Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

22 de Agosto de 2017, 01:10

Por

O gambozino da maioria absoluta

Que há quem garanta que os gambozinos existem, é ponto assente; mas que nunca foi caçado tal bicho, parece mais do que certo. Descontando as inquietações popperianas sobre a dificuldade de refutar a primeira hipótese, resta o problema maior para os duvidantes: devemos caçar gambozinos na presunção de que existem ou de que não existem? A questão complica-se ainda mais para quem sustenta que a inexistência de provas documentadas sobre alguma aparição do animal sugere que se trate de uma ficção. Então, a questão passa a ser: devemos aceitar a ideia da caçada que tomamos por pueril ou devemos recusar o jogo, ainda que algum dia pudesse ser provado que a ausência do registo do bicho foi descuido nosso?

A questão da maioria absoluta é mais ou menos como escolher com que estado de espírito se devem caçar gambozinos. Se tomamos por certo que não haverá maioria absoluta possível na actual configuração da relação de forças, então nem vale a pena considerar a fera. E há boas razões para tal agnosticismo: para uma maioria absoluta, o PS teria de comprimir o PSD muito para além do seu mínimo histórico, mesmo considerando que o CDS já está enfraquecido. Então, a única questão interessante passa a ser: porque é que se fala de coisa nenhuma e se discute uma inviabilidade, ou porque é que nos entretemos com uma veleidade gabozinesca?

A resposta pode ser: não interessa a fantasiosa maioria absoluta, interessam os motivos para se falar dela. Exemplo, para o director do Expresso é preciso que o PS tenha maioria absoluta para então ser mais pressionado do que agora. O raciocínio é decerto contraditório com a experiência dos eleitores: eles sabem que se o PS tivesse tido maioria absoluta teríamos tido pensões congeladas por mais quatro anos, redução nas pensões sociais (o previsto era 1020 milhões) e uma nova regra para facilitar despedimentos, pelo menos. O problema não é de pressões, é de realizações.

O director do PÚBLICO segue outra via e pergunta-se se a entrevista recente de Costa, sugerindo um pacto com o PSD depois das autárquicas para decidir fundos estruturais, é mesmo uma abertura a um novo bloco central e portanto a uma maioria absoluta que “só será possível se for construída por quem tem ideias semelhantes sobre como funciona a economia livre, num mercado europeu e cada vez mais global e competitivo.”

Desculpem a franqueza, mas são gambozinos. Nem haverá pacto, cujo enunciado é o tradicional jogo do empurra das culpas, nem haverá vontade de mudar de parceiro a meio do tango. Haverá mais dificuldades nesta segunda metade do mandato, isso tratarei proximamente, mas ninguém pode voltar para trás. É aliás por causa desta certeza que alguns preferem sonhar com a maioria absoluta, reconhecendo que nada podem fazer agora contra as condições que impuseram esta forma de maioria.

Para o PS, a maioria absoluta é também um gambozino: é evidentemente desejada, mas para jogar esse jogo tem de garantir que não conhece o bicho. Ora, vale a pena perguntar porquê. Qualquer enlevo do PS com essa ideia faria ressuscitar os temores de muitos dos seus eleitores, e mais ainda daqueles que precisa de ganhar para concretizar tal ambição, de que o PS volte ao seu programa e à sua política tradicional. Ou seja, para muitos eleitores do PS, a satisfação com a governação actual deriva essencialmente da certeza de que as circunstâncias excepcionais obrigaram o PS a um acordo com a esquerda. E uma maioria absoluta do PS significaria romper com esse acordo para voltar a um passado que assusta.

Assim, a equação gambozino passa a ser: o PS sabe que só conseguiria a maioria absoluta que lhe permitiria afastar os seus parceiros de esquerda se garantisse aos eleitores que nunca o faria e que, se tivesse o poder absoluto, nunca cumpriria o seu programa, antes continuaria submetido a esse mesmo compromisso que pretenderia romper. Gambozinos, portanto.

Comentários

  1. Não gosto de Louça nem da maior parte das ideias que escreve. Contudo reconheço-lhe lucidez nos escritos e nos livros . Reconhecer que o PS fosse em 2011 fosse em 2915 se tivesse maioria absoluta teria copiado o que fez o PSD só demonstra lucidez porque facto era impossível fazer melhor. Esconder o sol com a peneira é o que o PS fez ou seja em vez de aumentar impostos directos aumentou os indirectos e além disso aumentou as cativações.o povo como é financeiramente inculto é só ver o que lhe interessa aplaudiu sem perceber que a política final era a mesma feita de outra maneira. Também teve sorte pois a economia da Europa melhorou e o turismo nem se fala . Foi obra do Governo ? Só para rir

  2. Que força tem bloco e PCP ? Não podem fazer muito o povo não acredita nesses partidos, vamos a votos a percentagem é ridícula , parece o futebol é sempre os mesmos a nos enganar,é o povo está contento e feliz.quanto mais me bates mais gosto de ti .

