Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

5 de Julho de 2017, 18:33

Por

Críticas às estatísticas espanholas serão fumo sem fogo

Um grupo de 4 economistas espanhóis tem vindo a argumentar, desde Julho de 2016, que as estatísticas espanholas têm sido manipuladas pelo Instituto Nacional de Estatística de Espanha, perante a passividade do Eurostat, tendo escrito inclusive uma carta ao presidente do Eurogrupo a solicitar a sua intervenção. Escreveram igualmente uma carta, não se entende bem com que lógica, ao presidente do Bundesbank, Jens Weidmann.

Segundo esses economistas a dívida pública espanhola seria 171% do PIB (e não 99,4% do PIB) e o PIB espanhol seria cerca de 18% inferior ao declarado pelas autoridades estatísticas espanholas (e pelo Eurostat). Em resultado, o défice público seria muito superior ao anunciado.

Afirmam que chegaram à sua conclusão utilizando metodologias diferentes e que a sua análise teria sido validada pelo Kiel Institute for the World Economy. Da informação disponível, depreende-se que defendem que uma quebra na correlação de séries estatísticas, a partir de 2008, por exemplo, entre o valor acrescentado bruto do sector dos serviços e o índice de actividade no sector dos serviços, somente poderia ser explicada por manipulação dos dados da série do valor acrescentado bruto, pelas autoridades estatísticas espanholas.

Logo no mesmo mês, Juan Ramon Rallo argumentou que existem outras explicações possíveis, mais simples, para a divergência das séries, nomeadamente, uma queda das importações, que se reflectiria nos índices de actividade económica mas não nas estatísticas do valor acrescentado. Refere os casos de outros países, em que se inclui Portugal, em que ocorre uma divergência acentuada das duas séries a partir de 2008. A sua explicação faz sentido: quebras de correlação entre duas séries estatísticas não significam necessariamente que “há gato”.

Para mais, o peso das receitas das Administrações Públicas espanholas, em relação ao PIB, embora também sugira uma quebra da correlação a partir de 2008, tem-se mantido relativamente estável.

Mas os quatro economistas continuaram a insistir na sua tese durante 2017.

A dívida pública de Espanha (óptica de Maastricht) no final de 2016 era de 99,4% do PIB, mas a dívida externa líquida é algo superior à de Portugal. Espanha, tal como Portugal, apresenta um ligeiro excedente da balança corrente e de capital, que tem permitido a ambos países melhorar ligeiramente a sua posição de investimento internacional. A taxa de desemprego jovem continua muito elevada. E os salários teimam em não subir para muitos espanhóis.

Ou seja, Espanha, como Portugal, Grécia, Irlanda e vários outros países da zona euro e da União Europeia, apresentam desequilíbrios externos muito substanciais – a zona euro continua a atravessar a maior crise de balança de pagamentos e de dívida externa da História, em tempos de paz – que têm sido varridos para baixo do tapete pelas autoridades europeias.

Mas afigura-se que não existe fundamento para sustentar que as estatísticas espanholas estão a ser adulteradas. As metodologias estatísticas são imperfeitas e podem igualmente ocorrer erros. Embora se possa compreender que as autoridades estatísticas espanholas e europeias tenham mais que fazer do que responder a acusações de manipulação na produção das estatísticas oficiais era, porém, importante que rebatessem formalmente os argumentos desses economistas, sobretudo porque as preocupações destes tiveram algum eco na imprensa internacional. Caso contrário, ficará sempre a suspeita de que onde há fumo haverá fogo …

Comentários

  1. Fico sempre intrigado com esta constatação sua, de facto fácil de confirmar no eurostat ou no tradingeconomics, de que “a zona euro continua a atravessar a maior crise de balança de pagamentos e de dívida externa da História, em tempos de paz”. Ocorre-me que não estejamos mais em “tempos de paz”, que simplesmente seja a natureza da guerra que mudou. Em vez de ser com o aço das armas, é agora com as depredações dos sistemas financeiros que se subjugam povos e nações às “diferentes velocidades” da suserania a Bruxelas.

  2. Dizem-se eles “especialistas”.

    Até eu, sem formação nenhuma em economia, percebo que o factor que provoca a quebra na série é o saldo externo, que passou do negativo -9.3% em 2008, para apenas -4.3% no ano seguinte, e tem vindo a melhorar até ao positivo +2.2% do PIB.

    Quando se faz a conta da variação do PIB, por mais que o mercado interno funcione bem (e os tais índices da produção e dos serviços sejam positivos), se a conta externa é negativa (se há muita importação a mais do que exportação), então isso retira valor ao PIB, como acontecia na periferia da Zona Euro desde a entrada em vigor da moeda única, até começarem os “ajustamentos”.

    Agora, a economia interna até pode ter índices menos positivos do que tinha, mas como a conta externa está em terreno positivo (mais dinheiro a entrar do que a sair), isso é adicionado ao PIB. Logo a sua variação fica mais positiva.

    Isto aconteceu em Espanha (de 2008 em diante), e como o artigo bem referiu, acontece também em Portugal (mas mais tarde, de 2010 para a frente).
    Estivémos equilibrados desde 1984 (estabilização da democracia e da economia) e até 1995. Mas assim que as políticas de Maastricht (e os desequilíbrios do €uro) se fizeram sentir, começámos a perder dinheiro diretamente para a Alemanha.
    Os fundos comunitários não compensaram sequer um parte desta perda! E agora ainda menos!

    Só tenho pena de uma coisa: que sejamos todos a pagar esta factura, e não a possamos mandar só para casa dos €uro-peístas. Querem a moeda única, mas não querem resolver (nem sequer reconhecer) os seus desequilíbrios? Então paguem vocês! Eu falo por mim: enquanto contribuinte Portugês, estou farto de andar a sustentar (o saldo externo, e como tal o nível de vida dos) Alemães e Holandeses!!!

    1. Concordo completamente consigo na sua queixa de “que sejamos todos a pagar esta factura, e não a possamos mandar só para casa dos €uro-peístas”. Mais ainda porque estes €uropeismos entre nós nunca foram referendados (por alguma razão qdo referendaram o euro em países como a Dinamarca e Suécia foi recusado).

  3. A queda das importações é explicada pela introdução ou começo da austeridade. Provoca, claro, “perda de correlação”. Ou seja: r, compreendido entre -1 e 1, muda de valor.

    Uma tentativa de dramatizar a situação? Luta entre partidos tradicionais. Déjà vu.

    Organismos estatais em suspeita? Abrem-se novos formas de fazer politica?

    Outra perspectiva: e que tal tentar a abordagem bayesiana?

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