Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

6 de Julho de 2017, 09:24

Por

Recursos humanos: uma expressão oblíqua

Nas empresas e organizações, a expressão “recursos humanos” está generalizada para designar as pessoas . Ele é recursos financeiros, ele é recursos informáticos, ele é recursos materiais, ele é recursos tecnológicos, ele é recursos naturais, ele é, enfim e às vezes só no fim, recursos humanos. Ou seja, meios, instrumentos para uma determinada finalidade. Historicamente, saltámos do velho conceito marxiano de “força de trabalho” para esta perspectiva igualmente redutora. Bastaria, aliás, substituir a palavra mais suave de “recursos” pelo vocábulo sinónimo de “meios” para melhor se percepcionar, quanto às pessoas, quão discutível é a referida expressão.

Aliás, podemos ler sinceras explicações sobre Recursos Humanos ou o seu acrónimo (RH). Transcrevo uma delas: “a primeira parte faz referencia a Recursos que é um conjunto de elementos que se tem à disposição para resolver uma serie de necessidades. A segunda parte – Humanos – é a adjectivação do termo que equipara com outros como os tecnológicos, os financeiros, etc.

É óbvio que os recursos das pessoas são humanos, mas as pessoas não são recursos (meios) humanos.  A tecnocrática expressão estendeu-se a tudo que diz respeito à gestão das organizações. De tal sorte que há uma crescente e preocupante tendência para ver as pessoas como componentes meramente instrumentais. E, ao mesmo tempo, evidenciando a natureza adjectiva como certos dirigentes vêem o trabalho (dos outros). Hoje a aridez e a impessoalidade com que, não raro, são tratadas as questões laborais é o sinal desta visão estritamente instrumental. Por isso agora, já não há despedimentos (de pessoas), antes há reestruturações (de organizações) ou, em inglês envergonhado e quantitativo, “downsizing” …

Esquece-se, amiúde, que o primeiro fundamento do valor do trabalho é a própria pessoa. É como pessoa que se é sujeito do trabalho. Logo o trabalho nem é um bem-mercadoria, nem um elemento impessoal da organização produtiva.

O trabalho tem uma dupla dimensão: objectiva e subjectiva. Objectivamente, enquanto noção económica e técnica, consiste no conjunto de actividades, meios, instrumentos e técnicas para a produção de bens e serviços. Na sua abordagem subjectiva, trata-se essencialmente de o ver à luz da inerente dignidade do trabalho, porque realizado por uma pessoa. É aqui que se exprime, em plenitude, a sua dimensão ética e deontológica. Esta visão humanista deveria sempre ter preeminência.

Com a globalização desregrada, tem-se acentuado a gestão das pessoas como mera gestão de recursos. O idadismo (ideologicamente significando a atitude preconceituosa e discriminatória com base na idade, levando ao descarte das pessoas ainda relativamente novas nas empresas), a tecnocracia economicista (ou seja, a prevalência dos meios, independentemente dos fins), o poder burocrático (uma forma gélida de separar meios e fins) têm conduzido a formas desumanizadas, senão mesmo de uma perigosa coisificação e robotização das pessoas, ora e apenas recursos.

De um modo quase metafórico, direi que os sistemas contabilísticos vêem as pessoas como custo na Conta de Exploração, mas ignoram-nas no activo dos Balanços (há excepções, como no caso das Sociedades Anónimas Desportivas… onde, todavia, se “vendem” e “compram” atletas chamados activos).

Os melhores decisores são os que vêem as pessoas segundo uma justa ética dos cuidados, que tem na sua base a riqueza da relação interpessoal, afastando a perspectiva impessoalizada, fria e mecânica, e reforçando uma actuação baseada na coordenação de saberes, de ideais, de aspirações, de valores (e não somente de recursos).  Como diz a doutrina social da Igreja, o trabalho é para o homem e não o homem (apenas) para o trabalho.

