Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

7 de Julho de 2017, 11:18

Por

Trabalhos limpinhos e a teoria do buraquinho

Na base de Tancos, a reparação da vedação foi um “trabalho limpinho” diz a empresa responsável pela obra. Talvez tenha sido e até parece provável que o assalto não tenha sido feito pela vedação, cujo buraco pode ser um truque. Entrarem camiões de transporte pesado por um buraco na rede para carregarem caixotes de munições e armas, isso não deve ter acontecido, mas sabe-se lá.

Ora, a teoria do buraco tem encantos surpreendentes e adeptos imprevisíveis. A teoria pode ser enunciada com os seguintes axiomas: se é preciso um assalto de grande envergadura técnica e meios sofisticados, um buraquinho serve; se a operação revela que não havia rondas de segurança, a culpa é de quem não tinha de definir as rondas; e, finalmente, havendo dúvida, dispara para cima. Percebe-se por isso porque é que esta teoria é tão apetecível, tem a vantagem de não haver responsabilidades.

Ao que se lê nos jornais, algumas associações militares estão por isso indignadas pelo facto escandaloso de o Chefe de Estado Maior do Exército ter dito que é uma humilhação descobrir que quem devia fazer a segurança da base é culpado de não haver segurança na base. O general não perfilhou a teoria do buraquinho e isso é uma chatice.

O que no entanto mais me preocupa, além destas ameaças de militares que dizem que vão entregar espadas porque alguém lhes pede contas da sua função militar, é como a teoria do buraquinho se instalou em Portugal e é rainha em diversos domínios. Veja o caso da fuga ao registo das transferências para os offshores, a que Inspecção Geral de Finanças dedicou esta semana um relatório. O relatório diz que não sabe o que aconteceu e parece-lhe que não houve “mão humana” (embora fique por esclarecer se houve mão divina, o que é sempre uma possibilidade). O inspector-geral chegou mesmo a sugerir que sabia de formas mais eficazes de ocultar o registo dessas transferências, no que deve ter razão. Portanto, ou o buraco na rede talvez seja só para disfarçar ou não houve mesmo assalto algum. A direita exultou, respirou de alívio o coitado do Secretário de Estado do CDS que tinha sido recrutado para o governo de um escritório de advogados que se dedicava a offshores, os mais afoitos exigiram pedidos de desculpas, afinal a teoria do buraquinho venceu mais uma vez.

Esta versão da teoria buraquista tem mais uma vez um problema. É que faltou o registo de 10 mil milhões de euros, com uma tripla pontaria infalível: a falha só teria beneficiado dois bancos, o BES e o Montepio; foi quase toda em prol de dois grupos económicos, incluindo o GES/BES no momento em que estava a ocultar as manobras que o levaram à falência; e o software em causa, que magicamente e sem “mão humana” decretou o apagão, incluía outras regras fiscais mas só se olvidou dos dinheirinhos para os offshores. Não pode haver então dúvida alguma: foi um buraco na vedação, depois veio uma mão espiritual, porventura a inteligência artificial de um software malicioso, e o registo de dez mil milhões evaporou-se.

Esta teoria do buraquinho teve nos últimos anos uma versão académica, que se chamou austeridade expansionista: se cortarmos as pensões dos nossos pais, o país empobrece e portanto melhora. E teve uma versão política para uso corrente: se cortarmos as gorduras do Estado, a União Europeia fica contente. Nas duas versões, o capital que circula pelos paraísos fiscais é inexpugnável, passou o buraquinho, e as funções do Estado devem ser reduzidas ao mínimo. O Estado, que tem obrigações fundamentais para com os cidadãos e quem paga impostos, fica ele próprio um vazio. Nas florestas, em Tancos e em todo o lado, o que agora vamos tendo é esse buraco.