  3. Desculpem-me, mas os gambozinos existem. Não precisava de nehuma convicção de que é verdade para ir à caça dos ditos. mas não vou, porque sou, por pricípio, contra a caça.

    Eu nunca provei nenhum, mas sei que são comestíveis. E são “gourmet” em restaurantes dirigidos por “chefs” de três estrelas “Michelin” para cima. Basta ver fotos daqueles pratos de cozinha molecular para concluir que aquilo não pode ser outra coisa que gambozino.

    E os chefs já nem precisam de ir à caça (sim, porque chef que se preze tem de supervisionar pessoalmente a recoleção, sob pena de ficar sem estrelas). Conta-se que, lá na herdade da Comporta, há muito tempo que existia, obviamente em grande segredo, um aviário gambozínico. Na iminência da falência, terão sido enviados pelos donos para paraísos petiscais.

    Deve ser a partir de espécimes dessa casta que terão restado por cá que surge o “maioria absoluta”, um gambozino pouco comestível, mas dotado de uma espécie de inteligência parola que o torna amestrável. Pelo menos, há quem pense que sim.

    Um conselho aos gambozinófilos do PS (liderados pelo conhecido comentador eurogastronómico Francis Assis): deixem-se de gambozinos, não há nada como um bacalhau com batatas, numa boa tasca!

  4. Nunca a definição de “VOTO ÚTIL”, será tão útil para os portugueses.

    Se é verdade que votar neste PSD-CDS é perigoso (além de fanáticos e extremistas neoliberais, o PSD parece querer adoptar a agenda racista de Donald Trump), os portugueses também sabem que é perigoso dar todos os votos ao PS. Daí que votar CDU e BE será mais útil do que nunca, mesmo que não gostemos desses partidos.
    Nem vale a pena voltar a informar os portugueses sobre o que acontece caso o PS tenha maioria, ou se una ao Bloco Central com PSD-CDS.
    O PS vira automaticamente à direita, voltando à velha fórmula da chantagem, medo e terrorismo social com os portugueses, sob as famosas siglas das “Reformas”, “Desígnios”, etc, para disfarçar “negócios” mal explicados e amanhados (vulgo portos na margem sul do Tejo que ninguém quer nem pediu, excepto meia dúzia de snobs, imobiliárias e construtores ligados ao PS de Jorge Coelho, ou a continuação de PPPs já arriscadas na saúde neste governo com a bênção do Presidente). O costume.

    Os políticos, todos, perdem a memória aquando no poder, e António Costa não é excepção. A diferença é que essa memória não é memória porque é presente. Onde é que estão os partidos socialistas europeus, depois de virarem à direita? Transformaram-se na Virgem Santa Macrón? Se as eleições fossem hoje, ele perderia, segundo as sondagens…
    Uma maioria do PS, pode significar o fim do PS (até antes do PSD, se o PSD não mudar de agulhas).

    Mas alguém em Portugal acha que este pequeno sucesso, crescimento, e paz social, que vivemos hoje em Portugal, se deve somente ao PS e Marcelo, mesmo louvando todo o esforço!??

    Ainda bem que António Costa mexeu com a política, no meio do Verão e com tantas adversidades. Também é útil, porque eu, simples treinador de bancada, mas também vários jornalistas afectados pela estranha calmaria (o que mais me impressionou foi Paulo Baldaia, após a entrevista a Marcelo), já estava a entrar em depressão e tive que rever este vídeo, para me conseguir manter vivo:

    https://www.youtube.com/watch?v=51R4pkihXv0

  5. A mim parece-me que é preciso dar a ideia da possibilidade da quadratura do círculo, do dois em um ou do jackpot com meia dúzia de tostões, pela convergência de dois desejos:realmente antagónicos que poderiam contribuir para a maioria absoluta do PS: continuar sem austeridade, apresar do PS não pôr em causa os tratados com a União Europeia, e afastar a influência do PCP, do Bloco e do PEV na governação. Sendo o PS um bastão seguro da “ordem” capitalista, por vezes mais eficaz que o PPD-PSD, teorias das conspirações à parte, isso explicaria o actual “silêncio” de Cisco de Assis e o inédito de Passes de Coelho ter continuado e continuar formalmente à frente do PSD apesar de derrotado nas eleições legislativas e da narrativa da carochinha de as ter ganho … na bancada e para “inglês” ver.

  6. Para quê votar BE e PCP ,se vêm mostrando que uma só “esquerda” ?.A que odeia Passos Coelho,porque é um politico “apolitico”.Só se fôr haver menos impostos exigidos pela Mortágua,ou menos greves ,agora com o “tigre de papel” Aeménio a segurar as tropas.Mas,um PS maioritário dispensa isso e pode regressar às reuniões europeias mais claro(mesmo com o Costa)

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