Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

24 de Julho de 2017, 09:05

Por

A solidão da economia

As ciências exactas nem sempre exactamente o são. A exactidão relaciona-se com o grau de conformidade de um valor mensurável em relação a uma medida de referência padrão. Já a precisão evidencia-nos a medida da variabilidade de uma qualquer série de medições em relação a um valor médio. Por outras palavras, se a exactidão é a medida do rigor, a precisão é o detalhe da variação. Exemplificando, a simples e tradicional balança deve ser exacta (ou seja, com medidas correctas) e precisa (com o menor nível possível de variação).

Neste contexto, bem se pode discutir se as chamadas ciências humanas e sociais podem ser chamadas ciências. Não me intrometo neste labirinto científico e na divergência de opiniões. Porém, é possível afirmar, sem grande contestação, que estas disciplinas, umas mais, outras menos, também utilizam métodos considerados científicos.

Fiz esta introdução para chegar à economia, ou segundo alguns autores, à ciência económica. A palavra economia deriva etimologicamente do grego “oikos” e “nomos”, ou seja, a administração do lar, da casa. Acontece que a “casa” vem, desde o século XVIII, com Adam Smith, – considerado o pai da economia moderna – ganhando volume, complexidade e intrincadas interacções. Sobretudo em progressão geométrica alucinante, após a globalização dos mercados, dos movimentos de pessoas, bens e capitais e da diluição dos obstáculos do tempo e do espaço.

No campo económico, constata-se que regras e demonstrações empíricas, dadas antes como adquiridas, se vão esboroando face a sociedades globalizadas e a comportamentos dos agentes económicos imprevisíveis e, não raro, contraditórios e erráticos. A noção de incerteza, do ponto de vista da probabilidade de ocorrência de risco vai sendo engolida pela sua expressão mais superlativa, a da própria imprevisibilidade. Não nos esqueçamos que, regra geral, a economia não pode e não deve recorrer ao método da experimentação científica sobre pessoas e sociedades.

A economia é a ciência social mais amiga da matemática, o que não significa que esta, só por si, garanta a formulação de “leis científicas”. Daí que, embora recorrendo a métodos matemáticos e de inferência estatística, entre outros, a economia é, nesta década do novo século, cada vez mais uma disciplina comportamental e de expectativas. Logo mais dificilmente formatável, modelizável e parametrizável. Este é o grande desafio que se lhe coloca. Um desafio que terá mais a ver com a precisão do que com a exactidão, como acima enunciadas.

Ao contrário dos Prémio Nobel da Química, Física e até Medicina, o Prémio Nobel da Economia pode ser atribuído consecutivamente a economistas reputados, mas com ideias sobre o mesmo tema bastante divergentes, senão mesmo opostas ou contraditórias. A sátira atribuída a Winston Churchill de que “entre dois economistas, há pelo menos três opiniões, sendo que se um deles for Keynes haverá quatro” assume, agora, uma amplitude crescente. Se juntássemos os mais reputados economistas numa fila perfeita, arriscar-nos-íamos a vê-los apontar em todas as direcções e sentidos.

Alguém já terá chamado, exageradamente, aos economistas os “imperialistas das ciências sociais”. De facto, há quem, neste seu ofício, fale como detentor ou monopolista de “verdades” económicas. Todavia, nestes tempos de mudança veloz, bom seria perceber, com humildade, três “postulados”, não só, mas igualmente aplicados à economia: 1º) a economia é demasiado importante para só ser tratada por economistas; 2º) os economistas que só sabem de economia, arriscam-se a saber muito pouco de economia; 3º) Na política económica há sempre alternativas que ofuscam qualquer TINA (“there is no alternative”).

Talvez se peça demais à “solidão” da economia. E da política económica. Ambas importantes, mas não necessariamente predominantes ou hegemónicas face ao primado das pessoas.

