Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

30 de Julho de 2017, 09:27

Por

Um verão estranho

Este está a ser um verão difícil para Portugal. Os incêndios habituais marcados, infelizmente, por uma tragédia sem precedentes em Pedrógão Grande e o roubo de armamento em Tancos sobrepõem-se a boas notícias na frente económica.

Em particular, os últimos dados do INE sobre a taxa de desemprego constituem excelente notícia, embora a sua redução não seja acompanhada, como seria de esperar, por uma subida mais acentuada das contribuições para a Segurança Social.

A nível internacional, a principal “surpresa” nas economias mais desenvolvidas é que os salários “teimam” em não aumentar, apesar da queda da taxa de desemprego. Mas, será mesmo surpresa? Anos de “reformas estruturais” – quase, exclusivamente, através de mudanças na legislação laboral em desfavor do trabalho – globalização e evolução tecnológica reflectiram-se negativamente na capacidade negocial do factor trabalho. Os salários passaram a ser flexíveis para baixo (redução), mas não para cima (aumento). Inverteu-se a tão propalada rigidez do mercado de trabalho?

Caso particular, o da economia mais forte da União Europeia (UE), a Alemanha, onde crescimento económico e baixa taxa de desemprego não têm resultado em aumentos de salários. Esse comportamento dos salários parece ser “surpresa” para muitos responsáveis como, por exemplo, Mario Draghi.

No caso dos EUA, a retoma económica aparenta ser frágil, ao contrário do prometido pela nova Administração, com a taxa de crescimento económico e a taxa de crescimento dos salários a surpreender pela negativa.

Na UE, em particular, a pressão concorrencial é grande e economias, como a alemã, continuam a pressionar os preços dos bens e serviços, que em muitos casos estão ao nível de economias tão débeis como a portuguesa. Basta comparar os preços online, em Portugal e na Alemanha, de serviços como hotéis, viagens, supermercados, restaurantes, para verificar que a economia portuguesa, apesar da retoma económica após anos de estagnação, não terá muita margem de manobra para permitir aumento dos preços de bens e serviços, nomeadamente, de serviços de turismo e viagens.

As empresas portuguesas, nomeadamente do sector de serviços e viagens, terão de se tornar mais eficientes e produtivas. O mais fácil, certamente, é não deixar subir os salários, embora não seja uma solução que garanta sucesso, a longo prazo, por razões já tão conhecidas: os trabalhadores são consumidores!

Na Alemanha, a principal indústria – a indústria automóvel – está envolvida em escândalo em resultado da manipulação dos testes às emissões poluentes e de colusão entre fabricantes. Deste processo resultarão multas pesadas e significativas por várias autoridades regulatórias. O facto poderá mesmo afectar o crescimento da economia alemã e, por arrasto, da economia europeia. Angela Merkel, com o sentido táctico que se conhece, procura manter-se à margem deste escândalo. E mesmo os principais responsáveis da indústria automóvel alegam desconhecimento. A ignorância desses responsáveis suscita, no mínimo, dúvidas e a passividade das autoridades alemãs suscita preocupações.

Entretanto, os mercados financeiros batem “recorde após recorde” o que mais parece indiciar movimentos especulativos do que a verdadeira situação da economia real.

Enquanto factores de instabilidade a nível mundial continuam: Síria, crise de refugiados, tensão EUA-Rússia, tensão com a Coreia do Norte, presidência tumultuosa de Donald Trump, e um processo de negociação do Brexit que começou muito mal, para citar alguns exemplos.

Enfim, este é um verão estranho, ou talvez não…

Comentários

  1. Vi e li o link do post em Draghi. A propósito: muitas vozes na Europa levantam-se para afirmar que a taxa de desemprego em finais de Junho/2017 não é, de facto, 9,1% mas, na realidade, à volta de 18%. A maior certeza disto é o próprio Draghi afirmá-lo, não abandonando o quantitative easing. E porquê? Não se assiste ao ciclo descida da inflação -> aumento dos salários -> subida dos preços. E porquê? A precarização, a flexibilização e o desemprego escondido no mercado de trabalho. A questão da não-subida terá então a ver com a circunstância de, neste contexto, o ajustamento levar mais tempo. As crises agora são mais prolongadas. Enquanto a inflação não der mostras suficientemente claras que vai crescer até 2%, Draghi não altera as taxas de juro. A partir de Setembro, resolvido o processo eleitoral na Alemanha, como será, com Merkel de volta ao poder?

    1. Na linha quatro onde se lê “descida da inflação” deve ler-se “descida do desemprego”.

    2. Caro Professor: o que pensa disto? Gostaria(ou gostariamos) de saber a sua opinião. Acha, de facto, que a taxa de desemprego anda pelos 9% ou está acima?

    3. Caro C. Machado,

      agradeço o seu comentário. As estatísticas são preparadas com base na definição de conceitos. E sucessivas alterações de conceito, iniciadas na presidência de Ronald Reagan nos EUA, tornaram cada vez mais restritivo (e redutor) o conceito de desemprego. Ou seja, sim, parece-me que as estimativas actuais da taxa de desemprego não satisfazem e que subestimam a taxa de desemprego real, nomeadamente porque não consideram os trabalhadores desencorajados que não procuram activamente emprego.

  2. A estratégia dos Alemães foi durante os últimos 10 a 20 anos manterem os salários relativamente baixos para aproveitarem o facto de estarem numa união monetária com países mais fracos. Uma forma que usam para manter os salários baixos (e dessa forma pressionar os salários de outros países como Portugal) é pela importação de mão de obra barata (basicamente escravidão moderna). Com isto mantém o seu superavit na balança comercial que sendo ilegal a UE pouco se mexe no sentido de corrigir. Isto leva ao enriquecimento da Alemanha à custa dos países vizinhos

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