 

Comentários

  1. Muito bom, Dr Bagão Félix! A pequena ficção que escrevi há alguns anos trata o mesmo tema:

    CAPITAL HUMANO

    “Está ali, senhor comissário”, dizia em voz baixa o gerente da dependência, apontando disfarçadamente.
    O comissário olhou e viu um homem metido num saco-cama, sentado num sofá. Nas mãos tinha um livro de que lia passagens, interrompendo de vez em quando a leitura para passear o olhar em volta, observando ora os clientes, ora os cartazes anunciando os diversos produtos financeiros disponibilizados pelo Banco.
    “Violento?” perguntou o Comissário.
    “De forma alguma”, respondeu o gerente. “Entrou quando abrimos a porta, trazia uma pequena mochila às costas e um saco plástico na mão, enfiou-se no saco-cama e sentou-se ali…”
    “Bem, vou falar com ele. O senhor fique aqui.”
    O agente da autoridade dirige-se ao homem sentado. O gerente, afastado, observa.
    “Bom dia, sou o comissário Neves, da PSP. O senhor é…?”
    “António Lima, senhor comissário.”
    “Senhor Lima, pode explicar-me por que se instalou desta forma aqui no Banco?”
    “Com certeza, senhor comissário. Já podia ter explicado ao gerente, se ele estivesse menos nervoso e me ouvisse, em vez de estar sempre a dizer em voz baixa vá-se embora! vá-se embora!”
    “Então conte lá…”
    “Sabe, senhor comissário, até há uns dias atrás eu era um funcionário administrativo da empresa Almeida & Almeida, fabricantes de sapatos. Trabalhei lá durante desassete anos…
    Sempre me considerei parte do pessoal da empresa, até que há dois anos houve grandes modificações, a empresa chamou uns consultores que andaram por lá a fazer perguntas e a escrever relatórios, e uma das consequências foi que a Secção de Pessoal passou a ser o Departamento de Recursos Humanos.
    Não gostei! Senti que passar a ser considerado um recurso – embora humano – me punha ao nível da fotocopiadora ou do relógio de ponto. Mas não disse nada…
    Há seis meses, a Almeida & Almeida foi comprada por uma multinacional, a “Shoes for All”. Puseram à frente da empresa um destes jovens com o diploma do MBA ainda com a tinta fresca, e em poucos dias deixámos de ser recursos humanos e passámos a ser capital humano.
    Na semana passada ficou clara a intenção da aquisição: a administração anunciou que ia desactivar as secções de fabrico, passando a empresa a funcionar como armazém e centro de distribuição para o material da “Shoes for All” fabricado pelos pequeninos escravos no extremo oriente. A óptima carteira de clientes da Almeida & Almeida foi a cereja no topo do bolo.
    E assim, de uma assentada, 90 por cento do capital humano foi despedido! E tudo para o bem da economia…”
    “Chegado a este ponto, pensei assim: António, quem é que guarda o capital? Os bancos. Então, se tu és capital – embora humano – procura um banco que te guarde. E foi assim que vim para aqui.”
    “Eu fiz a minha parte, agora o Banco tem que fazer a parte dele, não é assim?”
    O homem tinha feito esta descrição num tom calmo, pausado, olhando o comissário nos olhos. Este reflectia no que tinha ouvido e pensava para si: “Mais um que se passou, o desemprego faz destas coisas às pessoas”, mas ao mesmo tempo uma pequenina dúvida surgia no seu estruturado sistema mental, onde o Bem e o Mal ocupavam posições nítidas, e essa dúvida crescia, insidiosa, “e se o homem tivesse alguma razão?”, e a dúvida a crescer, a crescer, e o comissário levantou-se e disse: “Desculpe-me só um momento.”
    Afastou-se alguns metros e ligou o telefone.
    “Chefe, temos aqui um pequeno problema. Preciso que me envie alguém da Psicologia para ajudar a negociar uma situação. OK, fico à espera.”
    Olhou para o homem. António Lima tinha regressado à leitura do livro, alheado do que se passava à sua volta… E na cabeça do comissário Neves, as palavras capital humano soavam cada vez mais estranhas…

  2. Um tema muito interessante os Recursos Humanos(RH):

    Em primeiro lugar gostaria de chamar a atenção para a circunstância de sempre ter havido muita preocupação com este tema. Posso indicar algumas referências:

    – O filme de 1936 de Chaplin, “Os Tempos Modernos” sobre os efeitos da Organização do Trabalho do fordismo, com a cronometragem dos tempos na execução de tarefas nas linhas de montagem industriais. Um filme de grande impacto na altura e que passa regularmente nas Cinematecas de todo o mundo;

    – O filme mais recente de 2000, “Recursos Humanos”, de Laurence Cantet. Novos problemas;

    – O filme de Marco Martins, “São Jorge”, de 2016;

    – O ensaio de Richard Stenner “A Corrupção do Caracter”(Trabalho, Flexibilização e Precarização);

    – Os textos de João Freire sobre o tema Sociologia do Trabalho, com inspiração em Alain Touraine e Pierre Dubois, que produziram muita investigação no tema.

