Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

24 de Agosto de 2017, 08:58

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Tolerância, fanatismo e indiferença

Perante actos bárbaros de terrorismo, sempre se coloca a questão, jamais resolvida, dos limites da tolerância, ou de outro modo, da fronteira entre tolerância e intolerância.

A tolerância é fundamentalmente a expressão da aceitação da diferença face a uma determinada regra moral, religiosa, cultural, social. Com a mistura de diferentes (para não dizer opostas) concepções de vida em sociedade, a primeira condição necessária, ainda que insuficiente, para uma tolerância sadia é a de, pacificamente, se concordar em discordar.

O principal teste ao grau de tolerância de uma sociedade tem sido, ao longo da história, o que se relaciona com a atitude perante confissões religiosas ou práticas tradicionais, diferentes na raiz cultural, na fé e na sua praxis. A tolerância exige uma reciprocidade, ou seja, torna necessária a inclusão promovida pela sociedade e a inserção desejada pelos incluídos. A esta soma de atitudes se chama participação, isto é cada parte no todo e ninguém fora do todo. O que, hoje, vemos preocupantemente são situações de recusa de inclusão de um grupo por uma determinada sociedade e situações de grupos que rejeitam as regras básicas de inserção e respeito pela sociedade que os acolhe.

Há, porém, um limite para a tolerância: a ditadura da intolerância. Não é possível ser tolerante para quem só transpira intolerância. Sobretudo a que se exprime por acções violentas e extremistas. O fanatismo – seja em que domínio for –  é o caminho certo para a proliferação da intolerância. Como escreveu o escritor americano Oliver W. Holmes, “a mente do fanático é como a pupila dos olhos: quanto mais luz recebe mais se contrai”. Outros inimigos da tolerância são o radicalismo fundamentalista e absolutista e o relativismo endémico que corre o risco de se confundir com uma falsa tolerância corrosiva e diluente, onde nada vale porque tudo parece valer. Do relativismo à indiferença vai um pequeno passo. E a indiferença – ainda que, por vezes, disfarçada de um fugaz e mimético apego, que a catadupa noticiosa do quotidiano rapidamente esmorece ou anula – é o pior dos males civilizacionais.

O que o radicalismo aproveita, a indiferença semeia: o relativismo.

O que o radicalismo banaliza, a indiferença desvaloriza: o mal.

O que o radicalismo avilta e corrompe, a indiferença escarnece: a memória.

O que o radicalismo desvia para o mal, a indiferença deixa instalar como fim supremo: o dinheiro.

O que o radicalismo finge combater, a indiferença trivializa: a corrupção.

O que o radicalismo anula, a indiferença corrompe: o respeito pela Vida.

O que o radicalismo perpetua, a indiferença anestesia: a pobreza.

O que o radicalismo jamais tem, a indiferença mediatiza e nivela qual “sentimento único”: a compaixão

O que o radicalismo fanatiza por excesso, a indiferença desconsidera por defeito: a religião.

O que o radicalismo usa demoniacamente, a indiferença tornou dispensável: o transcendente.

Não admira, neste contexto, a coligação negativa entre o radicalismo pretensamente teocrático e a indiferença individualista. Os extremos, embora não se fundam, tocam-se. De um lado, um obscuro e insuportável moralismo; do outro, um neutral, estéril e asséptico amoralismo. O que prova que, em ambos os casos, aquele moralismo e este amoralismo nada têm a ver com a ética universal baseada na centralidade e dignidade inalienáveis da pessoa e na promoção do bem comum.

Tolerância zero para o fanatismo e para a indiferença. Mas também para as suas consequências de banalização do mal e de publicidade ad nauseam oferecida aos intolerantes e aos actos de terrorismo.

 

Comentários

  1. E será que as pessoas perderam a capacidade de conversar umas com as outras? de saber ouvir? de tempo para pensar? Ou por outra,em menos tempo que um fosforo a arder,já conseguiram arranjar uma “polémica” com o Chico Buarque? Claro que a entropia e a super velocidade de informação,criaram uma grande confusão,isso sim.

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