Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

29 de Junho de 2017, 08:50

Por

A praga das conferências e quejandos

A “liturgia” conferencista tem associada uma hierarquia na sua denominação. Começa por uma despretensiosa mesa-redonda, um simples painel ou um passageiro encontro ou jornada. Passa depois para os rituais intermédios de uma palestra, de um seminário, de uma conferência. Termina com a grandiloquência de um simpósio, de uma convenção, de uma oração de sapiência ou de um congresso.

Como os temas já estão quase todos repassados até à exaustão, a técnica de chamamento é a de juntar-lhes um qualquer aditivo linguístico que aumente a excitação intelectual e impressione os menos atentos. Tudo com o inevitável ponto de interrogação no fim do título para atrair os media.

Os eventos têm as suas personagens paradigmáticas, entre actores principais, secundários e anónimos figurantes. Comecemos por estes. Desde logo, o papa-conferências. Faz colecção destes eventos como eu me recordo ter feito dos cromos das bandeiras do universo. Vai a todas. Por diferentes razões. Há o que deseja dormir o merecido sono depois de insónias resistentes aos fármacos; o que, por ociosidade precoce, prefere um bom assento com ar condicionado a um qualquer trabalho entediante; o que, por curiosidade labrega, se concentra na recepção da documentação, na esferográfica insignificante e nas três folhas de papel branco numa reles pasta que tresanda a plástico; o que, por necessidade, assesta as baterias estomacais para os excitantes intervalos, abocando todos os petit fours e mini-sanduíches no menor tempo possível; o que faz do evento um happening social, cumprimentando tudo e todos, distribuindo cartões de visita e metendo-se na conversa onde não é chamado; o que, quando lhe cheira a televisão ou revista social, não perde pitada de tão interessante palestra. Há, por fim, os que estão interessados em escutar as alocuções, mas esses são uma minoria!

Outra personagem não dispensável nestas reuniões é o atento ouvinte para o qual, não raro, as perguntas demoram quase tanto tempo como a exposição. Sabe de tudo, desde a mecatrónica até ao budismo. Opina com a certeza dos iluminados. Anuncia duas perguntas que, afinal, são quatro. No entrementes, com o obrigatório escarnecer desta ou daquela coisa que, neste país, é um desastre comparada com a experiência que bem diz conhecer de outras partes do globo. É claro que, para o conferencista, o mais difícil, ou mesmo impossível, é perceber, no meio daquela glosa, onde está a pergunta. Lembro-me de, numa delas, o conferencista, muito sabiamente, ter dito ao interpelante que “não tinha pergunta para tão eloquente resposta”.

Entre os oradores também há de todo o sortido: quem se prepare responsável e profissionalmente, certamente uma minoria; quem faça gala em lançar algumas ideias sobre matéria que não domina; quem, a propósito de um certo tema, fala exaustivamente de um outro qualquer; quem queira ser o último a intervir para fazer ignorantemente a síntese sempre iniciada pelo habitual “como já tão bem disse fulano” ou “como já afirmou beltrano, pouco mais tenho a acrescentar”; quem despeje um qualquer texto retirado directamente do seu micro-ondas discursivo; quem hoje defenda uma posição e amanhã o seu contrário em função da clientela acústica; quem impressione com a parafernália do computador e seus derivados ou com uma enxurrada de termos estrangeiros.

Como seria bom um tempo de nojo destes eventos! Estou seguro que a iliteracia não aumentaria, os espíritos descansariam e o PIB cresceria.

Ah! Há, por regra, um detalhe bastante sedutor para o conferencista: ficar eternamente grato pelo convite, pagar da sua conta as despesas e nem sequer ser abordado sobre honorários. Mesmo que o auditório tenha pago para assistir ao evento. A não ser que o palestrante seja um ilustre desconhecido vindo da estranja!

Comentários

  1. Fiz um comentário, o robô do Público disse-me que já tinha feito “esse comentário ” e desapareceu. Aqui vai de novo, e peço desculpa se o outro ainda aparecer.
    Perguntava se o senhor comentador entendia o ridículo deste texto, que podia chamar-se “A praga dos opinadores e quejandos”. Porque a uma conferência vai quem quer e só incomoda quem vai, mas as “opiniões” do Dr. _______ (preencher com um nome qualquer, a gosto) invadem a comunicação social, que é um espaço público.
    Uma coisa é certa: aos debitadores de opinião alguém paga as contas…

    1. O seu comentário é muito habitual em certo tipo de mentes, direi mesmo quase censórias. Escreve-se sobre um qualquer assunto e o comentário consiste em concluir que afinal o tema deveria ser outro(neste caso até com mudança de título). O mundo seria certamente feliz sem opinadores, a não ser o próprio. No meu caso, tem ao seu dispor todas as formas possíveis de zapping… Não se atormente. E como também é típico de comentadores que sentenciam sobre a vida dos outros sem dela nada conhecerem, devo dizer-lhe caro comentador que na larga maioria dos meus comentários na televisão, rádio e imprensa, nada recebo .

    2. Não se preocupe, está longe de mim querer censurá-lo. Aliás, isso seria quixotesco, tantos são os sítios onde aparece. E não me interprete mal: eu não disse que recebe. Disse apenas que alguém paga as contas dos debitadores de opinião, embora estes finjam sempre que não sabem. Mas, agora a sério, não entendeu mesmo o ridículo em que caiu? E a sua estratégia de debate é mesmo a de criticar “as mentes”, e generalizar, em vez de rebater opiniões? Certo…

  2. Pergunto-me se o senhor comentador terá dado conta do ridículo. O título desta “peça” podia muito bem ser “A praga dos opinadores e quejandos”. Essa é “a” verdadeira praga, porque às conferências vai quem quer e incomoda quem vai, mas o espaço da comunicação social é público. Ou acha que ligar a televisão, a telefonia ou abrir um jornal e dar de caras com a cara, a voz e mais uma opinião do _______ (preencher à vontade), sobre seja lá o que for, é agradável ou interessante?
    E nem pergunta quanto cobram, porque é evidente que alguém lhes paga as despesas.

  3. É verdade, sim senhor! Saliente-se a frase: ‘os temas já estão quase todos repassados até à exaustão’! Por que se mantêm então dia após dia, hora após hora? Há alguém que está a tirar dividendos com isto tudo e há alguém que está a querer tirar dividendos! Este fumo intoxicante que se tem propagado sem fim à vista nos nossos media (e que será a inspiração bem por detrás desta crónica de BF) só se justifica porque os media estão a ‘queimar’ todas as pontas possíveis e imaginárias que se lhe possam mesmo que vagamente relacionar na tentativa de haver uma eclosão maior que agrade a quem lhes paga e os alimenta, só pode ser. De resto, tudo está clarinho, toda a gente conhece o país em que vive, conhece o nosso povo e a nossa terra e para além de sermos um povo com qualidades humanas apreciáveis, somos um povo muito primitivo, e temos que perceber que o mal acontece às vezes mais por sermos assim, às vezes… temos sorte! Desta vez, não tivemos sorte!

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