Comentários

  1. (1) Um tema muito interessante, já por diversas vezes aflorado neste blog. E tem-se falado algumas vezes no livro de Adérito Sedas Nunes, publicado nos anos 70, “Questões Preliminares sobre as Ciências Sociais”.É um pequeno manual que se afigura muito oportuno na análise deste post. É o tema do “máximo de consciência possível”. Como decidem os economistas? Os economistas de Bruxelas e Berlim que critérios servem, em temas tão importantes como as medidas do “colete-de- forças” que impõem? Que interesses estão a servir? É o interesse comum e geral? Quando diminuo as indemnizações em caso de despedimentos que interesses estou a proteger ? Quando isento as mais-valias em Bolsa que interesses estou a servir? Os economistas influenciam estas decisões.

    (2)A Economia é uma ciência social que curiosamente tem uma forte aplicação matemática. No seio desta ciência configuram-se diversas correntes de pensamento ou seja, o grau de conflitualidade teórica é grande, quando, no campo das ciências puras ou exactas, a conflitualidade só permanece no período de resolução das questões, ou seja, só existe conflitualidade no período de pesquisa e de consolidação de teorias;

    (3)Os economistas têm permanecido perto do poder e têm-se constituído como seus serventuários. Conhecemos muitas envolventes e não vale a pena estar a recordá-las. Servem-se, os economistas, em larga escala, da econometria, ou seja, da análise estatística tradicional aos fenómenos económicos, nomeadamente na análise às chamadas séries cronológicas, o “histórico” das variáveis económicas, com base no método dos mínimos quadrados, devido a Gauss, matemático alemão(1777-1855), a regressão linear ou não-linear;

    (4)As previsões dos economistas têm dado pano para mangas. Uns afirmam que é x(o autor é um keynesiano), outros sustentam que é x + 7(estamos em presença de um neo-clássico), outros ainda que será x + 3(palavras proferidas por um neo-keynesiano), etc…Estamos no campo da aplicação da Economia à luta política. A conflitualidade existente é directamente proporcional ao que está em jogo: os políticos rodeiam-se de economistas para tomarem decisões, mas o prestígio desta ciência social é cada vez menor. O prestígio da actividade de economista anda pelas ruas da amargura. Os fracassos sucedem-se, o maior dos quais a notória incapacidade para lidar com a crise de 2008 que tem apavorado o mundo. Aqui entramos no campo dos economistas que utilizam técnicas de gestão, nomeadamente a teoria dos mercados financeiros. Ninguém percebeu na Wall Street(exceptuando alguns insiders que ganharam muito dinheiro com o assunto) os problemas causados pelo incumprimento do crédito à habitação. A chamada análise de mercado, com as suas poderosas ferramentas informáticas, deixaram o monstro reinar. A teoria dos mercados eficientes que afirma incorporarem os preços dos activos financeiros toda a informação disponível não funcionou. Afinal, o mais elevado grau de eficiência dos mercados financeiros, o forte, por escrutinar os próprios agentes do mercado, os insiders, falhou redondamente;

    (5) Um livro recente “Economic Rules”, de 2015, de Dani Rodrik. Coloca as questões: podemos fazer confiança nos economistas? Os modelos utilizados são consistentes com a realidade, têm um grau aproximado e fiável à realidade? Como é que a psicologia e a sociologia podem ajudar?

  2. As regras da casa grega (a tal economia) não são as regras da bandalheira da barbárie germânica, onde os anglo-saxónicos pertencem.

    Observa-se o atraso milenar, da actual barbárie ocidental, na noção que inventaram para o conceito economia. Inventar significados para os conceitos definidos é, só, a marca do analfabetismo.