Comentários

  1. A “explicação” da IGF é uma vergonha. Houve (mesmo) auditoria ao sistema informático? Foi feita a verificação das datas do software instalado, das actualizações (alterações?) e suas datas, simulações com as versões existentes à data dos “buracos na rede”? Estes dados (ditos “backups”) são guardados durante anos… ou não. Depois haveria ainda para explorar a “pista” dos “outsourcers” – a desnatação dos serviços públicos (designadamente da AT) levou a AP a recorrer massivamente à contratação externa de serviços que, no máximo, deveriam ser de mera execução de tarefas muito bem determinadas mas que vão muito para lá pois muito do conhecimento “migrou” com os técnicos que foram saindo, aliciados por folhas salariais (e outros benefícios) que na AP nem em sonhos poderiam acontecer. Quando surgiu a bronca das “listas VIP” deu para perceber quanta gente tinha acessos privilegiados (até de administração) incluindo pessoas/prestadores fora dos quadros (e das instalações) da AT… há formas de mexer nos registos, eliminando o rasto dessas intervenções. E há uma “infinidade” de potenciais candidatos a fazê-lo, haja “motivação” adequada… tenho muitas dúvidas que tenha havido, na IGF, tempo (e conhecimentos) para explorar e investigar estas e outras vertentes do problema – muito mais fácil e simples excluir intervenção humana (como se o software nascesse e se executasse por geração/acção espontânea ou por intervenção de um ente sobrenatural),.Como diz o ditado popular: “com papas e bolos…”.

  2. Quando a esquerda não tem argumentos lá volta a “fuga para as offshores”, foi o Público há 1 semana que requentou a notícia. Não tem a CGD, o banco público, uma agência nas ilhas Caimão? Porque não a encerra? Quais as perdas para o estado dessas transferências? Existiam impostos a pagar por esses dinheiros terem sido transferidos para as offshores? Não foi o Passos que impediu que o dinheiro dos contribuintes fosse torrado para salvar os Espírito Santo? Não foi o Salgado que insinuou que estivessem outros no governo (PS) o seu grupo se teria salvo? Quem tenta a todo o custo salvar o Montepio com o dinheiro dos pobres (Santa Casa da Misericórdia de Lisboa) não é o governo da geringonça? Assim se tenta fazer esquecer a absoluta anarquia do combate ao incêndio de Pedrogão, relatada no Expresso de há 1 semana. É que não existe maior buraco do que quando se tenta apagar um fogo daquelas proporções apenas na esperança divina ou na fezada que chova (para os que não recordam as palavras da coordenadora do BE no dia do incêndio esperançada que chovesse). Quando ao actual CEME, mais um boy para um cargo de chefia, cuja falta de autoridade tem o efeito que o Louçã descreve, e que substitui o anterior CEME que se demitiu por menos (o caso criado no colégio militar). Esta colocação de boys (e girls) de competência reduzida mas de cartão de partidos da geringonça, tem o efeito que está à vista. O governo substitui no final de 2016 e princípio de 2017 30 das 36 chefias da Protecção Civil (onde andava o BE? Tinha as férias marcadas nessa altura?) com o resultado que teve na organização do combate ao incêndio de Pedrogão (os boys foram o buraquinho da rede que permitiu a entrada do fogo?).

  3. Quando a esquerda não tem argumentos lá volta a “fuga para as offshores”, foi o Público há 1 semana que requentou a notícia. Não tem a CGD, o banco público, uma agência nas ilhas Caimão? Porque não a encerra? Quais as perdas para o estado dessas transferências? Existiam impostos a pagar por esses dinheiros terem sido transferidos para as offshores?
    Não foi o Passos que impediu que o dinheiro dos contribuintes fosse torrado para salvar os Espírito Santo? Não foi o Salgado que insinuou que estivessem outros no governo (PS) o seu grupo se teria salvo?
    Quem tenta a todo o custo salvar o Montepio com o dinheiro dos pobres (Santa Casa da Mesericória de Lisboa) não é o governo da geringonça?
    Assim se tenta fazer esquecer a absoluta anarquia do combate ao incêndio de Pedrogão, relatada no Expresso de há 1 semana. É que não existe maior buraco do que quando se tenta apagar um fogo daquelas proporções apenas na esperança divina ou na fezada que chova (para os que não recordam as palavras da coordenadora do BE no dia do incêndio esperançada que chovesse).
    Quanto ao actual CEME, mais um boy para um cargo de chefia, cuja falta de autoridade tem o efeito que o Louçã descreve, e que substitui o anterior CEME que se demitiu por menos (o caso criado no colégio militar).
    Esta colocação de boys (e girls) de competência reduzida mas de cartão de partidos da geringonça, tem o efeito que está à vista. O governo da geringonça substitui no final de 2016 e princípio de 2017 30 das 36 chefias da Protecção Civil (onde andava o BE? Tinha as férias marcadas nessa altura?) com o resultado que teve na organização do combate ao incêndio de Pedrogão (os boys foram o buraquinho da rede que permitiu a entrada do fogo?).

