Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

21 de Agosto de 2017, 08:19

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As árvores (nem sempre) morrem de pé

Depois da tragédia no Funchal, o passa-culpas. O costume. Antes de tragédias quase anunciadas, o “queixa-andar”. Também o costume. No meio, conferências de imprensa para defesa própria. Ainda o costume. A saga do debate entre o “nada fazia prever”, o “já havia relatórios” ou, ainda, o “estava prevista a intervenção, mas não havia dinheiro” (entre fontanários e rotundas). Assim vamos andando, até que a erosão da memória quase tudo anestesie e pouco se aprenda.

Na tragédia humana do Funchal, discute-se, agora, de quem é o terreno da árvore mortífera. Ou se o carvalho sucumbiu por fungos ou de morte natural. Ou se ele se despenhou no meio das pessoas por causa de um ramo do plátano seu vizinho. Ou se a responsabilidade é da Junta de Freguesia, da Câmara Municipal de agora, da Câmara Municipal de antes, dos serviços regionais, da República, de mim ou de si, caro leitor… Também o costume, em Portugal apenas mudando os protagonistas e as evidências. E, ali, por azar não havia sequer um qualquer “Siresp” ou um operador de telecomunicações para apanhar no lombo todas as responsabilidades.

A árvore tombou desalmadamente, matando e ferindo. Embora não devamos generalizar o que não é generalizável, esta situação alerta para a falta de atenção para com as chamadas árvores  urbanas. Apesar da denúncia cívica de organizações da sociedade que lutam por uma acrescida consciência para o bom tratamento das árvores, infelizmente, pouco se lhes liga. Tomam-se medidas que agravam este estado de descuido e de incúria (ou, pelo menos, de ignorância ou incompetência). Por exemplo, em Lisboa, entre muitos aspectos positivos, como o de haver mais árvores por toda a cidade e parques, a responsabilidade da sua manutenção passou para as juntas de freguesia. Assim se perdeu a eficaz e sábia ideia de escala. Agora, cada qual faz como quer, e há sinais evidentes de que há quem não perceba patavina de cuidados com árvores (basta olhar para podas quase assassinas que se vêem aqui ou acolá ou para a secura extrema a que, não raro, estão sujeitas), como também não se substituem árvores mortas que jazem nos passeios. E os jardins botânicos estão sujeitos a uma penúria que faz dó. Há por todo o Portugal árvores classificadas de interesse público ou património nacional que sofrem tratos de polé, quase abandonadas à sua sorte.

Mas a responsabilidade não é apenas das entidades públicas. É também nossa. Não me refiro apenas aos maus-tratos que recebem de alguma gente que as olha (?) como de pedregulhos se tratasse, estorvando a manobra de um qualquer carro ou camião. Falo, também, da insensibilidade generalizada de quem nem sequer dá pela árvore que está junto de casa e para quem tanto faz como deixa de fazer a tal espécie. Não há cultura comportamental que lhes dê a devida importância e ninguém quer saber dos benefícios das espécies arbóreas em termos ambientais. Nem sabem, nem querem saber. Um desprezo absoluto.

Na atenção que as árvores merecem está, obviamente, o cuidado a ter com as que estão doentes fazendo perigar pessoas ou bens e as que vão morrer segundo a sua natureza e a lei da vida. Também importa erradicar más práticas de escolha de espécies completamente desajustadas da nossa tradição arbórea. Um caso evidente foi a invasão aparolada de palmeiras das Canárias (Phoenix canariensis) por todo o lado, para as quais um escaravelho vermelho (Rinchoforus ferrugineus) se tem encarregado de contribuir para repor a “normalidade arbórea” no Continente.

E se costumamos dizer que as árvores morrem de pé, ou seja, com dignidade, impõe a prevenção de acontecimentos danosos para as pessoas que algumas árvores também se abatam. No momento certo, antes que nos abatam a nós.

Comentários

  1. Ha mais gente preocupada com árvores do que parece. O problema principal é que a ignorância também abunda e não é só nas podas assassinas. Já vi protestos por retirar árvores que já estão mortas por exemplo. E sim há por aí cada junta cujas podas metem medo ao susto. Apesar desta questão das podas também mudar com frequência e ser uma técnica muito sujeita a modas.

  2. Caro Dr. Bagão Félix, concordo plenamente com o que escreve. Apenas uma pequena correcção: tecnicamente, as palmeiras não são árvores.

    1. Bem sei. Por isso, se reparar bem no texto nunca lhes chamei árvores. Apenas as associei entre aspas à normalidade arbórea. Por uma simples razão: as pessoas em geral veem a maior parte das palmeiras como arvores. De qq modo, muito obrigado

  3. Caro Dr. Bagão Félix, concordo plenemente com o que escreve. Apenas uma pequena correcção: tecnicamente, as palmeiras não são árvores.

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