Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

15 de Agosto de 2017, 16:17

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Dez anos de irresponsabilidade e outra vez na mesma

Disse-se a semana passada que foi a 9 de agosto de 2007 – portanto há dez anos – que se teria iniciado essa confusa sequência de acidentes e pânicos que viria a ser chamada a “crise do subprime”, primeiro, e Grande Recessão, depois. Não é exacto.

De facto, em fevereiro desse ano já tinha havido avisos: o HSBC, um dos maiores bancos do mundo, tinha subitamente aumentado as provisões para créditos em risco, precisamente por causa das hipotecas subprime nos Estados Unidos (que correspondem a devedores com garantias frágeis). No Verão, dois fundos especulativos do Bear Stearns, outro banco gigante, faliram graças a dificuldades no subprime. Então, a 9 de agosto, o BNP Paribas suspendeu os pagamentos em três fundos e esse foi o sinal de alarme para os bancos centrais em Washington e Frankfurt. Foi apesar de tudo uma surpresa: o papa da economia ortodoxa, Robert Lucas, laureado com o Nobel, tinha declarado solenemente que “a macroeconomia foi bem-sucedida: para todos os efeitos, o seu problema central de prevenção de depressões foi resolvido, e há já muitas décadas”. Isto foi logo antes da pequena crise de 2003 e da grande crise de 2007, o que o levou a reconhecer então, contristado, que “todas as semanas mudo de opinião quanto à regulamentação bancária. Era uma área que me parecia controlada. Já não acredito nisso».

Há várias lições destes acontecimentos, mais do que a imprecisão das datas. A primeira é a mais simples: isto pode acontecer de novo e por muitos motivos. O subprime foi só uma ignição. Esse mercado era um décimo do crédito hipotecário nos EUA e, no final, somente 4% registou incumprimento. Comparado com o mercado bolsista dos mesmos anos, isto corresponde a uma queda de pouco mais de 1%: um susto mas não uma tempestade. E foi um tsunami que resultou, pela simples razão de que as rendas pagas pelos devedores tinham sido empacotadas em sofisticados e opacos produtos financeiros, vendidos em esquema de pirâmide – isto resultava enquanto a euforia se prolongasse. Assim, o risco resulta da financeirização, da alavancagem, das entidades financeiras não reguladas, que foram cuidadosamente estimuladas e promovidas pelos reguladores, pelas leis e pelos banqueiros centrais ao longo de anos.

A segunda lição é que estes desarranjos têm mesmo efeitos na vida e nas economias. Foi a primeira vez nos séculos XX e XXI que uma recessão provocou uma queda absoluta do PIB mundial (no passado, a globalização era menor, o efeito de contaminação não era tão grave, e mesmo com crise nos EUA outras economias continuavam a crescer). No caso do Reino Unido, foi o quarto maior aumento de sempre da divida pública, só superado pelas guerras napoleónicas e pelas duas guerras mundiais. Não preciso de vos lembrar o que aconteceu à Grécia, a Portugal, à Irlanda e a Espanha.

Portanto, atenção. As novas bolhas imobiliárias (Londres ou Pequim), a pilha de dívida chinesa, a construção grotesca do euro e os sacrifícios que impõe na Europa, a cavalgada de Trump para uma guerra comercial e o crescimento dos juros impulsionados pelo orçamento norte-americano, as aventuras dos bancos-sombra para obterem lucros rápidos quando os juros estão próximos de zero, basta um destes factores de risco para desencadear um novo pânico financeiro. Só que estamos agora pior do que em 2007: quando nos aproximarmos da próxima crise, teremos mais desemprego, menores protecções sociais e juro tão baixo que há pouca margem para soluções de emergência. Vale a pena por isso um momento de sensatez quando se ouve os políticos neoliberais prometerem rios de leite e mel. Para eles, não correu mal, mas o que mede uma década perdida é que agora temos piores instrumentos para responder a uma crise do que havia em 2007 e os irresponsáveis têm mais poder.

Comentários

  1. Os juros baixos são de facto uma preocupação. Para além do mais geraram nos últimos anos um excesso de liquidez que está a ser injectado em sectores altamente especulativos: empresas tecnológicas de duvidoso retorno, bolsa chinesa, criptomoedas… A especulação imobiliária preocupa menos, está hoje focada em activos mais sólidos e os bancos já não emprestam tão facilmente às familias. Enfim, bem lembrado, o tsnumani não está longe: a Amazon tem um PER superior a 240, anda tudo louco.

  2. Há medidas tão fáceis que parecem até meias parolas. Obriguem os bancos a explicar tudo bem explicadinho. O tipo e tamanho de letra de todas as condições necessárias a ter um spread 0% deviam estar no tamanho do “0%”. Assim podia ser que não tivessem tanta facilidade em enganar o cliente. Os sector bancário tem que estar mais regulado. Não deixem os bancos brincar com dinheiro a fingir. Não deixem os bancos emprestar dinheiro uns aos outros. Não falem em “activos tóxicos” “comprar dívida” “sub prime”. Falem em “pedir dinheiro emprestado”, que é o que se faz quando se quer gastar mais do que se tem. Acabem com o “financeirês” que só serve para disfarçar esquemas esquisitos. Quanto à política, prefiro alguma austeridade a anos de festa socialista… que só dura até aparecer o banco à porta a pedir o dinheiro de volta.

  3. Acho que já nem há políticos “neoliberais”… Se é que alguma vez houve! Temos a Angela, é o que se arranja. Ela, ao contrário do mundo socialista disfarçado de capitalista, está preparada para resistir a qualquer embate que possa ocorrer nos próximos anos. Portugal precisa apenas de uma brisa para chegar ao seu porto de destino: Atenas. Estou convicto de que não falharemos. Era preciso? Não, não era.

  4. O seu artigo é tão atual neste momento, como daqui a outros dez anos… Lamentavelmente!…
    Parece-me oportuno, reforçando a sua visão e interpretação, citar Paul Valéry:
    ‘Os povos felizes não têm história’. De onde se infere que a supressão da história tornaria os povos mais felizes. O menor olhar sobre os acontecimentos deste mundo reencontra essa mesma conclusão. O esquecimento é o benefício que a história quer corromper. Nada, na história, serve para ensinar aos homens a possibilidade de viverem em paz. É o ensino oposto que dela se destaca – e se faz acreditar.
    Ou, dito de outro modo, menos ironicamente e, talvez, mais tecnicamente:
    Desta vez é diferente (de Carmen Reinhart & Kenneth Rogoff)
    Em síntese, será sempre diferente e nunca aprenderemos com a História!…

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