    O que influencia hoje o tema dos RH:

    – Precarização do trabalho, nomeadamente na oferta do mercado de trabalho aos jovens;
    – A financeirização do economia, proveniente da desregulação dos mercados financeiros, trouxe a impotência do poder politico perante o poder do capital. As politicas de RH hoje são uma cortina de fumo utilizada pelas empresas, conduzindo a politicas de gestão que visam simplesmente a maximização dos lucros, utilizando como armas o lobbying e a promiscuidade com os poderes estabelecidos.

    A grande questão:

    – Quem, num mundo como este, pode falar em realização profissional e pessoal pela via do TRABALHO? Pode considerar-se pertinente que se objective o trabalho como lema de vida? Acredito que sim, naquelas pessoas que verdadeiramente trabalham para os outros e para melhorar o mundo: os profissionais da saude, os professores, os cientistas, os artistas e outros trabalhadores com estes correlacionados. Estes são RH;

    – Não se vislumbra que seja plausivel a realização profissional numa organização capitalista, que prossegue o objectivo de quanto maior o lucro melhor, sem olhar a meios para atingir fins, em prejuizo do equilibrio ambiental, da delapidação dos recursos do Planeta ao extremo e, muito importante, como salienta Stenner, acima referido, agredindo a saude fisica e psicologica de quem trabalha.

    Questão de ordem geral:

    Nunca existiram politicas de RH; existiram simplesmente avanços e recuos no desenvolvimento do Modo de Produção Capitalista. A proletarização do campesinato e o advento dos avanços tecnologicos levaram ao alargamento da classe adstrita aos serviços(middle class) e contribuiram para a menorização do trabalho manual pela crescente robotização.

  3. Bom o instinto (aliás, as coisas estão bem à vista) mas sem perceber o essencial a meu ver.

    Gostei particularmente da falácia “inerente dignidade do trabalho porque praticado por uma pessoa”, como por exemplo esta se vender na rua ou traficar armas ou dedicar-se à política profissional.

    De qualquer maneira saudo o texto e o sentimento que lhe deu origem. Um bem haja professor.

    Ps: encontra nos textos do grupo krisis/exit uma revisão marxista do trabalho. Muito mais leve e para férias o Bob Black. O cubano cunhado do Marx também tem válidos pontos de vista, a hidle magazine etc é um tema cada vez mais “trabalhado” 😉

  4. Saudo o ESPAÇO PUBLICO de hoje 6a feira, da autoria de Antonio Bagão Felix! Enquanto docente universitário de disciplinas relacionadas com Gestão de Recursos Humanos, na Universidade de Lisboa aquele input parece-me da maior importancia. A ‘coisificação’ das pessoas nos ambientes organizacionais é um mal que, alem de historicamente paradoxal – A saga de Hawthorne foi o contrario, uma libertação de condições opressoras e alienantes – é, também trágico, um pouco, como a emergência do vocabulário de guerra dos ‘danos colaterais’ do jornalismo dos ‘fatos alternativos’ e dos drones assassinos como video jogos. É bom lembrar, como é entendido, que a confusão de dimensões leva a erros lógicos e de decisão em diferentes domínios da vida empresarial, corporativa e social, como a discriminação etária, e não apenas de gênero – tanto que as organizações podiam aproveitar da ‘experiência/saber refletido dos seus colaboradores mais velhos!
    Bem haja António Bagão Felix, keep doing the good (mindful) work!

  5. Dr. Bagão Félix
    Parabéns pelo artigo. Muitas vezes (nem sempre) discordo do que escreve, mas, desta vez, só posso felicitá-lo.
    RH é expressão generalizada de que não gosto e que infelizmente é a semanticamente adequada a uma certa cultura empresarial.

    José Neto

  6. Tudo certo, infelizmente.
    Agora, as pessoas (meras coisas ou números) não são despedidas: a fórmula que mais se utiliza é “a partir de (data, com um mês de antecedência) deixará de ser nosso colaborador”.
    Para agravar ainda mais o cenário, abusa-se nas exigências (mesmo físicas) aos trabalhadores, porque “enquanto a máquina resistir” maiores serão os ganhos: o princípio de uma moderna versão de “escravatura”. As entidades com responsabilidade (com deveres) alheiam-se e, se questionados, escudam-se em argumentos falsos, não investigados. Inadmissível!
    Sempre pensei que a Concertação Social se esforçasse, pelo exemplo, em dignificar quem trabalha: no mínimo, levar a considerar os parafusos num nível diferente dos outros recursos, as pessoas.

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