bárbara, copiam a miséria da europa feirante, à maneira africana.

    A África copia, portanto preocupe-se com quem dá o exemplo copiado: a tal europa da “democracia feirante” dos boçais germânicos.

    1. Pois. mas o tal coiso de “sistema de indexação de meios” é que nunca foi explicado. Tá bem que a gente não merece. Até compramos o que comemos nas mercearias e supermercados! Não somos dignos!

    2. Na cultura grega as famílias tinham a propriedade privada da terra, mas não tinham a propriedade da colheita. Indexavam a colheita à actividade de comerem todos juntos na pólis. Ficava absurdo roubar ou chantagearem-se (negociar) com a colheita quando, depois, ela ia parar ao mesmo banquete onde participavam todos. Economia era um dos efeitos de viverem, literalmente, em sociedade.

      A base cultural determina a forma como a indexação dos meios é feita numa população.

      A sanidade cultural é que permite a existência de um sistema de indexação de meios saudável. Sem ter esses elementos, da fisiologia interna de um corpo social, saudáveis não há como obter ausência de problemas sociais (saúde social). É uma questão de regras de saúde social da espécie humana, e não de ideologias de feira e afins crenças medievais. A realidade não se rege por ideologias, quem sonha está a dormir.

      Quando um “corpo social” padece de parasitose os meios são indexados aos parasitas. É o que se observa numa população que padece de parasitose feirante (os meios são indexados ao acaso das vontades e jogos dos parasitas feirantes, os tais “mercados”), tal como se observou com a parasitose bélica (os meios eram indexados em função das vontades dos parasitas bélicos, a tal “nobreza”).

      Portanto caro Dias, que importa a indexação de meios numa população que padece de parasitose feirante? Que importa falar de regras de saúde a um caso de parasitose terminal?

      A barbárie ocidental padece de ignorância e respectiva insalubridade cultural. E isso resulta nesta imundice, onde vigoram os parasitas e respectivos sistemas de indexação de meios patogénicos (suportam a parasitose e destroem o corpo social). E claro, a medieval universidade a pregar os benefícios da insalubridade feirante.

      “Mercado” é uma desordem de pobres, assente em crenças de pobre e deformações comportamentais da pobreza (carência é a base dessa tal oferta/procura). “Mercado” é uma desordem insalubre de pobres, que resulta na proliferação de parasitas feirantes: os parasitas dos pobres.

  2. Excelente artigo de opiniao alias, como sempre o senhor quando escreve vai a fundo e eh um alimento le-lo. um reparo no seu artigo. Dos Santos desde ha muito financia Neves e o PAICV de Pedro Pires e fizeram de gentes boas, como boas pessoas que sao para observarem a causa justa destas eleicoes.
    Ja o Portas recordemos com saudade aquando da morte de Savimbi tenha ditto no espaco noticioso da RTP que Dos Santos esta “com as maos sujas de sangue” quando este visitou Portugal. Pudera agora as maos estao verde de dollars, diga-se

  3. Opiniao execelente opiniao, alias, como sempre. Um reparo: a extensao do capital dos felizes de Angola enriqueceu e muito os seus afiliados do PAICV em Cabo Verde. Neves e Pires, opostos ideologicamente estavam saudando o rei e o novo rei e a causa justa dessa eleiocao plural.

  4. Você tem é claro razão na descrição da plutocracia primária e descarada que alimenta a formação de oligarquias angolanas. Recordo as mesmas entre nós no seu próprio excelente estudo “Os Burgueses”. Sem menorizar a profunda injustiça social e moral que ambas representam, ficou fora das suas contas um aspecto que a mim se afigura determinante na previsão de quem vai lavar o quê a quem comentado no artigo do NYT: ao contrário de Portugal, Angola é um país autodeterminado. Enquanto que nós decaimos no clientelismo nacionalizado a uma máquina desenhada para a plutocracia transnacional – a UE. No final da nossa plutocracia intergeracional, ao contrário de Angola, nem oligarquias sobrarão.

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