  4. A crônica é certeira, e aplica-se bem ao Portugal de hoje, onde ninguém é responsável por nada. No passado, e veja-se apontados como exemplo, tivemos 2 ministros que se demitiram, um foi líderar a PT, o outro a Mota Engil (são só 4 biliões), coitados…
    O estado é responsável por metade do PIB, não me parece que o dinheiro das offshore chegasse para grande coisa.

    1. Creio que onde refere PT quereria dizer EDP, ou estarei errado? Se é Mexia o visado, concordo pois saiu do governo em 2005 e “transumou” para a EDP poucos meses depois.
      Quanto ao que passou pela Mota Engil (J. Coelho) e uma vez que é referido, implicitamente, também como “transumante”, suscita-me a seguinte questão: qual o “período de nojo” que considera eticamente aceitável para que um ex-governante possa trabalhar numa empresa de um sector que tutelou: 2 anos? 5 anos? 8 anos?… nunca mais na vida? E, se pergunto, é porque J. Coelho esteve 8,5 anos desde que saiu do governo até entrar para a Mota Engil… se a sua resposta acima foi a última hipótese, então revela coerência no seu comentário, se não, trata-se de uma repetição de um “conto” largamente difundido. Só que a repetição não o torna, necessariamente, verdadeiro… isto independentemente da opinião pessoal, política ou profissional que se possa ter do visado.

    2. Eu pensava em Murteira Nabo.
      Obrigado pela retificação relativamente a Jorge Coelho. Não há qualquer relação entre a demissão e o cargo na Mota Engil.

  5. Os militares são o espelho dos portugueses. Tal como os políticos.

    Os casos são mais que muitos. Sempre foi assim. Ainda desde o famoso caso ‘das batatas’, que mais tarde nem por isso se deixou de transformar num mediático caso político do mais foleiro e alarve que se possa imaginar. O português é assim, estúpido e ignorante.

    Mas com os militares a coisa devia ser mais intolerável e não é pois os casos sucedem-se, a corrupção entranha-se, e aquele mundo já de si obscuro transmite uma imagem inquietante do género de gente que é. Estamos fartos de saber isto.

  6. Um dos mais brilhantes e acutilantes textos de F. Louçã.

    Numa semana invadida por manobras militares, afinal, não fui o único a pensar nos milhares de milhões que passaram – com a bendita ajuda de Núncio, outro ser espiritual que intercede por quem precisa – por entre os (grossos) pingos de chuva, diretamente para os países onde há sol noite e dia.
    A (divina) Cristas é que tem razão – tem de haver demissões dos dois ministros!

  7. E óbvio que o roubo foi de dentro para fora, o “buraco na rede e as câmaras”, e a velocidade com que saiu essa informação, serviram apenas de manobra de diversão para desviar as atenções.
    Há uma solução rápida e simples (e sem “Dutertes militares filipinos”, porque estamos em Portugal):

    Este governo, ou outro, com este ministro ou outro, pode até esquecer as responsabilidades recentes que foram confiadas aos militares, e pode propôr o aumento do orçamento e pessoal militar, a continuação da dignificação da carreira militar e missões no estrangeiro.

    Mas antes, os militares têm que entregar 10 oficiais corruptos de alto nível (incluindo actuais ou ex-chefes de Estado Maior), 60 oficiais corruptos de médio nível, 40 oficiais corruptos, e 40 praças corruptos.

    150, ao todo (o que não é muito, porque só na Operação Zeus da Força Aérea, estão envolvidos quase 100 militares corruptos).
    E não vale a pena os militares entrarem em negacionismos tipo pedofilia no Vaticano ou moralidades… e o PSD-CDS também deviam estar interessados no combate a esta corrupção (que os atinge directamente a eles e à sua cativagem mediática, como se os portugueses já não conhecessem o PSD-CDS e os Média portugueses).

