Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

20 de Julho de 2017, 08:35

Por

NA TAP, nada (nem gato…) por lebre

Por princípio e sempre que possível, escolho a TAP para fazer viagens aéreas. De um modo geral, com agrado. Fala-se português (ainda que, às vezes, mal se ouve o que nos é dito), é segura e tem melhorado quanto à pontualidade horária. Além disso, é a “nossa companhia aérea”, ainda que, agora, parcialmente detida por capitais estrangeiros.

Acontece que, nas últimas três viagens que fiz na TAP, as primeiras palavras ouvidas ao microfone da aeronave foram surpreendentemente, mais ou menos o seguinte: “por motivo de redução da tripulação deste voo, não haverá serviço de refeições”. Falo de viagens de 3 ou 4 horas, na Europa. Tenho conversado com pessoas amigas que, igualmente, já foram sujeitas a esta dose aérea de austeritarismo.

Percebo a contenção de custos da transportadora. Mas insurjo-me contra o chico-espertismo inerente àquela prática recorrente. Tudo nos é informado como se tratasse de uma situação imprevista e excepcional. Nada disso, pelo que constatei. A tripulação de cabina é a mesma ou quase a mesma. Esta forma de ludibriar os passageiros que pagam o seu bilhete de acordo com o que lhes é indicado (referindo “refeição” ou “refeição ligeira” ou como está no site, “snacks & refeição”) é manifestamente imprópria de uma companhia de bandeira. Não é que a questão da “refeição ligeira” me seja relevante (às vezes, até a dispenso), mas não deixa de indiciar uma má prática, num ambiente predatoriamente concorrencial, sobretudo para os passageiros de outros países que preferiram a TAP. No meu ultimo voo de Frankfurt para Lisboa, ao fim da tarde, a maioria dos passageiros era alemã.

Aliás, ocorreu comigo uma situação caricata neste voo. Depois de ter “mendigado” um copo de água para tomar um medicamento, uma minha neta de 9 anos “reclamou” algo para comer, porque tinha fome e não tem ainda idade para ligar aos avisos prévios da cabina. Gentilmente, uma assistente de bordo veio trazer-lhe uma mini sanduíche, pedindo para a menina ser discreta a comer tão deliciosa iguaria, não fosse algum outro passageiro esfomeado dar pela excepção à regra do jejum.

A TAP quer ter contas equilibradas, reduzir o endividamento e ter lucros para investir em novos aviões e novas escalas. Aplaudo este propósito. Todavia, não creio que sejam acções de redução liliputiana na conta de exploração, com o risco de deterioração da imagem da companhia e da sua atractividade, que resolvam os problemas. Bem, pelo contrário. Há gestos e pormenores que, não raro, se revelam “pormaiores”. Para quem quer viajar sem estes “adereços” de elegância, comodidade e serviço, já há companhias low cost que sobram. Agora fornecer serviço de low cost com preços mais altos não é justo e, a prazo, é danoso para a transportadora nacional. Num país com outra cultura de consumo, a TAP seria obrigada a devolver a parte do serviço que cobrou e não forneceu.

P.S. Completámos esta semana três anos do blogue “Tudo menos economia” e do espaço que o PÚBLICO nos tem disponibilizado nas edições diárias. Ao todo, 1536 textos, com as nossas convicções, com as nossas diferenças, com as nossas escolhas, com a nossa liberdade. Sem dispensar o património da memória e o escrutínio da sua coerência, procuramos contribuir para esse oxímoro de “regresso ao futuro”.

Em ambiente diferenciado, continuaremos a procurar partilhar a nossa visão e análise aprofundadas de múltiplos temas. E também contribuiremos para combater a danosa tendência para a indiferença, que transforma a omissão num caminho, o adiamento num meio, a apatia numa consequência, a insensibilidade numa regra.

Para isso, esperamos poder continuar a contar com a compreensão de quem nos lê e interpela. RC, FL, ABF.

Comentários

  1. “partilhar a nossa visão e análise aprofundadas de múltiplos temas”
    Isto é mesmo é falar do que não sabe nem procurou saber… Sem rigor, sem respeito.

  2. Não é culpa dos PNCs sejam Chefes de cabine ou Supervisores que estão a dar o seu melhor nas piores condições de trabalho e descanso faz décadas!
    Nunca se fez uma omelete sem ovos na TAP ou em casa.
    A falta de tripulantes é recorrente, sente se mais pela aquisição dos novos velhos aviões bem pagos e com péssimas condições de trabalho, e os PNCs continuam a trabalhar e a fazerem de tudo para que os Passageiros não sejam tão prejudicados. Falta de respeito por quem paga um bilhete, o passageiro, e por quem trabalha, o Tripulante, é uma conclusão
    triste e é real.
    Pouco mais se pode fazer do que assistir a esta degradacao com muita revolta. Se o Estado nada faz nem ainda fez para melhorar esta e outras situações na TAP, não são decerto os privados que entraram a prometer e a fazer pagar aviões velhos como novos(???) a preço de fazer corar, e a abrir desmesuradamente novas rotas sabendo que não tinham pessoal para isso…
    Não tiveram tempo? Tiveram.
    Tiveram muito tempo e muitos mais foram os avisos do que se iria passar, caso não conseguissem pensar por eles sozinhos nisto…
    Acharam o quê?
    Que podiam ir para o ar só com 1 tripulante?
    3 Tripulantes?
    Errado!
    Que iam prejudicar o Passageiro?
    Prejudicam Todos e muito!
    À Gateway só interessa o lucro rápido!
    Que iam prejudicar a TAP?
    Lá isso vão…
    Mas não era uma TAP à beira do abismo no governo anterior que precisava urgentemente de ser – entregue- para não causar mais danos aos contribuintes?
    Que nem tinha já dinheiro para o combustível?
    Foi entregue.
    Mas…
    Os Trabalhadores serão decerto os últimos a querer dar má imagem da TAP!
    Será então premonitória e propositada esta imagem?!
    Sacar o maximo no menor tempo!
    A seguir??
    Já cá não estarão mas noutro local à espera da próxima empresa para sanguessugar se não os detiverem.

