Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

26 de Junho de 2017, 08:19

Por

Miguel Beleza

miguel_belezaHá poucas semanas, havíamos conversado pelo telefone. Pelas duas últimas vezes. Por sua iniciativa. Do Miguel, adepto do FC Porto, para mim, benfiquista. Com a elegância e com a genuinidade que sempre transportava, o Miguel entendeu que me deveria dar os parabéns. Por causa de vitórias no futebol, esse desporto que se vem transformando num multiplicador de zangas, senão mesmo de ódios. Da primeira vez, felicitou-me pelo tetracampeonato. Da segunda vez, pela conquista da Taça.  Falo deste detalhe, apenas para dizer que, nele, não era um detalhe. Porque a grandeza de uma pessoa não está apenas naquilo que é grande aos olhos dos outros, mas também nas pequenas coisas, aquelas que, tantas vezes, melhor definem o carácter. Ele, o Miguel, sempre foi de uma enorme nobreza e grandeza de alma nos assuntos da razão, como nos momentos da emoção, na profundidade do compreensível, como nos interstícios do sensível.

Falámos, ainda, de outras coisas. Combinámos um almoço que seria dentro de dias. E ouvi dele palavras sobre os momentos difíceis que passámos no Banco de Portugal na década de 90. Com a magnanimidade de espírito que sempre evidenciou, agradeceu-me ter estado sempre ao seu lado. Agradecer-me, Miguel, porquê? Confesso agora que fiquei com um sentimento algo estranho, até porque, desde aqueles tempos vividos há mais de 20 anos, não costumávamos deles falar. Mesmo quando depois fomos para o mesmo grupo trabalhar e estávamos amiúde juntos. Um momento que, hoje, quase interpreto como um tempo de despedida. E o nosso almoço já não aconteceu. E já não pude beneficiar do seu humor acutilantemente inteligente e docemente partilhado.

Perante a morte somos sempre mais compulsivamente generosos. Como dizia Machado de Assis: “Está morto: podemos elogiá-lo à vontade”. Miguel Beleza não precisa desse suplemento de generosidade ou desse ritual de elogio fúnebre, para dele se falar e o recordar.

Até porque, como escreveu Montaigne “não nos tornamos diferentes por morrer”. Pelo que devemos interpretar a morte segundo a vida.

É assim, com emoção e tristeza, que escrevo, ainda que desta forma breve e simbólica, sobre o Miguel. Uma pessoa de enorme riqueza intelectual e ética. Um exemplo de profunda e plena dignidade neste nosso Portugal que bem precisa de se apoiar na exemplaridade das pessoas boas e sinalizadoras.

Um economista eloquente, um homem público inteiro, um amigo incondicional, uma pessoa naturalmente simples, um homem plenamente livre e responsável nas suas facetas humanista, profissional, pedagógica, técnica, cívica e política.

De uma inteligência ímpar, de uma lucidez inconformada, de um discernimento sábio, de um optimismo lúcido e irreverente, sempre ele colocou essas qualidades ao serviço da autenticidade, do bem comum e do genuíno e desinteressado sentido de serviço público.

Nunca foi um homem instalado. Jamais pôs legítimos interesses pessoais à frente dos valores e princípios em que acreditava. Foi sempre um militante da utopia para construir o futuro.

Um espírito aberto, uma mente sempre receptiva para escutar, inteligentemente reformador. Nunca o vi levantar a voz para defender a sua razão. Nunca o vi ser deselegante perante a razão dos outros. Respeitador da diferença, nunca erguia muros, mas procurava edificar pontes.

Frontal e sincero, acutilante e afável, enérgico e suave, foi um homem respeitado e um economista admirado.

Miguel Beleza foi, em suma, uma pessoa superior no nosso país. Uma pessoa superior por tudo o que já referi, mas sobretudo porque a sua exigência para com os outros era sempre precedida da exigência para consigo mesmo.

Obrigado meu querido amigo! Fica agora a memória, o pensamento e a saudade. E o exemplo. Voltaremos, um dia a falar, tenho essa esperança!

 

Comentários

  1. É feio dizer mal dos mortos. Não o vou fazer. Mas, achava a personagem assaz diletante(no sentido de cultivar as letras e as ciências por gosto), agradável. Nos debates televisivos não lhe era estranha a presença de mulheres bonitas. Chegou a elogiá-las em público num “Prós e Contras” da RTP-1. Recordo os grandes elogios à beleza da politóloga Marina Costa Lobo. Muito interessante a sua personalidade . Era, no fundo, um exemplo contrário à rigidez de certas personalidades da direita, aquelas que “nunca se enganam e raramente têm dúvidas”. Era muito pouco cinzento.

    Para mim, por outro lado, continua a ser um mistério e uma total incompreensão esta predilecção dos homens públicos pela clubite. Não descortinam – estamos a falar de economistas – a artificialidade e a ligeireza da entourage, que nada tem a ver com a beleza do jogo? Expliquem-me, por favor, este comportamento, que, no fundo, é uma forma de aligeirar o mundo negro que os rectângulos de futebol escondem.

    Em resumo: um homem de direita, mas de comportamento altamente humano que muito apreciava.

    RIP.

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