    Adam Smith, Ricardo, Marx, Keynes e demais “economistas” nunca estudaram a cultura grega para saber o que era economia. Chamaram-lhe economia como poderiam ter chamado qualquer outro termo que achassem erudito. Como quaisquer outros ignorantes inventaram um significado cretino, ao invés de aprenderem o significado desse conceito. Como era um conceito da civilização, não tinham obviamente bagagem cultural para o perceber. Um germânico não tem meios culturais para perceber as noções da civilização, que é a antítese da pré-histórica cultura germânica.

    A noção de casa é uma noção cultural que não existe nos germânicos, que se sedentariazaram há poucos séculos e não têm a estrutura familiar do mediterrâneo. Uma casa não é um aglomerado de criaturas a chantagearem-se mutuamente. Uma feira (“mercado”) não é uma casa, é a antítese da casa. Uma barbárie não é uma civilização, feira não é economia.

    Economia não é a regra da feira. Oferta e procura não se pratica numa casa, como é óbvio a quem for minimamente civilizado. Coisa que esses “economistas” nunca foram.

    A casa grega, e latina, era a casa da sociedade, isto é, a pólis a civitas. A economia consta das regras da sociedade (conjunto de sócios), das regras dessa partilha voluntária e nunca das regras da chantagem que a barbárie actual pratica. A família é a unidade menor da sociedade. A sociedade era a família lata, decorrente da religião dos antepassados.

    A barbárie ocidental é uma plebe demasiado atrasada e ignorante para se organizar em sociedade e, por isso, não tem economia. Não tem sequer a base cultural (a religião do culto dos antepassados) para formar uma sociedade e uma casa. Pratica crematística (a antítese da economia) devido ao seu atraso cultural milenar e respectiva glorificação da delinquência feirante.

    Há, ainda e principalmente, a incompatibilidade cultural total entre a teologia Abraâmica (judaísmo, cristianismo e islamismo) e a sociedade. Judeus, cristãos e islamicos não praticam economia, os crentes no deus individualista, da divinização do individualismo absoluto, não se agrupam em sociedade, agrupam-se em rebanho (do senhor) ou matilha sempre em função da coerção, e nunca em função da cooperação. Não têm, por isso, economia, porque a base é a coerção e não a cooperação que forma uma casa.

    Quanto à ciência, deveria saber a diferença entre mecanismo e organismo. O mecanismo é básico, linear e repete-se sempre de forma igual. É, por isso, previsível pelas mentes mais simples, os tais cientistas.

    O organismo é um funcionamento complexo, ajustável e reajustável, com tolerâncias funcionais alargadas (típicas dos funcionamentos complexos) não está por isso ao alcance dessa plebe da tentativa e erro (cientistas). A “ciência” é demasiado básica e néscia para ter capacidade de perceber organismos.

    Os seres vivos não são os calhaus que os cientistas tanto gostam de chamar de exactos, por não se mexerem. O “método científico” é o método da estupidez cujo resultado está à vista na poluição planetária.

    A feira (“mercado”) é tão previsível como a guerra. São duas formas de conflito e, por isso, têm a previsibilidade de todos os conflitos. Se fosse economia era mais previsível, as criaturas respeitavam regras definidas na casa e não andavam nessa bandalheira feirante, a tentarem roubarem-se mutuamente e inventarem novas formas de delinquência feirante.

    Portanto, nem economia é a lei da feira germânica, nem a ciência tem habilitações para saber de economia. Mas isso é, provavelmente, demasiado erudito para os pobres de espírito à espera do reino dos céus medievais universitários.

  3. Ainda bem, para si, que chegou a estas conclusöes agora, caso contrário nunca teria sido ministro, a sistema näo tolera heterodoxos. A economia é sem dúvida tudo isso que aqui nos diz e muito mais verdades ficam por dizer. No entanto e para que näo fiquem malentendidos na questäo, näo há nenhuma dualidade de critérios na atribuiçäo do prémio Nobel, como pretende dizer acima, o prémio nobel de economia näo existe, é por isso que ele é atribuido, à imagem da própria “ciência economica”, de forma a remunerar os intresses do momento.

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