  3. Doutor Bagão não deite a TAP “abaixo” sem qualquer razão.
    Concordo inteiramente com tudo o que o sr. Peneirol escreve,
    Sabia que os tripulantes da TAP têm de proceder a bordo com tudo o que está escrito nos respetivos manuais e se abrirem exceções, sujeitar-se-ão a processos disciplinares que poderão levar ao despedimento dos mesmos?.

    1. Plenamente de acordo.
      Aliás, está estipulado o número de tripulantes por passageiros. Não garanto que seja 1 por 50, mas não devo andar longe. E a administração da TAP, tanto quanto sei, tem reduzido esse rácio, não cumprindo as regras estabelecidas.
      Para além disdo, não é comum os passageiros conhecerem todas as tatefas que os membros das tripulações são obrigados a executar, para além do serviço de refeições.
      Se a administração quer reduzir custos, que o faça sem ser à custa do bem-estar e segurança dos passageiros e também do trabalho e segurança das suas tripulações.
      Sem todos estes, não há TAP.

    2. O que é que tem que ver o cu com as calças?
      Todas as companhias aéreas e negócios de grande envergadura têm manuais de instruções a respeitar.
      O artigo não foca no pessoal de bordo mas sim na administração. Relei-a e talvez chegue a essa conclusão.

  4. Caríssimos e caríssimo Francisco Louçã, antes de mais as relações entre empresas e funcionários regem-se por regras, como o Francisco tão bem sabe e defende, como tal, para haver serviço de bordo, tal como estipulado pela empresa, com refeições e bebidas, exisiram também negociações, por vezes com cedências para recuperar a empresa, que se obtiveram ao longo de anos.
    Todos sabemos que quem não se dá ao respeito não é respeitado.
    É pena não conhecerem todas as faces da situação, pois o glamour já lá vai e as noites acordadas a trabalhar com um dia de descanso não chegam e contribuem para grande degradação da saúde das pessoas, já para não falar ao nível familiar.
    Claro que se a operação aumenta no verão há que conceber novas soluções, mas parece também haver falta de imaginação… E infelizmente quem paga é o passageiro, objetivo principal de toda a aviação, o que não deixa de ser ridículo.

  5. Não tenho razoes de queixa viajo com a TAP a anos nunca me faltou nada sem falar de que e uma companhia segura .Para mim não ha companhia aérea melhor que a TAP.Parabéns aos pilotos e aos serviçais estão de parabéns.

  6. Aqui temos um exemplo excelente da Operação-padrão/greve de zelo, onde a culpa não é so da TAP, mas também dos sindicatos.

    1. A tripulação da TAP tem uma cultura de serviço medíocre com algumas excepções, mas geralmente cada vez quando viajo com a companhia, parece que a tripulação não gosta de estar preocupada com a atendimento ao cliente e faz só o mínimo necesario. A cultura de serviço tem estar no coração e com a maioria dos tripulantes da TAP, infelizmente isso não acontece.

    2. Sim, a TAP não tem tripulação suficiente durante mais um verão. Porque?!?

    3. É necessário manter 1 tripulante por cada 50 passageiros (regras da IATA). A redução de 4 para 3 tripulantes num A319 não prejudica segurança (porque é que eles tem 4???) Parece que o acordo entre a TAP e os sindicados permite a redução da tripulação, mas resulta em operação-padrão/greve de zelo. Porque? Porque os sindicatos estão a prejudicar a operação da companhia com pessoal desnecessário? isso também ajuda a manter a imagem dos portugueses preguiçosos? Se a cultura dentro da TAP era diferente (como com JetBlue ou Southwest), o objetivo seria – dar o melhor serviço possível tendo em conta as restrições (p.ex. da tripulação reduzida).

    4. Há uma maneira muito facil de resolver este questão da preguiça organizada – começar um programa de vendas da comida abordo, com a percentagem designado às bolsas dos tripulantes. Assim podem melhorar a oferta da comida, reduzir a carga do trabalho (nem todos vão comprar a comida) e manter a oferta do serviço disponível.

  7. Nada por lebre e pratica claramente ilegal. O seu artigo deveria ser suficiente para que regulador e justiça atuem obrigando a Tap a indemnizar os clientes prejudicados e enganados.

  8. Boa tarde. Também me aconteceu há uns dias quando vim de Paris Orly, mas foi-me informado logo no balcão de Check-in. No aeroporto, num restaurante assinalado, podíamos escolher sandes e bebidas antes de embarcar.
    Infelizmente é uma situação recorrente, sobretudo em época alta, sendo que agora já não referem ser devido a tripulação mínima mas sim reduzida.
    Sei que estão neste momento a formar novos tripulantes de cabine, também para colmatar estas situações.

    http://serassistentedebordo.blogspot.pt/

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