  8. Já tinha havido trovoadas secas desencadeando ignições na selva florestal portuguesa. Um supercomputador inteligentíssimo das Finanças já havia sabido distinguir determinadas proveniências dos montantes de transferências, e também distinguir com a sua preferência determinados destinos delas. O Sol já havia bailado uma vez em cima de uma nuvem. Era uma distracção pategos darem caça a gambozinos. Havia pelo menos um lago onde aparecia por vezes um monstro.
    O que faltava agora era carregarem-se camiões de material de guerra pesado, exigindo manuseamento cuidadoso, através de caminhos inóspitos, fazendo passar o material por um buraquinho da rede. Como dizia o italiano não é verdade, mas é bem achado

  9. O Estado é a instituição instrumental criada pela nação, suprema é intangível instituição do povo que o liga a um território pátrio.

    Cabe ao Estado fazer as funções que lhe autorga a nação: defesa das fronteiras garantindo a ordem externa, defesa da segurança estabelecendo a ordem interna e exercendo a Justiça. Estas três funções libertam a sociedade da “espada” da guerra com os intrusos, do conflito com o vizinho e do exercício da justiça por mãos próprias. Há de comum a estas três funções a ação repressiva que assim se singe a monopólio do Estado.

    Com o Estado o povo, a sociedade, a nação exerce em segurança a liberdade que quer e constrói e cria livre dos constrangimentos do exercício da repressão.

    A relação entre o povo, a sociedade, a nação e o Estado faz-se através da ação política. São os políticos quem governa o Estado.

    A degradação do Estado trás no bojo a devassa do território, precariedade da segurança, inoperância da Justiça e consequentemente trás aridez ao habita do povo, sociedade e nação.

    No caso de Portugal o processo de degradação do Estado é o percurso desenhado e paulatinamente materializado pelos políticos do PS, PSD, CDS que tomaram em suas mãos a entrega do mercado português, seus negócios, sua riqueza, criatividade e futuro a estrangeiros agregados em conflito permanente na chamada UE. Tudo está por um fio e se esvai por um buraquinho para usar a palavra certeira da síntese do texto que hoje nos trás muito bem Francisco Louçã.

    Havendo uma estrutura supranacional, tendencialmente o impossível Estado superestadual resta aos Estados nacionais o papel dos autocratas ou capatazes dos protetorados.

    Cabe ao povo, sociedade, nação recuperar a “espada” para “escorraçar os vendilhões do templo” e recuperar o tempo perdido refazendo o Estado que nos livre de intrusos, nos irmana na segurança e garante a Justiça justa.

  10. Nenhum computador consegue imaginar coisas. Só faz o que lhe manda. Claro que quem manda só manda fazer o que quer. E há coisas muito jeitosas que se podem fazer com computadores. Esconder dinheiro e pistas para crimes é uma delas.

  11. Tem razão em falar na fuga de capitais, mas escusar-se em falar no buraco que representa no bolso dos contribuintes portugueses o buraco das Forças Armadas; dizendo que há buracos maiores, faz com que a sua família politica não seja uma opção credível para governar este país; o que é uma pena!

    Um exemplo ilustrativo:
    Suiça: 183 536 militares activos, 136’393 praças, 29’001 sargentos, 16’944 oficiais, (oficiais, oficiais superiores, e oficiais generais). Apenas 2733 são profissionais. (sim leu bem, dois mil setecentos e trinta e três profissionais, oficiais e sargentos).
    Rácio. soldados/Graduados 3/1.

    Portugal: 31.563 efectivos: Militares dos Quadros Permanentes no Activo: 17.301. Militares em Regime de Contrato e de Voluntariado: 13.750 Militares QP na Reserva mas na Efectividade de Serviço: 512.
    Em Portugal existem mais oficias e sargentos do que soldados. É UMA PIRÂMIDE INVERTIDA, VERGONHOSO….

    1. Também têm bunkers nucleares a fazer de dispensa e a maioria dos homens uma metralhadora a sério. É uma questão de paranoia a Suiça.

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